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Show

Joan Baez canta no Recife em sua primeira turnê brasileira

Cantora foi proibida de cantar em 1981 pel ogoverno militar

Publicado em 24/03/2014, às 17h27


José Teles

A cantora americana Joan Baez fez o primeiro show, permitido, no Brasil, quarta-feira, no Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre (RS). Ela se apresenta no Recife, sexta-feira, no Teatro Rio Mar. Filha de pai mexicano, e mãe escocesa, Joan Baez nasceu, em 1941, em Nova Iorque, nos anos 60, foi presença ubíqua em manifestações políticas, nos festivais. Do Newport Folk Festival a Woodstock (o original, de 1969), de cujo documentário (dirigido por Michael Wadleigh) foi um dos destaques.

Bob Dylan, com quem namorou, foi apresentado às grandes plateias por ela, que se tornou sua principal intérprete na década de 60, e tornou canções como Blowin in the wind ou It’s all over now baby blue conhecida no mundo inteiro. “Eu só sei dizer em português algumas frases, feito ‘esta canção aprendi há 55 anos”, ri. A canção que conheceu há tanto tempo foi Manhã de carnaval (Antonio Maria/Luiz Bonfá). Digo que o autor da letra da música nasceu no Recife. Ela diz que sabia. Deve ser das poucas coisas que sabe da cidade.

Joan Baez estreou em palcos brasileiros em Porto Alegre, mas não foi a primeira vez que veio ao Brasil, nem a primeira vez que cantou para uma plateia brasileira. A diferença é que desta feita ela cantou num país em que vive sob regime democrático, e não teve agentes da Polícia Federal como indesejáveis companhias. Em 1981, Joan Baez esteve no Brasil numa frustrada turnê sul-sul-americana. A visita desagradou o governo do general Figueiredo, menos pela sua música, mais pelo que pudesse falar. Musa da esquerda, dos movimentos contra guerras e contra a opressão política, independente de matiz ideológico (foi proibida de cantar na antiga União Soviética), Joan Baez já havia tentado vir ao Brasil antes, com visto negado.

Em 1981, o país vivia a sequência da abertura lenta e gradual iniciada pelo general Geisel, mas havia resistência à volta aos quartéis. os cinco shows que faria no país foram proibidos: “Estive no Brasil naquela época pesada, mas para mim, pessoalmente, foi interessante, porque sabia que não corria perigo, não iam fazer nada comigo. E estava feliz em chamar atenção para a situação, em fazer as pessoas verem que eu estava solidárias com elas, e fiz muitas boas amizades nesta época”. Ela chegou a almoçar com um presidente, não o da época, o general, mas um futuro presidente, o ainda sindicalista Luis Inácio da Silva.

Ela foi também proibida de fazer shows no Chile e Argentina, no segundo a visita foi destaque no noticiário internacional mundo afora. Ciceroneada pelo argentino Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, ela sofreu boicote, proibições, ameaças de bombas. Gilberto Gil, que se apresentava na capital argentina, foi impedido de trazer Joan Baez ao palco (ela veio ao camarim do cantor). Joan Baez desembarcou no aeroporto de São Paulo em maio de 1981, esquivou-se de entrevistas, e a imprensa foi informada de que ela se encontrava em viagem de turismo: “Naquele tempo conheci uma canção de que gostei muito. Uma musica linda, quanto mais canto mais gosto dela. As pessoas gostam dela. Gosto de cantar músicas assim, para que as pessoas não esqueçam de um período pesado de suas vidas”, explica Joan Baez a presença de Cálice (Chico Buarque/Gilberto Gil), no repertório dos shows que vem fazendo na AL.

Em Porto Alegre, acrescentou uma música emblemática de uma época, hoje pouco lembrada no Brasil que reaprendeu a protestar nas ruas: Caminhando (para não dizer que não falei de flores), de Geraldo Vandré. Outra que aprendeu há 33 anos. Ao contrário do que aconteceu então no Chile ou Argentina, onde a vigilância as proibições foram às claras, e sem arrodeios. No Brasil a repressão foi quase sempre velada. Em São Paulo ela desistiu de fazer show, no Teatro da Puc, e dar uma palinha num show de Zé Ramalho, pelas ameaças que pairavam no ar, Vale lembrar que há menos de um mês, naquele 1981, explodiram as bombas no Show de 1º de maio no Rio Centro, e que John Lennon, feito ela, símbolo do pacifismo e ativismo político dos anos 60, tinha morrido há apenas seis meses.

