Jornal do Commercio
INFRAESTRUTURA

Ferrovia Transnordestina está inacabada após 10 anos de obras

A equipe do Jornal do Commercio percorreu mais de 2 mil quilômetros em Pernambuco, Ceará e Piauí e só encontrou abandono

Publicado em 03/07/2016, às 08h01

 O lavrador João José de Carvalho teve a sua propriedade cortada pelos trilhos e não recebeu indenização / Diego Nigro
O lavrador João José de Carvalho teve a sua propriedade cortada pelos trilhos e não recebeu indenização
Diego Nigro
Angela Fernanda Belfort

Dez anos depois do início das obras da Ferrovia Transnordestina, o pouco que foi construído está abandonado. Era "o sonho" de uma ligação férrea entre o litoral e o Sertão. É mais um capítulo de desesperança em três estados: Pernambuco, Ceará e Piauí. Pelo caminho, ficaram cemitérios de trilhos, uma parte de uma ferrovia concluída na qual passam motos e jumentos, mais de 80 vagões abandonados (em Missão Velha, Salgueiro e Terra Nova), uma fábrica de dormentes desativada, trilhos fixados no barro, entre outros símbolos do descaso. A reportagem do Jornal do Commercio percorreu 2,1 mil quilômetros.

Durante esse percurso, encontrou apenas oito operários ajeitando uma escadinha em frente à fábrica de dormentes em Salgueiro – a qual seria "a maior da América Latina” ao ser inaugurada em 2010 – e apenas um caminhão com um adesivo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) retirando material usado na terraplenagem realizada nas proximidades da igrejinha de São Luiz Gonzaga, em Custódia. A paralisação da obra também deixou um rastro de desemprego em cidades como Salgueiro e Missão Velha.

Com uma extensão de 1752 quilômetros, a Transnordestina deveria ligar a cidade de Eliseu Martins (no Piauí) e aos portos de Pecém, próximo à Fortaleza, e ao de Suape, litoral pernambucano. Desse total, cerca de 600 km saíram do papel. A reportagem encontrou trechos finalizados em Parnamirim (extremo oeste de Pernambuco), em Paulistana (no Piauí) e entre Salgueiro e Missão Velha, essa última cidade no Ceará. O trecho que vem de Salgueiro acaba justamente em Missão Velha, onde o trilho está fixado no barro, exatamente no local em que o então presidente Lula (PT) fez o lançamento da obra em 2006. 

“Quem já trabalhou em ferrovia sabe que primeiro faz a terraplenagem para nivelar. Depois, coloca os dormentes, a brita e os trilhos que são o acabamento final. Vão ter que fazer tudo de novo, inclusive porque os trilhos também estão empenados”, conta o ex-soldador e auxiliar mecânico, Francisco Figueiredo dos Santos, se referindo ao trecho Missão Velha-Pecém. Desde 2012, Francisco trabalhou em várias empresas que construíram a Transnordestina e agora está desempregado. “O serviço aqui (em Missão Velha) acabou em setembro do ano passado. Tá tudo parado”, diz.

A situação é a mesma em Paulistana e Simões, os dois primeiros municípios do Piauí cortados pela Transnordestina. “A ferrovia atravessou a minha roça. Pedi para o pessoal da firma fazer uma barraginha (para armazenar água) no lado em que ficaram os animais, mas não ligaram. Agora, se um dia passar o trem, os meus bichinhos vão morrer de sede, enquanto ele tiver passando”, conta o lavrador João José de Carvalho, que teve a sua propriedade cortada pelo empreendimento e até hoje não recebeu qualquer centavo de indenização.

O trecho ferroviário implantado tem 600 km e custou R$ 6,2 bilhões. Não há data prevista para a conclusão das obras e ,oficialmente, os órgãos do governo dizem que há obras nos trechos Missão Velha-Piquet Carneiro, ambas as cidades no Ceará. Lá as obras estão paralisadas e foram demitidas 2 mil pessoas em abril último. O orçamento inicial da obra era de R$ 4,5 bilhões e o empreendimento deve alcançar um total de R$ 11,2 bilhões, valor 250% maior do que o anunciado em 2006. 

