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Disco

Odair José: de cópia de Roberto Carlos ao brega cultuado

Cantor tem quatro discos dos anos 70 relançados

Publicado em 24/11/2013, às 09h03

José Teles

O programa Jovem Guarda acabou com o final da década de 60. Roberto Carlos desfrutou um breve momento de prestígio entre os intelectuais devido à cobertura que recebeu do semanário O Pasquim, com amplas matérias no badalado e influente jornal. Numa delas o editor Tarso de Castro praticamente acampou na casa do cantor, para uma matéria sobre o dia a dia do Rei.

Um namoro que não foi além de 1973, quando RC decidiu-se de vez pelo modelo de canção italiano, baladas românticas, com predomínio de cordas. Erasmo Carlos, por sua vez, entrou numa fase alternativa, e fez seus melhores discos, Carlos, Erasmo (1971), Sonhos e memória – 1041- 1972 (1972), Projeto salva Terra (1974), Banda dos contentes (1976). 

Por fim, a maninha Wanderléa, sob a batuta de Egberto Gismonti pela primeira vez teve os discos que sua voz merecia, entre estes Maravilhosa (1972), seu melhor álbum, Feito gente (1975), e Vamos que eu já vou (1977). Enquanto isso, em debandada geral, estrelas de menor grandeza do iê-iê-iê ou voltaram ao interior, deixaram a carreira, ou passaram à produção (esta turma da produção nos anos 80 chegaria aos mais altos cargos nas gravadoras nacionais).

Quando Jovem Guarda desmoronava-se, entraram em cena jovens cantores que tinham Roberto Carlos como modelo, entre outros, José Augusto, Fernando Mendes e Odair José, uma trinca imensamente bem-sucedida entre a faixa de público que consumia iê-iê-iê, mas não discos como Maravilhosa ou Carlos, Erasmo. A música que compravam não era chamada de brega, como já acontece tem alguns anos. Era pop, mas datada, seguia uma fórmula que se desgastara depois da virada de mesa do tropicalismo.

O goiano Odair José poderia ter continuado como os outros dois citados, a fazer música para os órfãos da Jovem Guarda, mas se envolveu inadvertidamente um acidente de percurso. Em 1973, Andre Midani, presidente da Phillips no Brasil, promoveu um megafestival com os contratados da gravadora, o Phono 73, apresentações sozinho, ou em duplas, sem discriminação de estilos ou qualidade. Uma das apresentações que mais polêmica, ou a mais polêmica, foi a de Caetano Veloso (então o alternativo da MPB), com Odair Jose já devidamente enquadrado na ala dos cafonas, pelo grande sucesso Eu vou tirar você deste lugar, de um compacto lançado em 1972. Foi a mesma canção que Caetano escolheu para provocar o bom gosto da plateia classe média e universitária do festival.


Em seus dois primeiros álbuns Odair José (1970), e Meu grande amor (1971), o cantor, em estilo, pouco diferia da Jovem Guarda. Seu primeirosucesso, As minhas coisas, copia Roberto Carlos em tudo: do aranjo de cordas aos maneirismos vocais. Um dos principais autores de versões da JG, Rossini Pinto, assina boa parte das faixas dos discos (uma delas de Raul Seixas, ainda o Raulzito produtor e autor da Jovem Guarda).  A partir de Assim sou eu... (1972), Odair José passou a exercitar seu talento de compositor. Este disco e os três seguintes do cantor foram relançados na caixa Quatro tons de Odair José (Universal Music): Odair José (1973), Lembranças (1974) e Odair (1975) (com seleção e notas do jornalista Marcos Preto).

Os quatro coincidem com o auge da carreira dele, pelo menos em relação a tocar muito no rádio e como grande vendedor de discos. A partir do disco seguinte, ele começa a querer dar um pulo maior do que as pernas alcançam. O interesse que despertou o dueto com Caetano Veloso, a música que passou a ouvir (segundo o texto do encarte, Crosby, Stills, Nash & Young, George Harrison, etc.), levaram o cantor de letras simples,e melodias básicas a tentar se sofisticar.

Em Assim sou em que ele experimenta outros temas, como Eu queria ser John Lennon (“Eu queria ser John Lennon/um momento só/pra ficar no toca-discos e você me ouvir”). Assim como o Rei Roberto, passa a cantar sobre Jesus Cristo, (que virou mania mundial desde a ópera rock Jesus Christ superstar).  Para tocar com ele foram convocados Zé Roberto Bertrami (piano), Alex Malheiros (baixo), e Ivan Mamão Conti, ou seja, o Azymuth. Um dos violões é tocado por Luis Cláudio Ramos, mais tarde diretor musical dos shows de Chico Buarque com arranjos do músico e maestro Waltel Blanco. Na faixa Cristo quem é você ele é acompanhado pelo Som Imaginário.