ALIENÍGENA
“Senhor responsável, pelo presente fica vossa senhoria ciente de que a cantora alienígena Joan Baez por não cumprir as exigência da Lei junto a este SCDP/BR/DPF/SP, em especial o disposto nos artigo 4º item 3º/40, parágrafo único, 70,80,90, todos do Decreto 20/493/46, fica impedida de se apresentar neste teatro hoje (22/5/81) ou enquanto não estiver com sua situação devidamente regularizada. O não cumprimento desta determinação implicará em crime de desobediência previsto no artigo 330 do Código Penal...”. O trecho da nota oficial da Polícia Federal, acabou envolvendo OAB, políticos, e a cantora acabou passando pelo constrangimento de se apresentar na delegacia da Polícia Federal com a lista das músicas do repertório que cantaria no show a capital paulista.

Ela findou fazendo uma curta apresentação para uma seleta plateia de 30 pessoas, no Tuca, à capela. No repertório, Cálice, Caminhando, Gracia a la vida (Violeta Parra), Blowin in the wind, e Imagine (John Lennon): “Estas músicas não ficaram datadas, não perderam o sentido com o tempo. Continuo cantando Gracias a la vida não apenas na América latina, mas em outros países onde onde vou, e cada vez, para cada pessoa. ela tem um significado”, diz a cantora. Até hoje ele não entendeu a razão de ter ouvido na TV da época o Tema de Sacco & Vanzetti, censurado por nove anos no Brasil, servir de música de fundo para um comercial da Força Aérea Brasileira.

Proibida de cantar em teatros no Rio (com produção nacional de Poladian), um dos shows seria no requintado Hotel Nacional, na Barra, então um dos mais chiques da cidade, foi arquitetado um show, no aterro do Flamengo, o Conclave do sol, organizado pelo Movimento Harmonia Ambiental e da Coonatura. que prometia uma “manifestação cultural ecológica e festiva”. Joan Baez seria a principal atração de uma programação que incluía, entre outros, Geraldo Azevedo, João Bosco, Erasmo Carlos, Ângela Rô-Rô, Paulo Moura. O cantor recifense Geraldo Maia, que havia gravado o primeiro disco e estava morando no Rio, foi um dos nomes escalados para o festival improvisado: “Nessa noite não cantei. Foi muito conturbado, parecia agitação de campus universitário. Não lembro mais nem se houve show. No dia seguinte, montaram um palco menor, em outro lugar no aterro, e aí consegui cantar”, relembra Geraldo daquele sábado, em que, a cantora “Alienígena foi novamente proibida de cantar, por ordem da Polícia federal.

“Esta turnê tem sido muito boa, os shows todos de plateia lotadas. Estou muito feliz por, sobretudo, voltar a encontrar amigos que conheci há tanto tempo. Ainda gosto muito de viajar, aliás, gosto muito mais hoje do que quando era jovem. Naquele tempo as coisas eram muito desorganizadas muito mais difíceis, a responsabilidade era bem maior”, comenta Joan Baez, que desta vez foi também ao Uruguai, atravessando o Rio de La Plata, de barco, de que revela ter mais medo do que de avião. Nos shows que vem fazendo, antecipa, canta em média 20 músicas : “No meio das bem conhecidas, ponho algumas desconhecidas, ou menos conhecidas; Claro que canto as de sempre. Sei que as pessoas vieram ao show porque querem me ver canta-las. Tento sempre fazer com que elas pareçam novas. Blowin in the wind é uma delas, faz muito tempo que canto esta, as vezes é legal, noutras, nem tanto”.

Não pergunto sobre Bob Dylan. Ela tem dado respostas curtas sobre o ex-namorado. Mas sua música continua muito presente em sua vida, até mesmo em canções como The house of te rising sun, canção (de domínio público) sempre ligada ao grupo ingles The Animal, que a popularizou mundo afora, mas que é uam das faixas do disco de estreia de Dylan, em 1962, ano em que ele e Baez se conheceram.

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