Salgueiro foi do sonho à frustração

O comerciante José Carlos Silva Saraiva enxergou na implantação da Ferrovia Transnordestina uma possibilidade de prosperar. Chegou a fornecer quentinhas para os funcionários das empresas terceirizadas da obra que atuavam até 50 quilômetros a partir de Salgueiro, onde tinha dois restaurantes na época. “Comecei servindo três funcionários da Odebrecht. Depois de cinco meses, eram 1,8 mil refeições. Das 11h às 13h, os restaurantes ficavam lotados somente com o pessoal ligado às obras. Aí perdi o pessoal que pagava a vista - que não encontrava lugar - e também o que forneci às empresas, porque até hoje não recebi uma parte”, conta. O prejuízo foi de R$ 210 mil. Para pagar as dívidas trabalhistas e de fornecedores, ele vendeu dois imóveis, fechou um restaurante, alugando o imóvel para uma rede de farmácias. “Salgueiro parou e muita gente quebrou. Em vez de colocar dinheiro na conta de políticos, queria que Marcelo Odebrecht colocasse na minha conta, o que ficou me devendo porque eu trabalhei. Era café, almoço, janta e lanche”, afirma.

Do comércio aos hotéis, toda a atividade econômica de Salgueiro foi impactada com a paralisação das obras da Transnordestina. Somente este ano, foram homologadas mais de 300 demissões no escritório que o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada (Sintepav-PE) mantém em Salgueiro. A média dos salários dos trabalhadores que prestavam serviços à obra era de R$ 1.578. Numa estimativa grosseira, deixaram de circular cerca de R$ 473,4 mil, por mês, na cidade e outras vizinhas. 

Salgueiro chegou a ser a cidade campeã na geração de empregos em 2010/2011 no auge das obras da Transnordestina.  “Se a Transnordestina tivesse saído, a cidade estaria em outro patamar de desenvolvimento”, diz o prefeito de Salgueiro, Marcones Libório. O projeto original da ferrovia previa até a implantação de uma plataforma de logística em Salgueiro. “A população vive me cobrando, mas a ferrovia não sai. Não faz sentido uma empreendimento desse tipo sem a ferrovia”, conclui o prefeito.

Como a vida mudou

O sonho de um emprego com carteira assinada acabou, há dois meses, para o operário Luís Eduardo Dantas Sobreira, de 27 anos, demitido pela Brink Engenharia, empresa que fazia solda para os trilhos da Ferrovia Transnordestina. Ele trabalhava como operador de lixadeira e a sua demissão ocorreu “porque acabou o contrato com a Transnordestina”. Nos últimos seis anos, o sustento da família dele girou em torno das obras de implantação do empreendimento, que lhe propiciou sair da incerteza de uma agricultura de subsistência, a qual não resulta em qualquer ganho financeiro nos anos de estiagem, para fazer parte do time privilegiado dos brasileiros que têm um salário fixo no final do mês.

O primeiro emprego de Luís Eduardo com carteira assinada foi na Construtora Odebrecht em 2010. Até então, tinha trabalhado somente como agricultor. Nos últimos seis anos, casou, nasceram dois filhos – um menino de três anos e uma menina com quase dois meses – em empregos formais ligados às empresas que prestam serviço à ferrovia. “O interior do Nordeste é ruim de emprego, mas a gente esqueceu essa realidade por um tempo. Quando a minha esposa engravidou pela segunda vez fiquei preocupado porque vi as empresas – que prestavam serviço à obra – fechando ou indo embora”, lembra Luís, responsável pelo sustento da família.

No último trabalho, passou um ano e 11 meses. Agora, vai passar alguns meses pagando as contas com o seguro desemprego, o FGTS e depois ver se consegue outro emprego. Voltar para a agricultura ? “Penso não, porque com essa seca que tá aí ... tem ano que dá e ano que se perde tudo”, lamenta. Atualmente, há localidades no Sertão de Pernambuco completando cinco anos de estiagem. E complementa: “O futuro não fica muito bom, sem emprego. Tenho que caçar um meio de arranjar outro trabalho”. A esperança dele é de que “um dia as obras sejam retomadas”.


