Nas tardes de terça e quinta-feiras, Luzia Erlânia, 21 anos, tem um papel definido. Fissurada por toda sorte de dança desde os três anos, a jovem sai do bairro de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, onde mora, para ensinar balé para crianças em uma escola do Vasco da Gama, na Zona Norte do Recife. Boa parte do tempo que lhe resta, porém, ela concentra seus esforços físicos e financeiros para ser outra pessoa – mas sempre acompanhada de uma coreografia. Já acostumada a encarnar o papel coadjuvante de dançarina de divas pop covers na noite recifense, Lanne Doll – seu codinome de star – vislumbrou na vinda de Jennifer Lopez à capital pernambucana uma forma de ascensão ao protagonismo, e também de lucro, mesmo que este demore a dar as caras.
Cabelos tingidos de rosa do cover anterior (a ruiva-loira Geri, das Spice Girls), Luzia entregou-se aos cuidados do amigo Marcelo, responsável em dar à sua cabelela o tom acaju de J-Lo, de quem ele é fã. O hair stylist cuida também dos cabelos da Shakira local.
Lanne, como prefere ser chamada (“esse nome diz mais do que o de batismo”), se formou adolescente nos anos 2000, tendo acompanhado toda a evolução da música pop frente aos fascinantes videoclipes da MTV. Corpos, rostos e coreografias impecáveis, vinculados a letras que dissecavam como ninguém o complexo coração adolescente do novo milênio, deixaram a menina ainda mais bestificada por música e dança. “Eu acompanhava tudo o que faziam”, diz, se referindo a esfera popstar de Backstreet Boys, Spice Girls, Britney Spears, Christina Aguilera, Shakira e... J-Lo. Esta última, apesar de Lanne sempre ter adorado suas coreografias e sensualidade latente, até bem pouco tempo atrás nunca tinha estado no topo de sua lista de ídolos.
O lance de ser fã, chegando a ser a única cover de Jennifer Lopez no Brasil, como afirma, é recente e bem pensado. Com o anúncio, feito há três meses, de que J-Lo traria sua turnê para o Recife, a pernambucana decidiu comprar o status de fã autêntica da diva para fazer shows em sua homenagem. “Passei dois meses pesquisando, vendo clipes, comprando CDs, perfumes e acompanhando a vida pessoal dela em sites. É muita responsabilidade fazer um cover. Não é apenas dublar ou imitar os movimentos, tem que interpretar”, ensina, revelando que lê as traduções de todas as canções para melhor incorporá-las.
No intensivão latino ao qual se submeteu para encarnar a diva com perfeição, a cover acabou virando fã de verdade: “Simplesmente veio, agora eu sou louca por J-Lo. Vou chegar logo de manhã para ficar na fila e, se tudo der certo, ficar bem perto do palco para ver o show”, adianta a nova fã, que investiu R$ 170 no frontstage.
A empreitada custou a Lanne mais do que o ingresso na área privilegiada. Para compor os looks de J-Lo e de seus bailarinos, ela desembolsou cerca de R$ 1 mil, incluindo o novo cabelo e a bota vermelha feita sob medida. Desde pequena acostumada a costurar as próprias roupas, o figurino lhe custou muito mais trabalho do que dinheiro. Com o show de estreia, que aconteceu no Clube Metrópole, na Boa Vista, na madrugada da última sexta, ganhou R$ 600, que serão repartidos entre ela e os seis dançarinos. “A gente faz isso por amor. Viver de dança e cover em Pernambuco é muito difícil. O lucro, quando vem, é lento”, diz a dançarina, que se prepara para apresentar o cover exclusivo em outros Estados.
Os pais não falam muito sobre o assunto, mas também não se opõem. “Acho que eles gostam, mesmo sem nunca terem me visto ao vivo. Sempre quando eu chego em casa, depois de me apresentar em algum lugar, minha mãe faz: ‘cadê o vídeo?’”. Sobre as outras divas cover, ela diz que não há concorrência, já que cada uma tem sua star para se dedicar. “As covers daqui já são estabelecidas, eu acabei de começar”, diz, se referindo à Thammy Spears (de Britney), Isadora Mebarake (Shakira), Diana Aguilera (Christina) e Pérolla Minogue (Kylie Minogue). Marcelo, que na hora aplicava a tinta acaju nos cabelos de Lanne, deu um risinho, mas desconversou sobre a rivalidade das divas locais. “Já foi pior. Hoje, pelo que sei, é mais tranquila a relação entre as covers. Elas se dão bem fora do palco e se ajudam nos camarins”, relata o cabeleireiro. Já no palco, sobre os holofotes, é mais difícil apaziguar o ego quando se vê uma colega enlouquecendo os fãs da boate. “Todas querem seu brilho próprio, né? Isso é normal”, conclui Lanne, já com o rosa desbotado pela descoloração capilar e olhando ansiosa para o pincel de Marcelo com a nova tinta.
Leia a matéria completa no Jornal do Commercio deste domingo (1º), no Caderno C
Comentários
Adorei a matéria sobre a cover de Jennifer Lopez, parabéns.
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