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Disco

Um músico que sai do esquecimento

O pernambucano Walter Wanderley tem parte da obra relançada

Publicado em 10/07/2012, às 06h00

José Teles


Entre final dos anos 50, e meados da década seguinte, o organista pernambucano Walter Wanderley foi um dos músicos mais populares do país. Entre 1957 e 1965, ele gravou 15 LPs, um repertório de música instrumental, direcionados sobretudo à dança.  Walter Wanderley gravou o primeiro álbum, Festa dançante em 1957, pela RGE. A música do disco era a mesma que costumava tocar em casas noturnas. Sucessos nacionais e internacionais que tentava reproduzir o clima das boates e bares da época. Ele foi dos primeiros músicos brasileiros a empregar um órgão como instrumento solo do conjunto. A partir de Eu,você e Walter Wanderley e seu Conjunto, de 1959 (Odeon), até Sucessos + boleros (1966) seus discos sempre venderam bem, sem que precisasse se curvar ao ritmo do momento. Neste ano Walter Wanderley pegou o avião da bossa e foi para os Estados Unidos, onde conseguiria ser relativamente bem-sucedido, tanto como acompanhante da baiana Astrud Gilberto, quanto em carreira solo. Viveu até o final da vida nos EUA(faleceu em 1986).
Os discos que gravou no Brasil tornaram-se com o passar do tempo item de colecionador. Foi preciso um dono de selo, o carioca Marcelo Fróes, também colecionador de discos e pesquisador, para que o organista tivesse oito dos seus álbuns relançados, em duas caixinhas, com quatro CDs cada. Festas dançantes Vol I e Vol II, tem o subtítulo de “bossa nova samba moderno nova dimensão”. Numa fase de transição da música popular não se conseguia rotular nem classificar novos ritmos e tratamentos sonoros que as músicas recebiam, daí os vagos “samba moderno”, ou “nova dimensão”.
Estes rótulos encaixam-se mais na fase final de Walter Wanderley no Brasil. No seu primeiro disco pela Odeon, Eu, você e Walter Wanderley (1959), Egas Muniz, que assina a apresentação do álbum escreveu: “Temos concentrada neste microssulco uma legítima vocação pianística. Lá no seu Recife, bem garoto ainda, José Walter Wanderley de Mendonça, entregava-se aos dedilhados nas coisinhas tão familiares aos serões domésticos...neste LP da Odeon, o pianista Walter Wanderley reúne ritmos e melodias próprias para dentro da noite. Neste álbum ele toca com músicos que o acompanhariam até sua ida para os EUA: Azeitona (contrabaixo), Antoninho (bateria), Boneca (guitarra). Como lembra o escriba da apresentação: “Uma característica é patente em Walter Wanderley: nada de excessos jazzísticos. Uma tal pureza de sons bem concatenados em harmonia, sem dissonâncias extravagantes. Tudo para ele é na base da harmonia”.


Sem dissonâncias e na base da harmonia, ele gravou sambas, cha-cha-chas, beguines nos dois discos seguintes: Feito sob medida (1959), e Sucessos dançantes em ritmo de romance (1960). Um repertório que ia de Oh Carol (Neil Sedaka), a Castigo (Dolores Duran), mas já flertando com a recém-inaugurada bossa nova, gravando Este seu olhar(Tom Jobim), Lobo bobo (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli). Em Sucesso é samba, que completa a primeira caixinha, Walter Wanderley acrescenta mais bossa nova ao repertório, com Meditação (Tom Jobim/Newton Mendonça), /samba de uma nota só (Tom Jobim Newton Mendonça), e O pato (Jayme Silva/Neusa Teixeira). Ressalte-se que Walter Wanderley não foi o músico da noite que aderiu ao modismo da bossa nova. Ele tocava o que o se público estava escutando no momento.E aí podia mesclar a bossa nova com o mais tradicional dos sambas. Em O samba é mais samba com Walter Wanderley ele canta BN, mas também o samba bem-humorado de Haroldo Barbosa e Luiz Reis (Só vou de mulher), com Eu não onde morar (Dorival Caymmi), e A mesma rosa amarela (capiba/Carlos Penna Filho).
Embora toque bossa nova, Walter Wanderley prefere fazê-lo em modelo próprio, deixando no conjunto um instrumento dispensado pelos bossa-novistas: o pandeiro,que está presente em Samba esquema de Walter Wanderley (coincidentemente, do mesmo ano de Samba esquema novo, de Jorge Ben), um dos disco com um pouco mais de pretensão, a começar pela capa que passa a ideia de um combo de jazz. E ratificando que Walter Wanderley continuava ainda um músico sem pretensões, saudavelmente comercial está no álbum Walter Wanderley e o bolero. Ele e seu conjunto estão no compasso de Sabor a mi (Alvaro Carrillo), Solamente una vez (Agustín Lara), ou E a vida continua (Evaldo Gouveia/Jair Amorim). Em seus discos americanos, Walter Wanderley teve que aceitar mais as dissonâncias extravagantes, sem a descontração destes discos brasileiros.

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