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Expresso 2222

Disco antológico de Gilberto Gil completa 40 anos

Ele antecipou Expresso 2222 em show no Recife

Publicado em 30/06/2012, às 06h00

José Teles

“Para o que se faz no Brasil hoje, 16 canais é um exagero, porém um amáquina de oito canais é indispensável”. Quem tece o comentário é o violonista e produtor Roberto Menescal, responsável pela coordenação de produção do álbum Expresso 2222, de Gilberto Gil, gravado entre abril e maio de 1972, cujos 40 anos vai ser lembrado com a reedição do álbum pela Universal Music.O cantor acabava de voltar ao Brasil, fazia seu primeiro disco brasileiro desde o álbum tropicalista de 1968. A Phillips (atual Universal Music) apostava no sucesso do álbum, tanto que alugou o mais bem aparelhado estúdio do país na época, o Eldorado, em São Paulo, o primeiro a possuir uma moderníssima mesa de 16 canais (um dos técnicos de som era o recifense Marcus Vinicius). canto da ema (Alventino Cavalcanti/Aires Viana/João do Vale), uma das faixas de Expresso 2222, foi a primeira gravação brasileira feita em 16 canais.

Gil canta o disco inteiro acompanhado-se ao violão e com uma banda de músicos muito jovens. O baixista americano Bruce Henry, 22 anos; o baterista baiano Tutty Moreno, 24 anos; o chinês (sic) Lanny Gordin, 20 anos; o pianista baiano Perna Fróes, o mais velho, 27 anos (que trocaria a música pela medicina). Enquanto o disco vai sendo gravado, começa-se a trabalhar na capa. A capa original (que está sendo reproduzida no relançamento do álbum pela Universal Music) é redonda, com abas dobráveis (em cada uma foto dos músicos da banda). Uma capa objeto, que se torna um cubo. Na capa a foto de Pedrinho, filho de Gil (falecido, aos 19 anos, em um acidente de carro).

Quem assinou o projeto foi o baiano Edinísio Ribeiro, que contou com o trabalho de três fotógrafos, Edson Santos, Eduardo Clark e Sylvinha Tinoco. A um custo de aproximadamente CR$ 5 mil foi a capa mais cara de um disco no Brasil, páreo para a do disco Transa, de Caetano Veloso, do mesmo ano. Aliás, Expresso 2222 foi na época o disco mais caro feito no Brasil. Um estúdio comum cobrava, em média, CR$ 150 por hora, enquanto no estúdio Eldorado o preço aumentava para CR$ 400. Foram gastos CR$ 10 mil só no aluguel do estúdio. Mais CR$ 28 mil com passagens e hospedagens do grupo.

Não se sabe quanto se gastou nas comidinhas e bebidinhas consumidas durante as gravações, frequentadas pelos amigos do baiano, sendo Gal Costa presença constante. A bebida no estúdio: Banchá, um chá macrobiótico, arroz integral (“...segunda mais um dia ou dois/na base do arroz integral/segura mais um/chega a dez/ que a barra vai ficar legal”, de Macrobiótica, música da época, inédita até hoje). Gal cantou com Gil a derradeira canção gravada para Expresso 2222, Sai do sereno (Onildo Almeida).


 

NO TEATRO DO PARQUE

Gil ao voltar do exílio, em Londres, escolheu o Recife para fazer o primeiro show no Brasil. Aproveitou para desobrir novos sons. Chegou ao Quinteto Violado pelo baterista do grupo, Luciano Pimentel, que participou do trio que tocou com Gil na temporada que realizou, em 1967, no Teatro Popular do Nordeste. Outro artista local com quem esteve foi o violonista Canhoto da Paraíba.

Com ele, Gilberto Gil gravou nada menos de oito horas, de uma música que, infelizmente, permanece até hoje no ineditismo, “um dos maiores  instrumentistas que já ouviu”, segundo entrevista concedida por Gil ao jornal Rolling Stone (a primeira edição nacional), em abril de 1972. Não foi a única gravação de Gilberto Gil em Pernambuco. Para uma das faixas de Expresso 2222, ele tem algumas horas de gravação com a Banda de Pífano de Caruaru, dos Irmãos Biano (há anos em São Paulo)..A música incluída no disco foi Pipoca moderna, depois receberia letra de Caetano Veloso que a gravaria no disco Joia (1975).

O Recife teve o privilégio de assistir à estreia do show da volta de Gilberto Gil, numa minitemporada de três apresentações, no Teatro do Parque. O cantor não se apresentava no Brasil desde o Barra 69, com Caetano Veloso, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Para cobrir o show vieram ao Recife, enviados dos principais jornais brasileiros. No entanto, logo no começo, quando cantava Oriente, misteriosamente, faltou energia no Recife. Teve quem quem suspeitasse de apagão proposital, afinal Gil ainda era persona non grata para a ditadura, que vivia os anos Medici. Gil continuou à base de voz e violão.

Segurou a onda durante oito músicas, até ser avisado de que não havia previsão para a energia voltar. Os shows seguintes transcorreram normalmente, desta vez sem interrupções, a não ser para calorosos aplausos do público que lotou o Teatro do Parque. No show, além de composições já clássicas, Gil cantou pate do repertório do disco que se preparava para gravar e algumas que nunca gravou, como Babylon e Bachiana Bahia.

Gal Costa veio de carro, com uma irmã dela, de Salvador. Da turma dos baianos estiveram no Teatro do Parque: Sandra Gadelha, então mulher de Gil, Dedé Gadelha, irmã de Sandra e, na época, mulher de Caetano Veloso. Jards Macalé, e José Carlos Capinam. Gilberto Gil continuou a turnê por Salvador, Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Porto Alegre e voltou à Europa. Depois de uma série de apresentações em palcos europeus, ele voltou a morar definitivamente no Brasil e começu a para gravar Expresso 2222.

 

 

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