Jornal do Commercio
INFRAESTRUTURA

Ferrovia faz falta à economia do Nordeste

A falta do serviço impacta os custos das empresas da região como o polo gesseiro e o setor de avicultura

Publicado em 04/07/2016, às 08h01

Antonio Laercio de Almeida, da MP Gesso, fala das vantagens que a ferrovia pode trazer ao polo do Araripe / Diego Nigro/ JC Imagem
Antonio Laercio de Almeida, da MP Gesso, fala das vantagens que a ferrovia pode trazer ao polo do Araripe
Diego Nigro/ JC Imagem
Angela Fernanda Belfort

A Ferrovia Transnordestina faz falta à economia do Nordeste, principalmente aos setores que dependem de um transporte mais barato para aumentar a sua produtividade ou se expandir. Em média, o transporte ferroviário corresponde a 30% do preço do frete cobrado nas estradas.

O caso do polo gesseiro é emblemático. Os empresários acreditam que poderiam dobrar a produção, de cerca de 3 milhões para 6 milhões de toneladas de gesso e derivados por ano, caso a região do Araripe – a 680 km do Recife – tivesse uma alternativa mais em conta para escoar os produtos. A brita de gesso, por exemplo, custa em média R$ 25 a tonelada, enquanto o frete para São Paulo fica por R$ 170.

O custo proibitivo da logística acaba restringido a distribuição de outras matérias-primas, como a gipsita, minério bruto do qual se extrai o gesso e que corresponde a 4% de todos os insumos usados pela indústria de cimento. “Só conseguimos atender as fábricas cimenteiras no Nordeste. O valor do frete rodoviário nos impede de chegar às outras regiões”, lamenta o presidente do Sindicato da Indústria do Gesso de Pernambuco (Sindusgesso-PE), Josias Inojosa Filho. “A Transnordestina deveria ter começado do Litoral para o Sertão, porque poderíamos utilizar os trens nos trechos implantados”, acrescenta. 

As obras do empreendimento foram iniciadas em 2006, mas só têm cerca de 600 km implantados dos 1.752 que ligariam a cidade de Eliseu Martins, no Piauí, aos portos de Pecém, no Ceará e ao de Suape. “Além de escoar a produção, os trens poderiam trazer combustíveis, como o gás natural ou o coque de petróleo”, diz o gerente da Mineração Pernambucana de Gesso, Antonio Laércio de Almeida.

Outro exemplo de como o transporte impacta a produção vem das empresas avícolas do Estado, as quais se concentram em cidades da Zona da Mata e do Agreste. Um dos principais insumos do setor é o milho, que vem do sul do Piauí (próximo de onde vai passar a Transnordestina), Maranhão, Tocantins e Bahia, lugares que estão a uma distância média de 1,2 mil quilômetros. “Pelas nossas contas, a ferrovia reduziria as despesas tanto com transporte de matéria-prima quanto com escoamento da produção a 30% do que gastamos hoje com o transporte rodoviário”, conta o presidente da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), Edival Veras.

Metade do que se consome de frango e ovos no Nordeste é comprado de produtores de outras regiões. “Poderíamos nos autoabastecer se saíssemos da rodovia para a ferrovia. É o custo Brasil. Pagamos mais pela ineficiência da infraestrutura e isso nos impede de crescer”, resume Edival. O setor voltou a comprar milho da Argentina, que chega de navio a Pernambuco, porque sai mais barato do que trazer, de caminhão, das outras regiões do País.

Alguns empresários desconfiam que mesmo quando a Transnordestina sair do papel, não terá um preço atrativo para alguns setores. A desconfiança é provocada pelo fato de que 80% da carga da ferrovia seria o minério de ferro. A empresa que está implantando a ferrovia, a Transnordestina Logística S.A. (TLSA) pertence ao grupo da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), do empresário Benjamin Steinbruck. O minério de ferro é a principal matéria-prima da indústria siderúrgica. “Quem garante que o frete desse minério não terá um preço privilegiado?”, questiona um empresário do setor gesseiro que prefere não se identificar. Especialista em parcerias que envolvem o setor público e o privado, a diretora da Consultoria Guimarães Ferreira, Ana Luíza Ferreira, sugere que, “como a ferrovia é uma concessão, poderiam ser acordados dispositivos definindo como seria a oferta dos serviços. Isso evitaria uma concentração vantajosa apenas para um setor”. Esse acordo teria que ser feito entre o governo federal (o dono da concessão), a concessionária (a TLSA) e os principais usuários do serviço. 

