Jornal do Commercio
Caranval 2017

Tom Zé está criando a tirlha satírica da operação Lava Jato

Compositor diz que contiuará até a operação completar a lavagem

Publicado em 22/02/2017, às 06h00

Tom Zé, na trilha da lava jato / foto: divulgação
Tom Zé, na trilha da lava jato
foto: divulgação
JOSÉ TELES

Desde os tempos em Juca Chaves virou o rei das sátiras políticas, no final dos anos 50, que um compositor brasileiro não disparava tão forte e constantemente em direção a um alvo. No caso do baiano Tom Zé, a operação Lava Jato e seus desdobramentos. São canções-reportagens, carnvalescas, escritas em cima do assunto do momento e gravadas o mais rápido possível, pra chegar ao público enquanto o tema ainda está quente. John Lennon fez isto nos anos 60, o próprio Tom Zé já se valeu deste artifício, e tem até um disco em que incluiu canções neste estilo, o Imprensa Cantada (2003, Trama). A Lava Jato já o inspirou quatro vezes, este ano, e resultou em marchinhas, frevo de bloco e sambas, todos disponibilizados na internet: Queremos as Delações (com Paulo Lepetit), Sabatina em Latim, Homologô - Marcha do Bloco, e Samba da Comissão da Lingüiça (onde se lê “linguiça”, entenda-se “justiça”). De São Paulo, onde mora desde os anos 60, Tom Zé comentou sobre estas intervenções musicais.

JORNAL DO COMMERCIO – Tom, você já havia feito jornalismo musical com aquela história da vaia a João Gilberto, Tribunal do Facebook, por que agora esta investida contra a Lava Jato?

TOM ZÉ – No caso de João Gilberto, quando eu soube, me comovi: um homem com a história dele, ter de voltar pra cantar para um público que o vaiava!?! Foi isso.

JC – A segunda música tem inclusive trechos da letra em latim, por que o latim? Por sinal Capiba fez um frevo usando a famosa frase em latim, “Quosque tandem Catilina/ Catilina abutere/ Patientia nostra (em tradução livre: Até quando Catilina abusarás da nossa paciência?”

TOM ZÉ –Em latim, porque os advogados têm mania de repetir frases do Direito Romano. Essa frase, “Quosque tandem abutere Catilina patientia nostra”, quando a gente ouve no ginásio, não esquece mais”. Eu vou propor ao espírito de Capiba levar meu corpo terreno praí e fazermos o Bloco do Quosque Tandem.

NOVELA

JC – Certamente sua paciência já se esgotou, e a do povo brasileiro? Ele ainda está acompanhando a novela Lava Jato?

TOM ZÉ – Bem, José, você sabe que a política do Brasil sempre foi acompanhada de algum proveito pessoal. Corre a história de que quando José Dirceu entrou nessa turma disseram-lhe que era normal tirar 0,1% de qualquer negócio entre governo e empresas. E que ele teria afirmado, com todo o peito: “Não senhor, eu vou tirar 1%”. Bem: você sabe que estavam tirando 20 e lá vai fumaça.

JC – Nós lutamos, fazemos música, fazemos jornalismo, mas sabemos que esses caras da quadrilha estão rindo de nós. E graças ao analfabetismo...

TOM ZÉ – É o único trabalho no qual se empenham com verdadeira vocação – o analfabetismo os reelegerá e eles voltarão das próximas eleições reeleitos com toda a glória e sorrindo na cara da gente. Dizem os jornais que quem tem contas a ajustar com a Lava-Jato não escapará: mais cedo ou mais tarde estará nas grades. Que os anjos da boca mole digam amém.

JC – O Samba da Comissão de Lingüiça é uma colcha de retalhos de trechinhos de vários sambas, que questiona ao pessoal da justiça. Tem alguma instituição brasileira que possa escapar de ganhar uma reportagem musical sua?

TOM ZÉ – Instituição pública parece que não há. Na saúde, polícia, cultura, e em todos os outros setores, conforme os jornais noticiam, cada semana uma questão aparece com um desses nomes em latim ou em sânscrito, mostrando envolvidos em desfalques, com dinheiro no exterior e tudo o mais que a gente nem podia sonhar. Minha esperança é a presença no mundo daquelas criaturas que nasceram depois do ano 2.000 que chamam a si próprias de Geração Y e que falam em ética, em respeito às promessas que são feitas em todos os níveis de indústria, trabalho e governo. Elas são nossa esperança e não merecem ser inspiração de marchinha de crítica.

JC – as marchinhas, frevos e sambas continuam enquanto continuar a lava jato?

TOM ZÉ – As marchinhas, frevos e sambas, junto com a Lava-Jato, espero que continuem até fazer uma limpeza geral.

JC – Você já teve uma musa inspiradora mais sacana do que a a atual conjuntura do país?
TOM ZÉ – Não, uma musa tão rica, nunca tive.

JC – Vamos ter um disco inteiro de Tom Zé com canções inspiradas nesta “musa”?

TOM ZÉ – Pode ser até que saia um disco inteiro. Nesses trabalhos de agora sou muito movido por uma força que não precisa da minha colaboração. Em quase todas as músicas acordei às 4 da manhã com uma ideia na cabeça e às 4 da tarde elas já estavam na internet.

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