Jornal do Commercio
Crítica

Show do Trinca de Ases no Recife merece ficar na memória

Gal Gosta, Gilberto Gil e Nando Reis fizeram apresentação afinada e sem formalidades no Recife Antigo

Publicado em 12/10/2017, às 02h06

Trio misturou repertório individual com novas versões que animaram o público / Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Trio misturou repertório individual com novas versões que animaram o público
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Bruno Albertim
JC Online

Poucas vezes, na história recente do show biz brasuca, um título de show fez tanto sentido. Juntos, os veteraníssimos Gal Costa, Gilberto Gil e o já maduro Nando Reis são mesmo uma “Trinca de Ases”. Não houve (como costuma acontecer quando vemos mais de uma estrela assinando os cartazes do mesmo show) três shows partidos intercalados. No palco, os três heróis da música brasileira jogam com a garra de uma verdadeira banda. E que banda.

O show começa atiçando curiosidades para todos os lados. A guitarra de Gil, ainda insipiente, mas já insinuando a força que ganharia nos momentos seguintes. O violão aderente de Nando Reis e, soberana, a voz de Gal que, aos 70, não deixa mesmo nada no lugar depois que se solta. Intérprete limitado e letrista de bons achados, o ex-titã mostra também que, se se mantiver firme a serviço da composição, poderá fechar a carreira com uma obra capaz de figurar ao lado da genialidade da geração que o antecede. Ainda que Gal estivesse visivelmente tateando sua parceria de palco com Nando Reis, como se desentrosados, logo se entenderiam.

O show abre com as inéditas “Trinca de ases” e "Dupla de ás” . Sucesso na voz da finada Cássia Aller, All Star ganhou nova dimensão afetiva com Gal: pena Nando não ter dado mais espaço para Gal de fato redimensionar a letra, atropelando a cantora com uma ansiedade meio adolescente. Em alguns momentos, deixou Gal perdida ao microfone tomando, guloso, a música para si. A diva apenas esperava sua vez de conseguir de novo soltar a voz.



Antes, Gal brilhou com Baby, o clássico à prova de cansaços em que ela, ainda que hoje mais confortável com notas mais graves,  mantém o cristalino potente de sua voz. "Refavela", cantada em trio, provocou mais arrepios. Este é o trunfo do show surgido depois que os três, por um feliz acaso, se reuniram em Brasília para um pequeno concerto em memória do democrata, ícone do movimento pelas eleições Diretas no Brasil, Ulisses Guimarães: não cai na armadilha fácil de desfilar sucessos sem maior esforço. No show, clássicos são alternados com pérolas recém reveladas. "Espatódea", menos radiofônica do repertório de Nando, ganha linda luminosidade poética com Gal. 

E haja novas luzes para evitar o lugar comum: música que fecha o antológico álbum "Gal Profana", "Nada mais", uma versão de Ronaldo Bastos para "Lately", de Stevie Wonder, começa com Nando cantando o original em inglês e Gal tomando as rédeas em português. Quando Gal assumiu a música, apenas desfilou sua divindade. Foi ovacionada por longos três minutos.

Comunhão no palco

Localizada num dos galpões do (novo) Recife Antigo, o Itaipava 14, apesar do burburinho do público, bem festivo, recebeu super bem a apresentação. Com espírito de banda pop, o trio de estrelas se beneficiou da ausência do formalismo, mesmo sem a acústica adequada, de um teatro. Ao lado do antológico encontro de Marisa Monte com Gilberto Gil, esse Trinca de Ases merece morar na memória. Poucas vezes estrelas tão consistentes terão se encontrado tão verdadeiramente num palco. Sorte da cidade ter sido uma das pouquíssimas a figurar na turnê. Ainda que meio morninha, "Barato Total" fechou a noite deixando um carinho de se cortar de faca no ar.


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