O IMPACTO QUE CHEGA AO BOLSO 

O consumidor nordestino paga até 50% a mais em custo de transporte do que o do Sul e Sudeste do País, porque aqui o produtor depende apenas das rodovias, segundo o coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende. Ele explica que um determinado produto vendido por R$ 100 tem uma despesa logística embutida de R$ 20 no Sudeste e no Sul, enquanto no Nordeste é de R$ 30. “A tendência é repassar esses R$ 10 a mais ao cliente final”, conta. Ele diz que a partir daí “ocorre uma lógica perversa” de repasse de custos que prejudica a todos. E resume: “Primeiro a indústria tenta repassar para o consumidor final ou para os seus fornecedores. E, por último, o setor industrial perde a capacidade de inovar e investir”, sofrendo uma concorrência “desleal” com os produtores das outras regiões, que dispõem de outros meios de transporte, além do rodoviário. 

Resende argumenta que o frete rodoviário no Nordeste tende a ficar mais caro do que o das outras regiões por um motivo muito simples: a falta de concorrência. Para ele, mais do que obras, a região precisa de inteligência logística. “Deveria ser feita uma revisão do potencial logístico integrando três soluções: os portos, as ferrovias e rodovias. O governo central (a União) não tem tradição em tratar as regiões de forma integrada. E os governos dos Estados brigam uns com os outros. Isso não leva a lugar algum”, resume. 

Mas o pior cenário, de acordo com Resende, é abandonar o que não chegou a funcionar. “Qualquer ruptura nesse projeto vai trazer um prejuízo grande ao Brasil inteiro. É chegada a hora de analisar estrategicamente se há a necessidade de um traçado diferente e concluir o que foi implantado”, comenta, referindo-se ao atual estágio da Ferrovia Transnordestina, na qual foram gastos R$ 6,2 bilhões. “O Nordeste não está sozinho nisso. Na questão ferroviária, o Brasil não se encontrou nem nas novas fronteiras do desenvolvimento, muito menos na interiorização da indústria.” 


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Comentários

Por VALDIR ALVES - J PESSOA-PB,04/07/2016

Com tanto atraso e este contrato amplo e maligno que a Transnordestina tem com o Estado, impede que outros trechos, como o caso aqui da Paraíba seja colocado a disposição de outro interessado e explorar esta malha maravilhosa que nosso Estado detém, como no caso das PPPs tão alardeadas pelos dois últimos mandatários, para solucionar logística de cargas para crescimento do NE e particulamente da Paraíba. Revisão dos contratos com a Transnordestina já! O NE tem de crescer!!

Por sidney,04/07/2016

O que foi gasto pra fazer a copa do mundo no nordeste, daria pra terminar 80% da ferrovia. Mas os políticos não querem ter ferrovia e sim rodovia pois tem alguém lucrando com os fretes, com container, com exploração e etc... A ferrovia nos Estados Unidos foi implantada em 1800 pra ligar o país de ponta a ponta. Se nossos políticos fossem sérios esta ferrovia já estaria pronta.

Por WELLINGTON ANDRADE,04/07/2016

LUTEM POR UM DIREITO CONQUISTADO QUE ROUBARAM E DESVIARAM DE VOCÊS. ACORDA BRASIL JÁ O NORDESTE PRECISA E DEVE CRESCER JÁ. AGRICULTURA, FERROVIAS, MAS QUALIDADE EM EDUCAÇÃO, SAÚDE, SANEAMENTOS ,TRATAMENTO DOS ESGOTOS, DRENAGENS, ALBERGUES, BANHEIROS PÚBLICOS COM MAS QUALIDADE PARA OS MORADORES DE RUA, SINALIZAÇÃO, E PAVIMENTAÇÃO NAS BRs, VIAS E RODOVIAS, MAS INVESTIMENTOS EM AÇÕES SOCIAIS PARA OS JOVENS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DO NOSSO ESTADO OS GESTORES PÚBLICOS E OS FISCAIS DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS PRECISA SER INCOMODADOS PARA CUMPRIR COM O SEU DEVER DIANTE DA SOCIEDADE. ACORDA NORDESTE JÁ. ACORDA BRASIL JÁ. CONTRA A CORRUPÇÃO E AS BARGANHAS JÁ.

Por WELLINGTON ANDRADE,04/07/2016

AS FERROVIAS QUE LIGAM RECIFE A ALAGOAS, CAMPINA GRANDE, JOÃO PESSOA, RIO GRANDE DO NORTE, CEARÁ E outras regiões do NORDESTE Vai fazer a diferença no NORDESTE para todo BRASIL.

Por WELLINGTON ANDRADE,04/07/2016

Hoje a POPULAÇÃO precisa como NUNCA ANTES Lembrar do que prometeram e não cumpriram sendo um mal que fizeram a POPULAÇÃO presente e do futuro onde a falta de INVESTIMENTOS E CONCLUSÃO DAS OBRAS FAZ FALTA PARA TODOS. Acorda NORDESTE, Acorda BRASIL JÁ. O STF,MPF, PF e os demais órgãos públicos precisam ser solicitados sempre. Acorda BRASIL JÁ.



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