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Disco

Pato Fu em mais um álbum lúdico para crianças e adultos

Até o duplo sentido de Severina Xique-Xique virou brincadeira

Publicado em 10/09/2017, às 08h43

Pato Fu, brinquedos na música / foto: Nino Andres/divulgação
Pato Fu, brinquedos na música
foto: Nino Andres/divulgação
JOSÉ TELES

O telefone toca, eu atendo, digo um alô e a pessoa que ligou se identifica: “Aqui é a Fernanda, de Minas”.Não me lembro de conhecer nenhuma Fernanda de Minas. De repente, me lembro de que tinha uma entrevista marcada com o Pato Fu, para conversar sobre o novo disco do grupo, Música de Brinquedo 2. A Fernanda de Minas é a Fernanda Takai, vocalista da banda. Geralmente são os assessores que ligam para os jornalistas, para em seguida passar a ligação para o artista.
“Acho que o Pato Fu tem uma existência surreal dentro da MPB, nos equilibramos entre o mainstream e o indie”, diz a CANTORA mineira, antes de comentar Música de Brinquedo 2, um disco cujo repertório reúne mistura alhos com bugalhos, faz opostos se atraírem, e tem uma versão de um clássico do forró de duplo sentido. Tudo isto num trabalho que se imagina tenha sido feito para crianças: “É também para adultos que gostam de música divertida”, esclarece Fernanda Takai.

Há 25 anos na estrada, a Pato Fu, cujo nome vem de uma historinha do gato Garfield, mas pode também ser entendido como Pato Maluco (um dos significados do francês “Fou”). E o que esperar de uma banda cujo primeiro CD, de 1993, porta o escalafobético título de Rotomusic de Liquidificapum? Aliás, nesse álbum a Pato Fu já adentrava o universo da música infantil com uma versão de O Sítio do Pica-pau Amarelo, de Gilberto Gil.

Em Música de Brinquedo 2, a banda revisita Gil, gravando Palco, uma canção para adultos. Nesta coisa da música, uma linha tênue separa o gosto de adultos ou crianças, como reforça Fernanda: “Quando morava em Jacobina (no sertão baiano), lá em casa a gente ouvia rádio e tocava tudo. Sílvio Brito, Gilberto Gil, Genival Lacerda, era uma misturada completa. Não havia a segmentação de hoje, em que a pessoas tem escutado música de um sentido só. Entre as músicas que eu escutava naquele tempo, tinha Kid Cavaquinho, com Maria Alcina e aquele vozeirão, que podia também ser uma música de criança”.

BRINQUEDO

O “brinquedo” no nome do disco não quer dizer que as canções foram formatadas para a meninada, e sim que foram tocadas com instrumentos de brinquedo, os mais inusitados possíveis. Os integrantes do Pato Fu radicalizaram o conceito de Hermeto Pascoal de que tudo é coisa musical. Ou pelo menos o tornaram mais lúdico. Assim é que, por exemplo, uma espécie de vuvuzela, que os torcedores brasileiros levam aos estádios, e com ele John Ulhoa, o guitarrista, faz o som a cuíca em Kid Cavaquinho. De uma galinha de borracha vem o som de zabumba em Severina Xique-Xique, clássico do forró de duplo sentido, do paraibano João Gonçalves, lançada por Genival Lacerda há 42 anos.



Se parece estranho um duplo sentido num disco assim, que dirá uma música dos Raimundos, que já iam além o duplo sentido? Mas se um hit dançante do ex-Menudo Ricky Martin pode, por que não Os Raimundos? O que interessa aqui é a diversão garantida ou o seu dinheiro de volta. Para chegar ao pretendido vale tudo, até uma volta ao começo dos anos 60, e trazer de volta Datemi um Martello, um hit mundial da estrelinha  italiana Rita Pavone, que fez uma versão também lúdica da protest song If I Had a Hammer, canção folk assinada pelo americano Peter Seeger.

Poderia entrar qualquer coisa no disco, inclusive o rock pesado do Led Zeppelin: “A gente queria gravar D’Yer Maker, do Led, mas não conseguimos a autorização, editora não liberou. Então substituímos por Private Idaho, do B-52, que no final das contas está mais dentro do espírito do disco”, conta Fernanda Takai. O Música de Brinquedo é de sete anos atrás e foi um dos mais bem-sucedidos projetos da Pato Fu, que percorreu o país com o show do disco, registrado em DVD com o grupo Giramundo. A sequência terá o mesmo destino.

O grupo ensaia para cair na estrada, uma trupe que lembra a de um circo, sete músicos, três marionetistas do Giramundo e um imenso aparato de objetos que produzem barulhinhos bons, e difíceis de tirar: “É tudo bem artesanal, dá trabalho conseguir o tom certo, mas no fim dá sempre certo”.

REPERTÓRIO

Palco (Gilberto Gil, 1980)
Livin' la Vida Loca (Desmond Child, Robi Rosa e Luis Gómez Escolar, 1999)
Kid Cavaquinho (João Bosco e Aldir Blanc, 1974)
I Saw You Saying (That You Say That You Saw) (Rodolfo Abrantes e Gabriel Thomaz, 1995)
Rock da Cachorra (Leo Jaime, 1982)
Datemi un Martello (versão gravada em 1964, de If I Had a Hammer, Pete Seeger, 1949)
Severina Xique-Xique (João Gonçalves e Genival Lacerda, 1975)
Every Breath You Take (Sting, 1983)
Mamãe Natureza (Rita Lee, 1974)
Private Idaho (Schneider/Strickland/Wilson & Wilson/Pierson, 1980)
Não se Vá (Tu t'en vas, de Alain Bellec, versão gravada por Jane e Herondy em 1977)


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