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Paulo Diniz: "Ganhei muito dinheiro, gastei tudo, não me arrependo"

Seus discos venderam muito nos anos 70, mas estão fora de catálogo

Publicado em 16/04/2018, às 17h12

Paulo Diniz, contando histórias / Foto: JC Imagem
Paulo Diniz, contando histórias
Foto: JC Imagem
JOSÉ TELES

Paulo Diniz está sentado numa cama de casal, num dos quartos do apartamento onde mora, próximo à pracinha de Boa Viagem. Ao lado dele, dois violões. O cantor, que entre 1970 e 1973 foi um dos maiores vendedores de discos do País, com pelo menos meia dúzia de estrondosos sucessos nacionais, revela que não está mais fazendo show. Continua compondo, porém, admite, nada do que escreve é do seu agrado: “É difícil compor, estou fora de tudo, não circulo, não converso com ninguém, não troco ideias. Estou passando uma fase incrível, minha realidade hoje é a vida em outro circuito. Só converso com o enfermeiro”.

Os sintomas da doença que o colocou na situação em que está surgiram nos anos 80, mas levaram duas décadas para que os médicos chegassem a um diagnóstico: “Eu casei com uma mineira. Quando ia para a região onde a família dela morava, tomava muito banho de rio. Tinha muito chistossoma por lá. Passou um tempo meu organismo resistindo, dei uma bobeada qualquer, e pegou. Quando fui fazer tratamento, a doença (a esquistossomose) já estava estabilizada”.

Nascido em Pesqueira, em 24 de janeiro de 1940, Paulo Diniz descobriu cedo que possuía inclinação para locução. Trabalhou na Rádio Difusora (hoje Rádio Jornal) em sua cidade natal, veio para o Recife no começo dos anos 60. Depois de se virar fazendo biscates, conseguiu ser contratado pela Rádio Jornal do Commercio, de onde foi despedido sumariamente, depois de, numa emergência, substituir o locutor do Repórter Esso. A demissão foi por errar todas as pronúncias das palavra e nomes em inglês. Sorte dele que, desempregado, decidiu ir para o Rio de Janeiro: “Cheguei meia-noite, meio-dia era empregado da Tupi, depois fui pra Globo. Passei por algumas rádios menores. Eu vou me gabar um pouco, nunca tinha feito música. No Rio, não conhecia artistas. Mas sou muito malandro e tenho muita música em mim”.

“Caitituagem” era como se chamava o trabalho dos divulgadores de discos. Percorriam os estúdios das emissoras, com o artista a tiracolo, tentando emplacar entrevistas ou que se tocasse a música carro-chefe do disco: “ Todo mundo ia lá caitituar, Roberto Carlos ia. Eu estava na Rádio Globo, ele estava começando, estourando com Splish Splash. Depois, houve um atrito com o pessoal da rádio, e pararam de tocar Roberto. A Rádio Globo era no quarto andar do prédio do jornal. Um dia, estou na janela e chega Roberto, pensei que ele ia descer na rádio, mas o elevador passou direto. Foi falar com Roberto Marinho, que depois veio dizer que Roberto era amigo da casa, a gente tinha que prestigiar”.

Três anos depois, Paulo Diniz estaria cantando no programa Jovem Guarda, estourado em todo Brasil com o iê-iê-iê O Chorão, de Edson Mello e Luiz Keller, autores poucos conhecidos mas de muitos sucessos populares. O Chorão, gravado na Copacabana, foi o que se chama hoje de “viral”. Canção de letra engraçada, com apenas dois acordes, “viralizou” país afora. Na época, era comum apresentador de rádio gravar, sobretudo marchinhas carnavalescas ou canções despretensiosas e engraçadas:

“Eu queria gravar uma música e não achava. Era locutor da Rádio Globo, todo mundo me dava versões. Gravei versões como a de Western Union, dos Five Americans. Versão de Rossini Pinto, com o título de Meu Benzinho. Fui acompanhado por todo mundo, era um pouco de cada conjunto, de Renato e seus Bluecaps, com gente dos Fevers. Mas quando gravei O Chorão sabia que ia estourar. Ela tocou por muito tempo, me levou para programas como o Jovem Guarda e o Rio Hit Parade, na TV Rio, ganhei muito dinheiro, comprei uma fusca. Um dia parei o carro em frente ao Solar da Fossa, e fui morar lá”.

