Rio de Janeiro estava de ressaca. No começo dos anos 80, a geração mais velha assobiava a música popular brasileira ainda à sombra da censura. O burburinho da praia de Copacabana e Ipanema, no entanto, ficava cada mais alto. Eram os jovens que queriam mesmo falar o que ninguém dizia e aproveitar a vida, como diria, mais tarde, Zeca Proença: “fazer muita música depois de um bom dia de surfe”. Foi nessa onda que um amor frustrado cantada com bom humor fez a cabeça da nova geração. Todo mundo cantou Você não soube me amar, sem saber que abria portas para a banda Blitz influenciar uma fase efervescente do rock nacional. Nesta sexta (27), às 23h, Recife encarna o verão carioca, em show da banda no Baile Perfumado. A pernambucana Del Rey completa a noite.
A vinda do grupo é especial por fazer parte da comemoração dos 30 anos de estrada. A turnê Enquanto houver bambu tem flecha celebra a gravação, há três décadas, do compacto que trazia, apenas, o seu maior hit de sucesso. Com um tempero inusitado, o lado B do CD trazia uma voz que repetia: nada, nada, nada... O resultado: 100 mil cópias vendidas e o cabelo meio topete, meio liso de Evandro Mesquita, o “líder” da banda, virava febre nos cabeleireiros.
Hoje, o grupo, que já se separou e voltou o casamento nos anos 90, anda há oito anos com a mesma formação: Evandro Mesquita (vocal, guitarra e violão), Billy (teclados), Juba (bateria), Rogério Meanda (guitarra), Cláudia Niemeyer (baixo), Andrea Coutinho e Mariana Salvaterra (ambas backing vocal). O palco da Blitz também recebeu personas como Lobão, ex-guitarrista, e Fernanda Abreu, que atuava como backing vocal.
E se alguns críticos dizem que a banda serviu um prato divertido aos anos 80 que precisava daquilo, Evandro Mesquita rebate. “"Falavam isso na época. Que era banda de uma música, só de um verão. E já se passaram 30 anos. Estamos vivos e bem dispostos, fazendo show até no Japão e provando que música boa não tem prazo de validade. Nossa música se mantém atual. Servindo ao Brasil e ao mundo dos anos 2012. Falamos de coisas sérias com humor e criatividade. Sem ser piegas, intelectualóides, didáticos e nem panfletários”", explica o cantor.
A Blitz conquistou o país do samba por apresentar uma postura diferente e tocar um som que ainda não estava certo na discografia das rádios FM. Enquadrada na mesma prateleira de bandas como Paralamas e Barão Vermelho, que agitaram os palcos daquela época, a banda nunca conseguiu ser claramente definida. Mas a própria origem do grupo é calcada na despretensão. "“A música brasileira estava um pouco séria demais, a gente chegou brincando, relaxado. As pessoas gostaram disso”", comenta Ricardo Barreto no documentário Mais de três foi o diabo que fez – que conta a história do maior hit de sucesso da banda.
O DIABO GOSTA
De repente, ninguém sabia amar ninguém. Tudo isso por conta de uma música sem autor. Na verdade, autores, no plural. A estrofe foi elaborada por Zeca Proença e, através de um amigo em comum, chegou a Evandro. O carioca e Ricardo Barreto adicionaram os outros versos que falam da batata frita e do beijo de bomba atômica. Guto Barros terminou acrescentando a melodia.
Se foi composta por quatro pessoas, a inspiração certamente não seria única. "A canção fala de “várias histórias de corações partidos”, conta Evandro. “Mas, na verdade, a culpa é sempre do cara. Nós é que não sabemos amar as mulheres”", confessa.
E para quem pensa que a banda só tem uma música, o Circo Voador – palco de shows carioca – viu muito mais. As canções Betty Frígida, Rádio Atividade e Mais uma de amor, conhecida também como geme, geme – que chegou a ser tema da novela A viagem – são outros títulos. “Não se mede o talento de artistas com a quantidade de vezes que se aparece no Faustão. Temos bagagem e histórias pra vagabundo nenhum botar defeito”, afirma Evandro.
Leia a matéria completa no Caderno C desta sexta-feira (27).
Blitz ?, nesta (sexta), às 22h, no Baile Perfumado (Rua Carlos Prado, 390, Prado). Ingressos: R$ 80 e R$ 40. Informações: 3441 1241.
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