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Polêmica do turbante: como podemos ser puristas

Se brancos não podem usar turbante, não deveriam também comer acarajé?

Publicado em 17/02/2017, às 19h57

A chef e yabassé Carmen Virgínia costuma oferecer oficinas de turbantes para gente de qualquer tom de pele / Heudes Régis / JC Imagem
A chef e yabassé Carmen Virgínia costuma oferecer oficinas de turbantes para gente de qualquer tom de pele
Heudes Régis / JC Imagem
Bruno Albertim

 

O acarajé traiu as origens. Deixou de ser a apenas a oferenda a Iansã e hoje delicia displicentes famílias católicas após a missa na pracinha de Boa Viagem. Seu consumo, popularizado, tomado como natural, dilui sua trajetória. A cultura, dinâmica, embora as reconheça e reforçe, não respeita fronteiras - geográficas ou simbólicas. Acontece com o turbante.

Sejamos puristas. Não comamos sushis - menos ainda com o cream-cheese dos californianos que tornaram a comida japonesa um dos casos mais eficazes de deturpação cultural ocidental. Paremos de usar jeans. Antes de serem recusados, nos 60, como emblema da dominação norte-americana, eram apenas de uso proletário do Oeste dos EUA. Um meio de expressão tão forte do vigor agreste yankee que, cooptado pela indústria, virou a peça de roupa mais usada da história. Se antes era risco, a tatugem, hoje compulsória, deve ser evitada. Apenas os “primitivos” do Sudeste Asiático teriam autoridade para riscá-la. Um jenas não fará de mim um cowboy; uma tatuagem não me tornará um maoori. Nem, em mim, diminuirá a autoridade do uso em quem usa. Os símbolos não cabem nos guetos - embora neles se alimentem. “Muitas comunidades étnicas, através de projetos de economia solidária, vendem seus produtos, como tecidos africanos, por exemplo, para o mundo ‘branco e ocidental’. Consumir e usar esse produtos não pode ser considerado apropriação. O termo, se tem alguma validade, deve referir-se a outra dimensão de expropriação”, lembra a antropóloga Roberta Bivar Campos, professora da Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. “A maneira como essa polêmica se configurou nas redes sociais traduz-se numa ideia de cultura do século 19, evolucionista, como um conjunto de elementos finitos e estanques. Ademais, pode contribuir para aumentar a distância entre eu e o outro”, diz ela, Phd em Antropologia Social pela University of St. Andrews-Escócia.

DIFUSIONISMO


Na antropologia, era assim. Primitivas ou avançadas, as culturas chegariam ao mesmo lugar. Com o difusionismo a partir do século 20, aceitou-se e ampliou-se a ideia de que as culturas se encontram, se contamimam, se (re) configuram por aceitação, por negação e até por displiscência. Que as culturas não são tão uniformes quanto parecem: mesmo nas identidades muito definidas, sempre haverá grupos com poder para decidir os símbolos da cultura. Foi a elite rurícola pernambucana quem definiu a ideia de “popular” no século 20. Ao abandonar o turbante por um bem-cortado terno Armani, um negro (sic) estaria sucumbindo à cultura branca e europeia que historicamente o subalterniza. Ou estaria dela se apropriando? 

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Comentários

Por Ernane tubarão de Boa Viagem,19/02/2017

Negros Nutella envergonhando negros Raiz...

Por cavalo de tróia,18/02/2017

Esse negócio de apropriação cultural me causa arrepios, como alguém pode reclamar do uso de um turbante por uma pessoa branca e se sentir roubada ou ofendida. Ora os negros são useiro dos costumes relativamente ditos brancos e nem por isso podemos reclamar ou afirmar que é invasão cultural, aliás os costumes, a culinária e o modo de vida são de todos e para todos nos dias atuais. Fora disso é hipocrisia.



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