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Tradição

Matinê Branca do Clube dos Lenhadores completa cem anos neste domingo

Baile de gala criado surgido também como culto aos orixás foi resposta dos negros à elite branca do Recife

Publicado em 25/08/2017, às 16h08

Matinê branca: tradição centenária / Helia Schepa / JC IMAGEM
Matinê branca: tradição centenária
Helia Schepa / JC IMAGEM
Bruno Albertim


Nem todos seguem, obrigatoriamente, a devoção aos orixás. Mas logo cedo, neste domingo, o ritual se repete como há cem anos. Logo às seis da manhã, uma saraivada de fogos anuncia: a manhã é de festa. Cabelos serão armados em coques e escovas. Vestidos de baile e decotes. Nos homens, ternos completos, gravatas borboletas e chapeús. Tudo branco. Peça raríssima de resistência e pertencimento, neste 27 de agosto a Matinê Branca do Clube Carnavalesco completa um século de existência. Os primeiros acordes começam a soar pelo salão a partir do meio-dia.

É mesmo um gesto centenário e festivo de resistência identitária: “A tradição dessa festa teve início no tempo da repressão religiosa, no início do século passado, a festa branca representava uma reverência a Orixalá, tendo em vista que a oferenda ao orixá africano não poderia ser prestada de maneira explícita”, comenta o advogado Edvaldo Ramos, 83 anos, sócio benemérito e conselheiro do clube surgido Há 120 anos, numa época em que era mister os ofícios e profissões terem suas agremiações organizadas para o Carnaval do Recife.

O primeiro baile aconteceu ainda com o clube sem sede. Espalhou-se pelo antigo Baco das Barreiras, rua menos movimentada do Centro do Recife, hoje a bem ocupada Rua José de Alencar. “Depois, a festa foi para o Pátio de Santa Cruz, onde ficou até a década de 1950, quando um terrenos foi doado e o clube pôde se estabelecer na sede da Mustardinha”, conta Jamesson Tavares, funcionário público federal, assistente em ciência e tecnologia na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, um senhor de 61 anos que, aos 15, já fazia parte do Clube de Lenhadores. Comecei, rapazola, como cobrador de ingressos. Depois, fui diretor social, relações públicas...”.

Hoje, diretor cultural dos Lenhadores, Jamesson é um dos que não faltam a uma matinê branca, ainda que não cultue os orixás. “Não sou do candomblé, mas sou muito respeitoso com a religião. Hoje, são poucos os que ainda são”, diz o homem que, não tendo vivido, só ouviu falar dos anos mais brabos de repressão durante os governos do presidente Getúlio Vargas.
O Departamento de Ordem Política e Social, Dops, varguista, tinha um especial prazer em descer as botinas e cassetetes nos negros brasileiros encontrados em culto a divindades nos terreiros - proibidos por lei. “Até a virada da década de 1950 para 60, a polícia não admitia mesmo os cultos na umbanda, descia o pau”, ele ouvia.

Para poder dar vazão ao lado religioso da festa, a Matinê Branca contava com vigilância especial. “Ficava um olheiro na porta, e as oferendas aconteciam atrás de uma cortina no salão. Então, quando o Dops vinha entrando, o olheiro dava a senha para a Orquestra que tocava uma música específica e quem tava no do culto aos orixás saia lá de trás e ia dançar, como se nada tivesse acontecendo. A polícia, então, via apenas o pessoal dançando, bebendo cerveja e refrigerante, ficava cinco ou seis minutos por ali”, conta. “Assim que eles saíam, o pessoal ia lá pra trás e continuava o culto aos orixás”, segue ele. Hoje, nem o espaço para os cultos ocultos existe mais. “Tem ainda a parede, a cortina, mas não tem mais nada. Já tem outra casa atrás do clube, mas não tem nem mais espaço para se fazer as oferendas”.



Além de ato de resistência e afirmação religiosas, a festa surgiu também como uma resposta às elites afeitas aos bailes elegantes nos clubes do Recife frequentados pela aristocracia canavieira - nos quais cidadãos de pele escura tampouco eram bem-vindos. Alheios à fauna política e das oligarquias, os trabalhadores resolveram criar o próprio baile. “A diretoria do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores decidiu fazer uma festa gratuita, onde os trabalhadores mais humildes, como os biscateiros, balaieiros, verdureiros, ambulantes, pedreiros, arrumadores, enfermeiros, sapateiros, entre outras profissões, pudessem também levar ao clube seus familiares. Dessa forma, surgiu a Matinê Branca, com uma festa a rigor, porém sem serem cobrados ingressos de entrada e até hoje mantém essa tradição”, diz Jamesson Tavares.

Neste domingo, os pares dançantes serão embalados trio de forró pé de serra, grupo de chorinho, Orquestra Brilhante e a cantora Josiane.

Se já não sofre perseguição religiosa, o mais antigo evento social de salão do Recife precisa enfrentar outras barreiras. “A gente pede um dinheiro ao Governo para uma orquestra, para a prefeitura, para outra atração. Vamos passando o chapéu aqui e ali e conseguimos, todos os anos, fazer o baile”, diz.

Criado em 5 de março de 1897, a partir de uma dissidência do Clube das Pás, o Clube dos Lenhadores tem no ofício, praticamente extinto no Recife, apenas o nome. “Na época, Juvenal Brasil desligou-se das Pás levando consigo alguns companheiros. Daí, surgiu a ideia de criar uma agremiação durante o trabalho na mata cortando lenha, onde Juvenal Brasil e os amigos eram lenhadores. Num primeiro momento, o clube foi chamado de Clube do Machado, depois Clube do Machadinho, em seguida, Clube do Lenhador e, por último, Clube Carnavalesco Misto Lenhadores”, conta o advogado Edvaldo Ramos.

As cores do clube são verde, vermelha e branca. Mas, para ter acesso ao centenário baile sincrético, não se paga o ingresso com dinheiro, apenas com a esperada elegância: cavalheiros devem usar terno branco, tanto a calça como o paletó, camisa de colarinho e mangas compridas também branca, com o contraponto na gravata borboleta, sapato e cinto pretos. As damas, blusa e saia brancas ou vestido branco, cuidadosamente abaixo do joelho. Sapatos ou sandálias sociais devem estar, como equilíbrio, na cor preta.

Matinê Branca. Hoje, meio-dia. Rua Moçambique, 160, Mustardinha. Fone: 3422-6214.


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