Galeria de imagens

Legenda
Anteriores
Próximas

Recomendados para você


Comentários

Por Jeová Barboza de Lira Cavalcanti,13/04/2017

A respeito da Transnordestina Logística S.A. (TLSA), eis uma nota nota publicada pela Associação Nacional de Transportes Ferroviários, há algum tempo: "A Transnordestina Logística S/A, antiga Companhia Ferroviária do Nordeste - CFN, obteve a concessão da Malha Nordeste - SR1 (Recife), SR11 (Fortaleza) e SR12 (São Luís) pertencentes à Rede Ferroviária Federal S.A. - no leilão realizado em 18/07/97. A outorga dessa concessão foi efetivada pelo Decreto Presidencial de 30/12/97, publicado no Diário Oficial da União de 31/12/97.e o traçado da malha que vai do Maranhão a Alagoas, estendendo até a cidade de Propriá em Sergipe, mede no todo 4.328 km de extensão. A empresa iniciou a operação dos serviços públicos de transporte ferroviário de cargas em 01/01/98 e tem hoje o propósito de se tornar líder em logística no Nordeste a partir de 2010. Para tanto, está modernizando sua gestão e investindo em melhorias operacionais e reforma de vagões e locomotivas, além de recuperar trechos de sua malha. Um grande projeto de expansão está em andamento, que levará à reestruturação completa do modelo de negócio atual, com novos ramais, eliminação de gargalos operacionais, remodelamento de trechos, ampliação da capacidade e aumento substancial da produtividade dos ativos. Neste projeto, merece destaque a criação de novos eixos de desenvolvimento através da ligação do cerrado do Nordeste aos portos de Suape (PE) e Pecém (CE), numa linha de bitola larga, partindo do interior de Piauí e passando por importantes pólos econômicos como Araripina. Estes ramais têm previsão de entrar em operação a partir de 2008 e as principais cargas transportadas serão grãos, fertilizantes e minérios. É sabido que em 2004 a Governo Lula acenou com um projeto para o Nordeste, em que previa a construção de 800 km de novas ferrovias e mais a remodelação de 1.200 km do modelo existente, visando à interligação pelos trilhos dos cinco importantes portos, isto geraria um custo de 4,5 bilhões de reais, mas ser apresentado à empresa esta "deu com o pé atrás", como se fala e alegou que seria melhor fazer tudo novo, no que segundo se diz o governo concordou e aí está a nova transnordestina totalmente paralisada: já foram gastos 6,3 bilhões e há uma previsão de que os custos chegarão aos 11 bilhões de reais. A obra está sob suspeita e o TCU proibiu repasse de novas verbas. Daí vem nosso questionamento, Senhores Deputados e Senhoras Deputadas, em especial os nordestinos:: por que é que a concessionária não concordou com o projeto inicial se ela própria já se manifestara sobre a remodelação de todo o trecho adquirido? Não assentiu como foi visto, mas também nada fez para melhorar os trechos antigos e o que ocorreu foi exatamente o contrário e, para melhor situá-lo envio a V. Ex.ªs uma pesquisa de fotos e vídeos, feita por vários amigos do trem em toda a Região Nordestina, registrando a situação de penúria em que se encontram as malhas ferroviárias do Nordeste que compreendem no caso da concessão, os lastros da via férrea desde o Maranhão até Alagoas, estendendo-se ainda à cidade de Propriá em Sergipe. São estações abandonadas ou em completa ruína, ou quando não invadidas e ocupadas por residências irregulares, os leitos das ferrovias em muitas áreas tomados por matagal, com trilhos arrancados ou objeto de lixões e, ainda, construções ocupando o espaço por onde se estendia o lastro da via férrea, vagões de passageiros e cargas, além de locomotivas corroídos pela ferrugem, transformados, por fim, num canteiro de ferro velho; oficinas desativadas, finalmente trata-se de um patrimônio transformado em sucata pela omissão de quem deveria conservá-lo e fazê-lo funcionar em benefício não apenas dos interesses de uma região, mas de toda a Nação. É um descaso total, causado pelos dirigentes da Transnordestina, empresa privada com sede no Ceará e pertencente ao Grupo Empresarial da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cujo principal mandatário, como já dissemos, é o Dr. Benjamin Steinbruch, e, para tenha ideia do que na realidade existe, coisa que Dr. Jorge Leite, atual diretor presidente da TRANSNORDESTINA talvez já tenha conhecimento. O governo precisa adotar providências, cobrando ações da empresa nos dois sentidos - retomar a construção da nova TRANSNORDESTINA, que se encontra paralisada e, ao mesmo tempo cumprir o acordado no contrato de concessão firmado em 1997, com vistas a minorar o impacto que esse menosprezo tem causado às ferrovias do Nordeste, à sua história e sua gente, patrimônio este que foi ao longo do tempo o ícone do desenvolvimento nacional. O BRASIL PRECISA SABER O QUE FOI FEITO DESTE PATRIMÔNIO E TAMBÉM DA NOVA FERROVIA QUE ATUALMENTE É UMA NOVA IMAGEM DO DESCASO!!!

