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Louro do Pajeú

Tonfil e Bia Marinho DNA que vem com sonoridades

Neto e filha do poeta Louro, eles unem a tradição poética do Pajeú à lírica da MPB

Publicado em 14/01/2018, às 05h42

Tonfil em cena: a poesia do Pajeú e a melhor lírica da MPB numa voz única / Mariana Pinheiro / Especial para o JC
Tonfil em cena: a poesia do Pajeú e a melhor lírica da MPB numa voz única
Mariana Pinheiro / Especial para o JC
Bruno Albertim

Antônio José de Lima Filho, conhecido simplesmente como Tonfil, tem uma memória remota – e certeira – de Louro do Pajeú. “Eu devia ter uns dois anos quando meu avô morreu”, recorda. “Mas me lembro, numa memória quase colorida, de ele se aproximando da minha cabeça, encostando a testa na minha testa. Gosto de dizer que o primeiro trocadilho dele que conheci foi um ‘trocadolhos”.

Dono de uma voz aderente, aveludada, ele, que também é artista plástico, pintor de retratos densos em que contemporaniza a escola renascentista do "chiaroscuro', na qual contrastes de luz e cor potencializam e dramatizam subjetividades dos personagens na tela, Tonfil é o mais novo cantor da família Patriota Marinho. Ao lado da tia Bia Marinho, conhecida pelo apelido-síntese de A voz do Pajeú, o rapaz faz roçar a poética do Sertão na musicalidade lírica e contemporânea brasileira.

Cantar sempre foi algo constante nos almoços em casa. “Minha tia, Maura Marinho, e minha mãe têm algumas das vozes mais bonitas da família”, diz ele, que, menino, ia aprendendo com a mãe, Maria Helena, a cantar letras muito anteriores ao seu nascimento, petardos de nomes clássicos da história da canção e da era do rádio no Brasil. Aos 12 anos, já soltava a voz, de forma competitiva, nas últimas edições do Festival de Música de São José do Egito, antiga plataforma de revelação de talentos na região.

Com participação dos músicos Vinícius Sarmento e (seu primo) Greg Marinho nas cordas, lançou em 2011, seu primeiro álbum, Acontecer. O disco agradou a ouvidos exigentes. A convite dos compositores, participou, em 2015, de Luar Agreste do Céu Cariri, de Xico Bezerra e Dominguinhos, que teria, ali, antes de morrer, seu último registro em disco.



O neto tem consciência de seu DNA musical. “As vozes melodiosas lá de casa puxaram à do meu bisavô Antônio Marinho, que, além de repentista, tinha uma voz muito bonita. Às vezes fico pensando sobre como temos vozes parecidas com pessoas da vida da gente, e que a gente nunca vai saber ao certo como se deu essa genética vocal, sonora”, diz. “Louro não tinha uma voz bonita, mas dele eu tenho o gosto pelos trocadilhos”, diz ele, também poeta. “Gosto de poesia sintética, de mais significados que palavras”, diz o autor do livro de poemas curtos conhecidos como haicais Cosmigalha.

GEOGRAFIA ÍNTIMA

Filha mais nova de Louro, Bia Marinho também canta sua geografia íntima. “Não seria jamais a cantora que sou, se não fosse de onde sou. Canto o dia a dia. O palco é apenas a tradução, das amizades, do repente. Da poesia de Louro”, diz ela que, ao casar com o músico Zeto, falecido precocemente aos 46 anos em 2002, se reinventou musicalmente. “Antes, eu achava que poesia era apenas ritmada e metrificada. Zeto trouxe a poesia de Fernando Pessoa e Alberto da Cunha Melo para minha vida”.
Antes de gravar o antológico disco Estrada com o marido, Bia se viu diante da formalidade de Zeto pedindo sua mão ao pai. Como se tateasse as palavras, Louro do Pajeú, humor constante, abreviou a conversa: “Pode levar a mão, rapaz, é só o que ela falta lhe dar”. “Eu e pai tínhamos muita intimidade. Minha mãe me incentivava, e meu pai tinha uma crença pessoal em mim não apenas como cantora, mas como pessoa”.

Madura, Bia vai lambendo as crias musicais da família. “Vixe Maria, dizem que eu sou a voz do Pajeú. Mas eu acho que essa voz é a de Ton. Tonfil tem uma voz que faz bem. Como dizem os matutos daqui, não tem ‘comparecência’. Ninguém tem a voz de anjo dele”.


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