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Badi Assad em Singular, sem medo do pop e do rock

Lord, DJ Akrillex e Munford & Sons são regravados por ela

Publicado em 08/12/2016, às 09h55

Badi Assad, sem medo do pop / foto: Divulgação/Alfredo Nagib Filho
Badi Assad, sem medo do pop
foto: Divulgação/Alfredo Nagib Filho
JOSÉ TELES

Em 1994, a revista Guitar Player, incluiu o nome da violonista paulista Badi Assad entre os cem melhores artistas do mundo. Em 1996 estava numa lista de dez músicos que reinventaram o uso do violão nos anos 90, ao lado de Ben Harper e Tom Morello, do Rage Against the Machine. Em 1995, a Guitar Player a escolheu como violonista do ano, e Rhythms, o melhor álbum. A paulista Mariângela Assad Simão, ou Badi Assad, 49 anos, figura no time de artistas brasileiros que a grande parte dos compatriotas desconhece.

Ela e os irmãos, Odair e Sergio Assad, o Duo Assad, tocam mais no exterior do que no Brasil. “Se vou fazer show deste disco em Recife? Não sei. Mas acho que só toquei uma vez aí, talvez duas, e faz tempo, foi no século passado”, comenta Badi Assad, ao conceder entrevista, por telefone, para divulgar Singular, seu novo disco, lançado no ano passado, nos Estados Unidos e Europa, e que só agora tem edição nacional.

Singular é um disco diferente na obra de Badi Assad, que durante anos percorreu a trilha do instrumental. Desta vez, ela venceu o preconceito em relação à música pop e enfatizou também seu talento de cantora (além de violão clássico, estudou canto), interpretando nomes que não são comuns em salas de concerto, ou festivais de jazz, como a neo-zelandesa Lorde ou os ingleses da Mumford & Sons. 

O projeto nasceu quando Badi Assad participou da mostra competitiva de uma Convenção Anual de Música em Nova Iorque. Conversando com Dmitri Vietze, produtor cultural, ligado a Rock Paper Scissors, empresa que trabalha com artistas do mundo inteiro, e lhe perguntou o que planejava para o próximo disco.

Badi argumentou que no anterior  gravara músicas autorais, e que pretendia gravar outros artistas: “Quando soube quem seriam estes artistas,  ressaltou que elas haviam sido muito regravadas.  De todos os nomes da lista que acabei escolhendo, o único que conhecia era Lorde, mas muito pouco. Inicialmente, olhei os nomes meio descrente, porque  associava o pop internacional a superficialidade, falta de conteúdo. Músicos falando dos mesmos temas, usando as mesmas instrumentações. Porém como a discografia desses artistas é pouca, porque estão começando a carreira, ouvi tudo e adorei. Dei de cara com propostas diferentes, com conteúdo com outras temáticas, inclusive temáticas polêmicas. Instrumentação diferente, conseguindo fazer um crossover para o mainstream mundial, vindo do indie rock, do folk. Quero participar desta onda de artistas que estão falando alguma coisa interessante, colocando outros jovens a pensar através da música”, elogia.


Saliente-se que não foi uma conversão repentina ao pop. Já em 1998, no álbum Chamaleon ele gravou While My Guitar Gently Weeps de George Harrison, mas Beatles já fazia parte do cânone musical do planeta. Em 2004, em Verdeele chegou à islandesa Björk e ao irlandês U2: “Björk e a Tori Amos, são artistas que conseguiram fazer este crossover com conteúdo, mas são poucas no cenário. Agora encontrei esta leva, não é um aqui outro lá. Acho que sempre tem este movimento antagônico. Até mesmo um movimento mundial de artistas cansados de superficialidade, querendo algo mais profundo. Apesar de que a quantidade de música ainda de baixa qualidade tem um espaço muito grande, aqui no Brasil, então, é um salve-se quem puder, é lógica que tem uns artistas que estão fazendo uma música que vai contra esta massificação”, poderá Badi.

]LINHA TÊNUE

A maior abrangência na música de Badi Assad aconteceu simultânea às mudanças acontecidas nas categorização de gêneros musicais nos festivais ao redor do mundo. Está cada vez mais tênue a linha que divide o jazz do rock ou da world music. As curadorias destes eventos está estão cada vez mais dedicada a mesclar culturas, linguagens e ritmos: “Eu me encaixo em todos eles, circulo pelos festivais de jazz, world music, não fico num ambiente só. É uma tendência. Os festivais de jazz não são apena de jazz, os festivais de world music são bem mais abrangentes, mais fluidos do que eram antigamente. No ano passado, fiz um festival de jazz na Ásia, toquei pra dez mil pessoas ao ar livre. Com o mundo online, intenção é misturar, e o artista acaba sendo instrumento de ponta nessa mistura. Não tem mais esta de preconceito de estilos. Se bateu no coração, vai.”

Cantar Munford & Sons ou Lorde pode causar estranheza aos admiradores de Badi Assad, que marcou seu espaço no Brasil e no exterior como violonista, com suficiente talento para dividir palco com nomes como Larry Coryell e John Abercrombie, registrado no DVD Three Guitars – The Paris Concertde 2004. Porém como instrumentista.

Em Singular ela canta, e bem. Até pouco tempo valia-se da voz como um instrumento do qual extraía sons inusitados: “Eu não transito mais só pela música instrumental. Mas me distanciei, por causa das minhas escolhas musicais, por conta de um processo da minha vida. A qualidade da música é permeada pela mesma qualidade do instrumental. Com certeza a pessoa que gosta da música instrumental é uma pessoa que tem um tempo de dar este mergulho, não está preocupada com uma música que seja apenas um pano de fundo. Curte a música como alimento, alimento espiritual mesmo. Mas a minha pegada não é mais só instrumental, é a música do mundo”, explica Badi Assad.

DISCO

Singular faz jus ao título. Embora Badi Assad grave até o incensado DJ Akrillex, o americanoSonny Johm Moore, nascido no ano em que ela estreava em disco. O álbum é ousado mais pela junção de mundos aparentemente díspares, do que por experimentações sônicas. Little Lion Man é uma hard bossa, voz, violão, e a competentíssima percussão de Simone Soul, que joga uma contagiante levada de maracatu em Royals. Quem quer, ou o que, Badi Assad cante a ênfase é no impecável violão, na voz potente e jazzy, que abrigam, sem colisões, estilos antagônicos como Alt-J e Munford & Sons. Sua versão de Royals, de Lorde,  é  radiofônica e, ao mesmo tempo, sofisticada.  

 

 

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