Por anonimo,11/04/2017

apenas mais dinheiro perdido, ou roubado ninguém sabe, só sabe que a ferrovia nunca sera feita, e um investimento absurdo alterado em valores altíssimos que nunca termina essa fraudulenta no Brasil, uma obra simples que pode ser feita em apenas 2 anos, ta la 10 anos depois sem esta concluído." dinheiro sempre tem, ninguém nunca sabe para onde vai".

Por Sônia Maria Silvestre,04/03/2017

FOI ASSIM Q O PT ENGANOU OS TOLOS, COM MENTIRA E FINGINDO Q FAZIA ALGUMA COISA, MAS SO FAZ INICIAR PARA TER DESCULPA ARA DESVIAR DINHEIRO, E PARA LAVAR DINHEIRO

Por CARLOS EDUARDO VIANA,17/02/2017

TEM QUE SER APURADO E CADEIA NOS LADRÕES QUE COM CERTEZA DEVEM TER ROUBADO MUITO. QUEM FINANCIO? O BNDES? TEM QUE SER LEVANTADO E TRAZIDO A PÚBLICO. OBRIGADO CARLOS EDUARDO VIANA

Por euvaldo soares de santana,28/12/2016

é uma vergonha eu estive em verdejante proximo de salgueiro acompanhei o inicio das obras da ferrovia estava tudo correndo bem de uma hora para outra acaba tudo os responsavel pela construção da ferrovia roubaram todo o dinheiro e não terminou cadeia neles inclusive no chefe da quadrilha o lula.



Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

JC recall de marcas 2017 JC recall de marcas 2017
Conheça o ranking das marcas que têm conseguido se manter no topo da preferência dos pernambucanos. O rol é resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Harrop, há duas décadas parceiro do Jornal do Commercio na realização da premiação
10 anos do IJCPM 10 anos do IJCPM
O Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM) comemora 10 anos de história, contribuindo para transformar a vida de jovens de comunidades com histórico de desigualdade social nas cidades de Recife, Salvador, Fortaleza e Aracaju
Chapecoense: um ano de saudade Chapecoense: um ano de saudade
Um ano de saudade. Foi isso que restou. A maior tragédia do esporte mundial, no dia 29 de novembro de 2016, quando houve o acidente aéreo com a delegação da Chapecoense, em Medellín, na Colômbia, fez 71 vítimas. Entre elas, dois pernambucanos

    LOCALIZAÇÃO

  • Rua da Fundição, 257 Santo Amaro, Recife - PE
    CEP: 50040-100
  • assinejc.com.br
  • (81) 3413-6100

    SIGA-NOS

Jornal do Commercio 2017 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM