O teto baixo de viga e telha é a primeira imagem com a qual o músico Gustavo Lima da Silva, 24 anos, se depara quando acorda. A nitidez vai sendo conquistada aos poucos, à medida em que a vista se ajusta à iluminação mínima do ambiente. Mal amanhece em Pindobinha, distrito de Bom Jardim, a 114 quilômetros do Recife, e Gustavo já vai alimentar as cabras e o bode no sítio do tio.
Sem geladeira, televisão e colchões, a jornada é severa. Com o violão, Gustavo se desdobra para torná-la menos agreste. A música e a paisagem seduzem os passantes, que dão uma trégua nos afazeres para reparar na vista e na melodia. O público é diversificado – da senhora de sombrinha vinda da feira ao adolescente pilotando motocicleta. Os acordes do novo vizinho, que se mudou há apenas alguns meses, talvez seja a coisa mais diferente naquele cotidiano.
A casa, que Gustavo divide com dois primos, foi emprestada por uma vizinha e é uma das mais simples da região. Num cubículo – parte alvenaria, parte taipa –, dois pequenos ambientes brigam por fronteiras mais definidas, mas não há consenso quanto ao fato de serem apenas sala, quarto, cozinha ou banheiro. Há ainda um terceiro espaço, este mais bem resolvido: vazio durante o dia, à noite vira dormitório do bode e das três cabras, para evitar que sejam roubados.
“Vim aqui por amor aos bichos, pra cuidar deles, e pela calma”, diz Gustavo, que teve uma trajetória agitada até se mudar para Pindobinha. O jovem músico passou a maior parte da vida no Alto da Saudade, no bairro recifense de Casa Amarela, onde aprendeu, aos 14 anos, as primeiras notas de violão. Foi seu tio Bernardo, músico autodidata, que lhe transmitiu o conhecimento primário – o suficiente para que o menino “desenrolasse” o resto sozinho. Em casa, Dona Fátima, a mãe, ficou admirada com a rapidez com que o filho aprendeu a tocar o instrumento, mas, por falta de condições, não pôde investir em aulas particulares.
Gustavo largou a escola na sexta série, alegando que “não dava mais pra ele”. Para ajudar em casa, começou a trabalhar. Na Rodinha, pequena feira do Alto José Bonifácio, em Casa Amarela, vendia acerola, cajá, goiaba e siriguela. “Eu pegava 20 pacotes de frutas com os vendedores e ia pra rua revender cada um a um real. No final eu devolvia 15 reais, e ficava com cinco. Ou era isso, ou fazia coisa errada”, diz.
Aos 17, se apegou ao evangelho e começou a frequentar a Assembleia de Deus com sua mãe. Sedento por música, lá teve contato com outros instrumentos, como guitarra, violino, teclado, piano, órgão e sanfona. Logo integrou a banda do culto, tocando violão e também descobrindo sonoridades além do dedilhado das cordas. “Tive a noção de ‘transportar’ as notas do violão para a guitarra, e depois pro teclado, aí fui tocando”, diz, dando uma explicação cheia de propriedade sobre notas naturais e dissonantes, que, apesar de parecer complexa para leigos, soa simples e praticável em seu discurso.
Tinha 18 anos quando foi com um amigo fazer compras em Santa Cruz do Capibaribe, – maior polo têxtil do Estado – e não voltou mais pra casa. Assim que chegou, as coisas caminharam bem. O guitarrista da igreja local tinha abandonado a banda, dando-lhe a chance de tocar no conjunto e, nas horas vagas, ensinar aos jovens protestantes a tocar violão – o que lhe rendia algum dinheiro. Além disso, arrumou um emprego no salomônico Moda Center – maior shopping atacadista de confecções da América Latina. Lá fazia de tudo: estampava e secava roupas, mexia em ponta de linha e colocava botões, além de atuar como vendedor. “Eu era desenrolado, e ainda convencia todo mundo a comprar de mim”, lembra, saudoso, do tempo em que a renda lhe era satisfatória, chegando, em meses de festa, a R$ 600.
Flores existiram, mas, não sendo de macambira, não resistiram ao sertão globalizado. Tal qual João de Santo Cristo, da canção Faroeste cabocolo, do Legião Urbana, banda que tanto admirava, Gustavo foi cercado pela má influência dos“boyzinhos” da cidade e, como o protagonista da letra de Renato Russo, sofreu as consequências. Uma vida sem limites, o abuso de bebidas e drogas, “desvirtuou-lhe” do caminho. “Nessa época eu fiquei viciado em maconha e crack. O efeito foi uma desgraça”, diz.
Leia o perfil completo na edição de domingo (12/02) do Jornal do Commercio.
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