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Afrobeat

Femi e Seun Kuti trilham os mesmos caminho de Fela Kuti

Os irmãos nigerianos estendem as fronteiras do Afrobeat

Publicado em 14/03/2018, às 09h40

Seun e Femi Kuti, continuando o legado de Fela Kuti / foto: divulgação/Knitting Factory recs.
Seun e Femi Kuti, continuando o legado de Fela Kuti
foto: divulgação/Knitting Factory recs.
JOSÉ TELES

O nigeriano Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti, ou simplesmente Fela Kuti, faria 80 anos em outubro de 2018. Falecido há 20 anos, ele nunca alcançou a popularidade de, digamos, Bob Marley. A partir de estilos musicais correntes na Nigéria, com influência de jazz e soul (sobretudo de James Brown), ele ajudou a formatar o afrobeat, que logo se disseminou pelo continente africano.

 Porém, somente em anos recentes foi que extrapolou essa fronteira para se incorporar à linguagem musical contemporânea. Mesmo assim, o afrobeat não vai muito além do status de cult, nos EUA, Europa ou América do Sul (no Brasil está presente no som de muitas bandas, a maioria dos anos 2000).

 Na África, no entanto, continua cada vez mais popular. Dois dos filhos de Fela Kuti (que teve 27 mulheres) são superstars, Femi Kuti, o mais velho, e Seun Kuti, o caçula. O primeiro, 56 anos, foi o continuador da obra do pai, não apenas como curador,  mas também por sua própria música, embora só tenha gravado álbum solo em 1995. O segundo, de 35 anos, procura levar adiante o legado de Fela, atualizando o afrobeat, aproximando-o de tendências mais contemporâneas. Os dois cantam numa Nigéria muito mais fácil de se viver, para o que muito contribuiu a luta de Fela Kuti.

 Durante a ditadura do General Olusegun Obasanjo, Fela tornou-se o inimigo nº1 do regime militar, a quem fustigava com música e entrevistas, e que culminou em retaliação física, motivada pelo LP Zombie (1977). O repertório, tão virulento quanto bem-sucedido do disco, levou ao envio de mil soldados à chamada República de Kalakuta, onde o músico vivia com a família, mantinha um nightclub e montou um estúdio de gravação. Os soldados massacraram o músico, estupraram as mulheres que encontraram. A mãe do cantor, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, de 82 anos, foi atirada pela janela, e morreu.

 Fela não se dobrou. Levou o caixão da mãe até a residência oficial do ditador, em Lagos, e continuou protestando em sua música contra o regime. Uma novela com um capítulo escatológico. Em 1975, soldados “plantaram-lhe” um baseado com a finalidade de encarcerá-lo com a prova forjada. Fela Kuti livrou-se da erva, engolindo-a. Foi para a cadeia mesmo assim. A polícia esperou que ele defecasse para fazer a análise clínica dos excrementos. Fizeram e deu negativo. Dizem que Fela entregou-lhes as fezes de outro preso. Inspirou-se no episódio para fazer o álbum Expensive Shit merda cara).

 A repressão continuou ao longo dos anos 90, com prisões e o reconhecimento de sua luta por entidades internacionais. Em 1986, ele participou da turnê A Conspiracy of Hope, da Anistia Internacional, com Carlos Santana, Bono, e Neville Brothers. A metralhadora giratória de Fela continuou disparando e não apenas contra o governo corrupto da Nigéria. Disparou contra a primeira ministra inglesa Margareth Thatcher, contra o presidente americano Ronald Regan, contra o presidente Pieter Botha do regime racista da África do Sul.



 Ao mesmo tempo em que se jogava na política, refinava sua música, cada vez mais. Para ser entendido, cantava num patuá inglês, espécie de dialeto comum à boa parte dos países africanos. Talvez por ser tão regional é que a música de Fela demorou a ser assimilada

CONTINUAÇÃO

 Tanto Femi quanto Seun Kuti levam o afrobeat mundo afora. Esta semana, Seun, por exemplo, com o grupo Egypt 80, se apresenta em São Paulo e no Rio. Ambos estão com disco novos. Femi Kuti com One People One World (Knitting Factory), Seun Kuti & Egypt 80 com Black Times (Strut Records). A música cubana tem suas raízes plantadas na África, quase na mesma profundidade que a música americana. Vem dos tempos em que Cuba colaborava na reconstrução de países africanos assolados por guerras fratricidas nos anos 60 e 70. Uma presença que é bem clara em Angola, e é escancarada em One People One World, de Femi Kuti.

 A canção que dá título ao álbum poderia ser rotulada de afrocubanbeat. Tem a repetição de riffs, marca do afrobeat, ae guitarra base, um dínamo que move a banda, os metais e palhetas azeitados, mais o suingue irresistível cubano. Femi Kuti, por mais dançante que seja sua música, não deixa de lado o fervor político. Mostra-se indignado pelos problemas que continuam a assolar a Nigéria e seus vizinhos, miséria e corrupção, principalmente.

 Abre o disco gritando contra esta situação, que teima em perdurar, em Africa Will Be Great Again. A makossa da República do Camarões aparece em Best to Live on the Good Side. Atenção para o contrabaixo, uma impressionante usina sonora, tocado por Made Kuti, filho de Femi Kuti.

 Em Black Times, Seun Kuti está mais próximo da sonoridade de Fela, até porque é acompanhado por remanescentes da banda Egypt 80, que tocava com ele, uma banda impecável. Prestando-se atenção a um determinado instrumento, sobretudo bateria ou guitarra, tem-se a impressão de que cada um toca um ritmo diferente. Mas é uma massa sonora compacta, em grandes canções, e um cantor cuja voz não apenas soa semelhante à de Fela, como tem a mesma energia. Black Times, a música, conta com a guitarra de Carlos


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