NO SOLAR

O Solar da Fossa foi uma espécie de protótipo do conceito de flat. Um enorme casarão, dividido em pequenos apartamentos, localizado onde hoje está o Shopping Rio Sul, em Botafogo, Zona Sul carioca. Entre 1964 e 1971, o Solar da Fossa, nome surgido entre os próprios inquilinos, abrigou uma constelação inacreditável, para os tempos atuais, de cantores, compositores, atores, cineastas, escritores. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Tim Maia, Darlene Glória, Naná Vasconcelos, Paulo Leminski, entre muitos outros. Boa parte estrelas em ascensão, feito Leminski:



“Era um ilustre desconhecido do Paraná, de falar pouco, ia direto para as redações. Não sabia que ia ficar tão célebre. Eu sou índio de Pesqueira, ficava lá, deitado numa rede. Quando Leminski chegava, ia pro seu quarto, levava um violão, a gente bebia vinho, fumava uma coisinha. Rolava tudo, tinha um filhinho muito lindo, Kiko, mas foi um amizade ligeira. Por acaso, ele disse que ia me dar um tema para uma música”. O tema do poeta deu nome a um dos sucessos de Paulo Diniz, Ponha um Arco-Íris na sua Moringa (do álbum Quero Voltar pra Bahia, 1970).

O contato com tantos talentos instigou Paulo Diniz a compor. Logo, ele encontraria o parceiro com quem assinaria hits como Pingos de Amor, Um Chope pra Distrair, Piri Piri e a citada Ponha um Arco-íris na sua Moringa: “Ele me viu na TV e um dia chegou perto de mim dizendo que tinha uma música. Gostei do que mostrou. O cara só andava com o violão na mão, fizemos primeiro Brasil, Brasa Braseiro, em 1967, tirando sarro. Ele morava perto do Palácio do Catete, Odibar Moreira da Silva, acho que o nome era uma mistura de Odilon e Baracira, a mãe dele, uma baiana, boa de cozinha”, lembra Paulo Diniz.

Odibar morreu sem ter o talento reconhecido. Chegou a tentar a carreira na CBS. Acompanhado ao violão por Sérgio Sampaio, fez um teste para o produtor da gravadora, Raul Seixas, mas não foi aprovado. O sucesso chegou para Paulo Diniz através das páginas do semanário O Pasquim, surgido em 1969, e que revolucionou a imprensa brasileira. Amargando a residência forçada em Londres, Caetano Veloso mantinha uma coluna no jornal, escrita no formato de cartas. Foi a inspiração para Quero Voltar Para a Bahia, parceria com Odibar, que Wilson Simonal quis lançar:

“Mas eu não dei. Fiz Um Chope pra Distrair, que achei caber na voz dele. Ele não gostou. Até pra me amostrar um pouco, toquei Quero Voltar pra Bahia, e ele pediu para gravar. Disse que aquela era minha, eu precisava de um sucesso”. Intuição que se provou acertada. Foi uma das músicas mais tocadas no Brasil em 1970, com dezenas de gravações. Com essa canção, ele levantaria a plateia do Maracanãzinho, em 1971, no Festival Internacional. Não concorreu, fez um show especial de abertura.

Curiosamente, Quero Voltar pra Bahia, mesmo referindo-se claramente a um artista persona non grata à ditadura militar, banido do país, não esbarrou na censura: “Quando ele voltou ao Brasil, nos encontramos perto do Teatro Opinião, acho que foi num show de Alceu. Ele tomando um cafezinho, num bar, em pé, e pergunta pra mim, quem fez Quero voltar pra Bahia, eu falei que fui eu. Ficou nisso, ele nunca deu bola pra mim”, comenta Paulo Diniz (Caetano Veloso, em 2014, cantou Quero Voltar pra Bahia, no Rio, num show no Circo Voador).

Se com Caetano Veloso ele ainda trocou algumas palavras, Paulo Diniz nunca sequer viu o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor de José, musicado pelo pesqueirense, que batizou a canção como E Agora José? (verso inicial do poema), que também deu nome ao LP (de 1972). Paulo Diniz até hoje não sabe se Drummond aprovou ou não o uso de “José”: “Li uma vez, num jornal do Rio, ele dizer que não conseguia mais ler o poema sem se lembrar da melodia”.

Outros poemas foram musicados por Paulo Diniz. Vou Me Embora pra Pasárgada, do recifense Manuel Bandeira, foi um sucesso menor. Com o poeta, de Palmares, Juarez Correya, ele assinou a maioria das faixas de Estrada (1976), o penúltimo pela Odeon, e que fechou a série de sucessos nacionais de Diniz. A Odeon só lançou em CD o álbum de 1970, os demais são raridades em vinil, que nem o artista tem. Ele diz que pretende gravar disco de inéditas, cita DJ Dolores e o Maestro Forró como parceiros com quem gostaria de trabalhar. Não é muito de pensar no passado, não que se arrependa do que fez ou deixou de fazer. “Ganhei muito dinheiro, gastei tudo, com champanhe, mulheres. Não me arrependo. Se tivesse com muito dinheiro agora, de que me serviria?


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