Até o agora, no ano do centenário de Luiz Gonzaga, foram muito poucos os tributos e homenagens em discos que merecessem uma atenção maior. A rigor, apenas o álbum triplo 100 anos de Gonzagão (Lua Music), e agora o álbum duplo Luiz Gonzaga - olha pro céu (Universal Music), resultado de uma pesquisa de Carlos Alberto Sion e Tárik de Souza, que passaram a bateia no rico veio que esconde pepitas esquecidas da obra de Gonzagão. São regravações de alguns dos principais intérpretes da MPB, algumas, literalmente, recuperadas do esquecimento. Alguns exemplos de raridades trazidas de volta do limbo: Pau de arara (Luiz Gonzaga/Guio de Moraes), faixa do primeiro LP de Marília Medalha (1968); Imbalança (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), descoberta pelo pesquisador Marcelo Fróes para a caixa Ensaio geral, e incluída no disco Cidade do Salvador, com fonogramas gravados entre 1973 e 1974, não utilizados até então em discos oficiais de Gil. Xote das meninas (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), do álbum Brazilian soul (1970), de Gerson King Combo e a Turma do Soul.
Naturalmente nem tudo é raridade, muito menos recriações elogiáveis. A citada Xote das meninas, com Gerson King Combo tentando imprimir soul a uma das canções mais líricas da obra de Gonzagão beira o patético. Caetano Veloso confirma-se, com a música de Luiz Gonzaga, ser um dos mais completos intérpretes da MPB. Se com Asa branca (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga), ele arrancou lágrimas de Lua, arrancaria, no mínimo, aplausos, com a inédita regravação de Respeita Januário (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga), música que já teve uma versão antológica de Gilberto Gil(em 1978, no álbum Gilberto Gil ao vivo, Montreux International Jazz Festival). Esta versão de Caetano Veloso, só voz e violão, foi gravada em casa, para presentear o filho Zeca, que completava 10 anos, segundo se informa no encarte. também com Caetano estão no álbum, Baião de dois (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), e A volta da asa branca (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), com trechos de Só quero um xodó (Dominguinhos Anastácia).
Algumas releituras são questionáveis, feito a de Claudette Soares, a ex-Princesinha do Baião, vestindo de trajes da pilantragem, Qui nem jiló (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga, no encarte “jiló”, gravado com “g”). Repetindo a dose com o seminal Baião (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga), numa interpretação equivocada, crivada de sussurros desnecessários, com um arranjo que sofisticado que é como se pusessem cobertura de chantilly em carne de sol. Simplesmente não combina.
A seleção faz jus ao Quinteto Violado, dos melhores tradutores da música gonzaguiana. Com Gonzagão o QV viajou muito mais do que 17 léguas meia Brasil afora. Olha pro céu contém quatro faixas com o quinteto, uma delas, Asa Branca, com participação e Luiz Gonzaga. No geral estão nos dois CDs alguns dos artistas que apreenderam a música de Lua, não por acaso, todos nordestinos. Além de Caetano e Gil, Elba Ramalho, Amelinha, Alceu Valença, Maria Bethânia. Além deles, a carioca Carmélia Alves (coroada Rainha do Baião, por Gonzagão, nos anos 50), a paraense Fafá de Belém, e os fluminenses do MPB-4, com uma obscura gravação de Derramaro o gai (Luiz Gonzaga/Zé Dantas).
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