Odair José (1973), tem o grande hit Deixa essa vergonha de lado (com a qual ganharia o epíteto Cantor das empregadas) , mais sucesso obrigatório em seu repertório ate hoje, Uma vida só (pare de tomar a pílula), Revista proibida, Cadê você? E Que saudade de você.  Mais uma vez ele se vale do tema religioso, em Os anjos (“Eu escuto uma canção anunciando/nosso pai está chegando/ele vem pra conversar).

Quanto a Pare de tomar a pílula, a proibição pela censura foi mais um atestado de burrice dos censores, afinal a música alinhava-se aos setores conservadores, que consideravam que sexo era para a procriação. E Odair José compartilhava deste ponto de vista cantando: “Pare de tomar a pílula/porque/ela não deixa nosso filho nascer”. Lembra Opinião, de Zé Kéti, incensado, em 1965, como autor de protesto por causa dos versos iniciais: Podem me prender/podem me bater/ que eu não mudo de opinião”. Enquanto todo o resto da letra é de um conformismo total “daqui do morro eu não saio não/Se não tem água eu furo um poço/se não tem carne, eu compro um osso/ponho na sopa/e deixo andar/fale de mim quem quiser falar/ aqui eu não pago aluguel/se eu morrer amanhã, seu doutor/estou mais pertinho do céu”.

Em lembranças o grande sucesso foi o hoje considerado clássico brega A noite mais linda do mundo (a felicidade), parceria com Donizetti (dos impagáveis versos: “Felicidade não existe/o que existe na vida/são momentos felizes”. Em parcerias, são complicados os discos de Odair Jose, Muitas vezes ele assina com outro nome. Ou cede parceria a radialistas (pratica antiga no meio). Ana Maria, parceria em Parece tomar a pílula, era a mulher do radialista Carlos Guarani, radilista que sugeriu o tema a Odair Jose para a canção que foi proibida pela censura , o que só fez incensar a imagem do cafona rebelde do cantor. Neste disco ele também se acompanha por músicos de qualidade, das bandas de Tim Maia, Jorge Ben , e continua com Bertrami.

Odair é o fim da fase de sucesso certo e garantido. O cantor que já assinalava que pretendia ir para o pavimento de cima da música popular (que estava no debaixo , era patente até no selo Polydor, que abrigava artistas povão. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, da mesma gravadora, tinham em seus discos o seleto selo Phillips). Renova o guarda-roupa em Londres,  inspirava-se em nomes como Neil Diamond. Entretanto, músicas forçadas como Cotidiano 1975, com letra à Chico Buarque  não ajudaram muito (“Todo dia cedo//a minha mulher me acorda/me bota pra fora da cama/me beija na boca e diz que me ama”).

Duas das canções do álbum são assinadas por Samuca, uma delas a freudiana Medo (Tem gente com medo do sexo/tem gente com medo do escuro/tem ouros que não gastam dinheiro/preocupados com seu futuro). As duas são de Odair Jose. O Samuca era o pequinês que criava, promovido a compositor.  Na minha opinião (com Maxine) foi o maior hit do disco. Ele depois revelaria que a faixa  Viagem  faz alusões à maconha, mas passou pela censura incólume. 

Passou, não apenas pela burrice da censura,  mas porque fora o título, na letra a “viagem” está inteiramente camuflada . Em Ela voltou diferente (André Luiz), notas-se semelhanças com a letra de Valsinha, de Chico Buarque e Vinicius de Moraes (Um dia ela voltou pra casa e sorriu/com um sorriso diferente/não me abraçou,nem me beijou/disse como vai simplesmente). Os arranjos são de Zé Roberto Bertrami e Luis Claudio Ramos.

O disco seguinte, Historias e pensamentos, seguia a linha de Odair,mas aí o cantor nem tinha conquistado um novo público universitário, nem garantiu a fidelidade do admiradores menos refinados. Foi dispensado da gravadora. Sua estreia na RCA-Victor, no ano seguinte,  foi uma ópera rock, O filho de José e Maria. “Eu agora sou bem diferente/não se assustem nem se preocupem/sou o mesmo de antigamente”, alerta na faixa de abertura, Nunca mais, com arranjos disco music.  Não era mesmo o mesmo. O pretensioso disco conceitual foi ignorado pelo público, e massacrado pela crítica. Não adiantou o auxílio de luxo, de Jaime Alem (violão), Hyldon (guitarra), Robson Jorge (piano), direção musical do maestro Durval Ferreira. Ele gravaria mais um disco na RCA, e terminaria a década na Continental.

Nunca mais chegaria ao sucesso que alcançou até 1975. A frequência de gravações foi diminuindo. Nos anos 80, lançou nove discos, nos anos 90, cinco, e no século 21 apenas três: dois deles ao vivo. Graças ao livro Eu não sou cachorro não, de Paulo Cesar Araújo, que apresentou a uma nova geração de jornalistas, um mundo e fato que eles desconhecia. O tratamento dado a Odair José no livro despertou o interesse de quem mal o conhecia. Ele virou o brega chique, Cult, e finalmente alcançou o público que cortejou em vão nos anos 70, ratificando que o filho de José e Maria escreve certo por linhas tortas

 

 

 




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