Sabe aquela sua ideia que você acha genial e nunca viu ninguém pôr em prática no mercado? Já pensou em patenteá-la e transformá-la numa fonte de renda? O processo é mais simples e barato do que muita gente imagina. Um colégio particular de Aldeia, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife, montou um programa de incentivo aos alunos para fomentar a geração de ideias e registrá-las. O resultado tem dado certo. Alguns jovens da Escola Internacional de Aldeia (Eia) estão sendo estimulados a pensar na resolução de problemas do cotidiano e dar valor às próprias criações. A iniciativa despertou até a atenção do Ministério da Educação.
Após uma temporada de palestras de introdução sobre o assunto, alguns estudantes espontaneamente se apresentaram como detentores de ideias inovadoras, acreditando que elas poderiam ser transformadas em patentes. Carlota Parra, por exemplo, inventou um dispositivo de sensoriamento capaz de detectar altos níveis de umidade. Tudo para que as meninas possam saber quando o absorvente está perto de vazar.
Todos que se envolveram, a exemplo de Pedro e Mariana Vieira e Adolpho Boder (foto), foram em frente e já obtiveram os devidos registros no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi). “O Brasil ainda não atentou para a valorização de ideias e a consequente transformação disso em produtos. Acredito que não há público melhor para se estimular a criatividade que os jovens”, aposta Paulo Vieira. Na opinião dele – que é pai de dois estudantes do Eia e especialista na área –, a iniciativa dá peso à preparação intelectual e emocional das crianças e adolescentes, além de conceder a oportunidade de ingresso na vida profissional já com a ciência dos processos e da importância da proteção e valorização das inovações.
Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), foram patenteados no Brasil, em 2010, quase 22,7 mil invenções, sendo que praticamente 88% eram de não residentes. Nos Estados Unidos, campeão do ranking, esse percentual foi de 50,6%, para um total que ultrapassa 490 mil registros. Na China (que recentemente ultrapassou o Japão), apenas 25% das poucas mais de 391 mil patentes eram de não residentes. Para se ter ideia de como o sistema funciona lá fora, podemos citar o caso do hospital da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde parte dos recursos institucionais são provenientes da comercialização de invenções.
A instituição utiliza um método que envolve três atores principais: a indústria, o professor e, entre estes dois, o valorizador de patentes – uma pessoa de formação dupla, com conhecimentos acadêmicos e industriais. É justamente essa a formação de Vieira, uma das figuras que ajudaram a erguer o projeto belga. “Por lá, o sistema cresceu tanto que criou-se um centro de valorização e o público que mais participa é exatamente o jovem”, atesta. “Um dos grandes entraves nacionais ao fomento na área é a mistificação de que apenas técnicos ou pessoas especializadas são capazes de redigir textos de patentes, o que não é verdade. Se estudantes conseguem escrever trabalhos e teses de doutorado, por exemplo, por que não conseguiriam escrever patentes?”, questiona.
Para registrar uma patente, não é preciso desenvolver o produto até o final. O documento envolve, na verdade, as descrições, o caminho para chegar até lá. A estrutura se compõe basicamente de título, relatório descritivo, reivindicações, desenhos (se for o caso) e resumo. Na opinião de algumas pessoas da área, contratar um escritório de advocacia especializado nem sempre é necessário. Mas essas empresas têm a vantagem de trabalhar, por exemplo, com softwares específicos de busca. Um exemplo local de investimento na área é o Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Com cerca de 25 anos de fundação, possuía somente uma patente registrada, em toda sua história. Graças ao acesso à informação e a esclarecimentos metodológicos, o Lika conseguiu recentemente, em apenas seis meses, acumular 12 registros no currículo, incluindo a primeira tese de doutorado, composta parcialmente por duas patentes. O Lika é considerado referência em assuntos como diagnóstico e tratamento da amebíase, biologia molecular, telemedicina, aids, câncer de útero, entre outros.
Na opinião de Carmem Parra, professora do Eia que atua na coordenação do projeto, a iniciativa é capaz de agregar valor também aos docentes. “O ato de educar passa a ser sinônimo de dar valor ao que realmente tem valor. É a raiz de uma grande modificação no método de ensino e uma forma de trabalharmos em cima de situações-problema. Quando o assunto parte da inquietação dos próprios alunos fica muito mais fácil atrai-los, afinal educar é uma vida de mão dupla”, aposta.
O trabalho na escola está baseado em dois grandes eixos metodológicos: o técnico e o psicológico. É a partir daí que se incluem detalhes pedagógicos (como inserir o assunto nas disciplinas) e familiares (para que os pais conheçam e participem do processo de maneira adequada). “Nossa ideia é recompensar todo mundo envolvido: alunos, professores e escola. Se o negócio der certo, os lucros serão repartidos. Nossa intenção também é atrair estudantes carentes concedendo bolsas de estudo”, detalha Carmem. O projeto foi introduzido numa escola pública de Aldeia por iniciativa de Vieira. Ampliar a atuação em escolas públicas do Recife será o próximo passo do especialista. Tudo através do trabalho voluntário.
Comentários
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