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TECNOLOGIA

O acaso faz arte na esquina

Artistas usam a ferramenta Google Street View para registrar imagens surpreendentes nos quatro cantos do mundo

Publicado em 22/04/2012, às 09h28

Renato Contente

O acaso tem seus caprichos. Por mais que haja empenho em se esmiuçar um plano para uma semana, um ano ou mesmo uma vida, existem os imprevistos que forçam passagem por veredas não esperadas, sejam estas agradáveis, tortuosas ou sem nada demais. Sobre o Google Street View (GSV), ferramenta do Google que disponibiliza vistas panorâmicas dos quatro cantos do globo, ele exerce efeito semelhante.

Vasculhando o imenso acervo desses registros com olhar atento, para além dos pontos turísticos, é possível se deparar com cliques de momentos belos e inusitados. Hora, lugar e ângulo certos são os elementos necessários para compor um registro raro no GSV, feito por acaso pelas nove lentes de seus veículos errantes. Modesto e atarefado, o acaso (autor dos cliques – tanto os banais quanto os raros), não nutre pretensões artísticas: segue ajudando o Google a mapear mundo afora e, de vez em quando, a fazer arte.

A natureza para a qual o Google Street View faz despertar é, por si só, deslumbrante. Um deleite em 360º, e gratuito, para os admiradores de paisagens. É o elemento humano (ou da ação humana) intruso, entretanto, o que torna os frames capturados pela ferramenta pitorescos e, a depender da sensibilidade do usuário, artísticos. Leia-se por elemento humano não apenas a figura de um autêntico Homo sapiens, mas também placas indicando direções no meio do nada, animais que se desprenderam de seus donos e a fúria da natureza sobre alguma cidade – tudo isso captado ao léu pelos olhos esmiuçadores da tecnologia.

NAS ARTES
Foi prestando atenção a esses detalhes, engavetados pelas inúmeras possibilidades do GSV, que o fotógrafo americano Aaron Hobson utilizou a tecnologia para compor um de seus trabalhos. Autor do projeto The Cinemascapist (aaronhobson.com), o artista viu na ferramenta a oportunidade ideal para mais uma edição de seus ensaios fotográficos de cinemascapes (um neologismo equivalente a “paisagens cinematográficas”).

"O Google Street View não apenas gera arte como também a inspira. Hoje em dia é comum artistas plásticos o usarem como base para pintar paisagens”, explica o artista", em entrevista por e-mail. Ele defende que esse material feito pelo acaso não é considerado um tipo de arte menos legítimo do que um planejado ou com um conceito. “"A maioria das minhas fotos, mesmo as que não são feitas pelo GST, são tiradas de modo espontâneo"”, afirma.

Para fundamentar sua fala, Aaron Hobson usa como exemplo o caos sobre tela do americano Jackson Pollock, um dos maiores expoentes do expressionismo abstrato. “Pollock borrifava intencionalmente a tinta sobre a superfície em que trabalhava, mas era por acaso que ela caía onde caía. "O Google tirou milhões de fotos em todo o mundo e eu escolhi imagens específicas que tiveram conexão comigo e com a arte que produzo"”, justifica.

José Afonso, professor de fotografia do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, acredita que essa é uma característica comum à arte contemporânea. "O artista se apropria de certos elementos (nesse caso os frames do Google Street View) e os reorganiza, criando uma nova linguagem"”, explica. “"O interessante do GSV é que ele é uma representação virtual do mundo real. O artista que usa essas imagens para produzir trabalhos artísticos não precisa ir até o lugar onde a foto aconteceu. Ele se apropria destas através das lentes do Google, e até então não há nenhum empecilho por parte da empresa quanto à isso"”, esclarece.

Um outro site que angaria essas imagens é o microblog do americano Jon Rafman. No tumblr 9-eyes (9-eyes.com), ele publica, com a ajuda de outros internautas, cenas captadas pelo GSV. O nome (“nove olhos”, em português) faz referência à quantidade de câmeras existentes em cada carro do GSV. Com mais figuras humanas, fica evidente nesse material os rostos e placas de carro borrados pelo Google, como maneira de preservar, parcialmente, a identidade dos sujeitos.

Na lista, estão imagens tão belas quanto perturbadoras, desde um acordeonista tocando seu instrumento solitário a supostos assaltantes de estrada mascarados. A solidão, ao lado da vida selvagem, é um dos temas recorrentes nas imagens, retratando sujeitos desacompanhados em meio a imensidão de desertos, matas e estradas.

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