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rei do baião

Abertas as homenagens pelo centenário de Luiz Gonzaga

No dia em que se comemoram os 99 anos do mais importante artista da música popular brasileira, o sertanejo de Exu Luiz Gonzaga, o Jornal do Commercio inicia a publicação de quatro cadernos especiais para reverenciar o rei do baião

Publicado em 13/12/2011, às 08h21

 / Foto: Memorial Luiz Gonzaga

Foto: Memorial Luiz Gonzaga

José Teles

No dia em que se comemoram os 99 anos do mais importante artista da música popular brasileira, o sertanejo de Exu Luiz Gonzaga, o Jornal do Commercio inicia a publicação de quatro cadernos especiais para reverenciar o rei do baião. O objetivo não é explicar o fenômeno da longevidade da influência de Gonzagão: pretende observar os desdobramentos diversos do imenso legado do artista. Em Pernambuco, no Brasil e no exterior, onde o baião, sem apelações ao ufanismo, foi mais influente do que se imagina. Parabéns, pois, para seu Luiz, o homem que não foi apenas o cantador de uma região, mas de todo o povo brasileiro.

Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1912, em Exu (PE), foi o mais importante nome da música popular brasileira em todos os tempos. Pode-se fazer tal afirmação sem correr o risco de cometer uma heresia numa terra que deu gênios como Tom Jobim, Chico Buarque, Ary Barroso ou Noel Rosa.

A importância de Luiz Gonzaga deve-se à abrangência que sua obra teve - e tem - por todo o território brasileiro. Não há região no Brasil onde não se faça alguma música cujas origens não estejam no que Gonzaga disseminou pelo País a partir de 1946, quando começou o reinado do baião. São raros os compositores, surgidos depois de seu Lua, que não tenham em seu repertório um baião, um xote, um xaxado, alguns dos vários ritmos nordestinos estilizados e urbanizados por ele.

Nos anos 50, quase nenhuma estrela da era do rádio ficou imune ao baião. Em 1953, na Columbia, o jovem Cauby Peixoto lançou o baião Caruaru (Belmiro Barrela). Nelson Gonçalves, ídolo no Brasil inteiro, com uma obra que pontificavam sambas-canção e tangos passionais, rendeu-se ao ritmo da moda e até compôs um baião, em parceria com Dênis Brean, Vai meu baião (1952). No Recife, o maestro Nelson Ferreira atreveu-se a mexer no frevo de rua, enxertando o ritmo pernambucano com o baião, em Isquenta muié, gravado em 1954, pela Orquestra do Maestro Zacarias.

Compositores de samba e marchinhas carnavalescas, boleros ou tangos, embarcaram no trem do baião: David Nasser, Hervé Cordovil, Klecius Caldas e Armando Cavalcanti foram alguns deles. Até o autor romântico russo Tchaikovski entrou para o mundo do baião, em 1958, com a sua Suite quebra-nozes, peça adaptada pelo maestro Panicalli para o ritmo. Mais do que qualquer outro gênero musical, o baião amealhou adeptos dos mais variados estilos. A música de João Gilberto causou impacto quando surgiu em 1958. Jovens, principalmente, aderiram à bossa nova imediatamente. No entanto, com exceções, a bossa nova não atraiu artistas da velha guarda. Pelo contrário, criou-se logo uma corrente contrária. Críticos polemizavam na imprensa pró ou contra a bossa nova.

ARRASA-QUARTEIRÃO - O baião foi aceito sem ressalvas. Quer dizer, a não ser de vozes isoladas, provavelmente pelo arrasa-quarteirão que foi o ritmo, que chegou a ameaçar a soberania do samba. Em 1955, numa entrevista para a Revista de Música Popular, Dorival Caymmi, amigo de boemia de Humberto Teixeira, alfineta o ritmo do momento: "A nossa música popular recebe em cada fase muitas influências exóticas e de um caráter estritamente comercial. Há muitas falsidades, como o baião e a música do morro".

Um exemplo recente dá uma ideia da força da obra de Lua na música popular brasileira (e até erudita). Recanto, o recente disco da cantora baiana Gal Costa, considerado o mais experimentalista já feito por ela, termina com um baião escrito por Caetano Veloso. Não por acaso, foi com um baião que Caetano começou a ser conhecido como compositor (Boa palavra, com o qual ganhou o prêmio de Melhor Letra, no festival da Record, em 1966). Reforçando a afirmativa, na virada do século 20, a TV Globo realizou uma enquete para escolha da música do século. Ganhou Águas de março, de Tom Jobim, um baião.

A carreira de Luiz Gonzaga é a vitória do improvável. O caboclo nordestino, semianalfabeto - filho de meeiros em uma fazenda de um coronel sertanejo -, cuja mais destacada posição na sociedade até chegar ao sucesso foi a de ex-soldado do exército. Apesar disso tudo, Luiz Gonzaga venceu como artista do rádio e do disco na então capital federal. Sua voz passou a ser ouvida no País inteiro.

Sua popularidade em meados dos anos 1950 era tanta que as máquinas da RCA, em tempos de lançamentos de um novo disco do Rei do Baião, trabalhavam só para ele. Mais extraordinário: 70 anos depois de ter conseguido gravar o primeiro 78rpm, ele e sua obra continuam reverenciados, influentes. Como explicar o fenômeno Luiz Gonzaga e a influência de sua música até os dias de hoje? É o que pretende esta série de cadernos especiais iniciada hoje, numa data simbólica, a do seu aniversário de 99 anos, e que terminará em 13 de dezembro de 2012, dia em que Gonzagão completaria 100 anos.

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