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ESTIAGEM

Seca aumenta desemprego na Mata Norte

Cerca de 15 mil trabalhadores não foram contratados na safra, numa estimativa do Sindaçúcar

Publicado em 19/03/2017, às 08h01

Aloísio só trabalhou pouco mais de três meses na última safra devido à estiagem  / Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Aloísio só trabalhou pouco mais de três meses na última safra devido à estiagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Angela Fernanda Belfort

As secas provocadas pelo fenômeno climático El Niño já contribuíram para reduzir sete safras de cana-de-açúcar na Zona da Mata, nos últimos 24 anos. Isso significa que foram 14 anos de estiagem nesse período. “A primeira consequência da seca é o desemprego, porque as usinas passam um tempo menor moendo e também empregam menos na entressafra”, diz o presidente da Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais no Estado de Pernambuco (Fetaepe), Gilvan José Antunes. Numa estimativa feita pelo Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), a seca fez com que cerca de 15 mil trabalhadores não fossem contratados na última safra por um motivo simples: a perda de parte da cana-de-açúcar. 

Geralmente, as usinas empregam cerca de 60 mil trabalhadores numa safra. “Na última moagem, percebemos uma redução de 30% na contratação de canavieiros. Na Mata Norte, teve gente que só trabalhou por dois meses enquanto durou a moagem”, conta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nazaré da Mata, Tracunhaém e Buenos Aires, José Pereira da Silva Filho.

“A seca desestrutura tudo, porque a cana-de-açúcar continua sendo a principal atividade econômica da região. O comércio fica mais fraco, acaba demitindo também. E a gente percebe nitidamente o aumento do desemprego”, lamenta a prefeita de Lagoa de Itaenga, Maria das Graças Arruda Silva (PSB). Todas as cidades citadas estão na Mata Norte.

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Embora as estiagens estejam sejam cíclicas na Mata Norte, o governo do Estado não tem qualquer ação de convivência com a seca naquela região. Ao ser questionado sobre as iniciativas que o Estado desenvolve nessa área, o secretário estadual de Agricultura, Nilton Mota, citou as seguintes ações: o incentivo fiscal dado pelo Estado para estimular a reabertura de três usinas, uma articulação para que os fornecedores tenham o acesso mais facilitado ao crédito, além de deixar menos burocrático o licenciamento ambiental.

“A convivência com a estiagem não é só uma ação direta. Não adiantava somente fazer poço para os fornecedores”, defende Mota. E acrescenta: “o problema da cana-de-açúcar é uma política econômica que deixou o preço do álcool baixo, o preço do açúcar caiu, o aumento da importação de álcool no Nordeste. É mercado, preço e um problema energético do Brasil no qual a seca é apenas um componente”. Entre os sete produtores entrevistados pelo JC, o que mais está contribuindo para a não recuperação da safra da cana-de-açúcar, desde 2015, é a estiagem, embora eles reconheçam os outros problemas citados pelo secretário.

A última grande seca que atingiu a Zona da Mata foi em 1997 e se estendeu até 2000. Depois dessa estiagem, o consultor do setor sucroalcooleiro, Gregório Maranhão, fez um projeto chamado Águas do Norte, que previa a implantação de 130 micro e médias barragens na Mata Norte. O documento foi apresentado ao governo do Estado em 2002, quando Jarbas Vasconcelos (PMDB) era governador. Na época, o governo já tinha feito o Prorenor (um programa do Estado que que ajudou a replantar os canaviais da Mata Norte) e aí faltaram recursos. Esse projeto tem um custo estimado em R$ 300 milhões e aproveitaria a topografia da Mata Norte para fazer as barragens. “Essa água seria de múltiplo uso. Ajudaria aos fornecedores, aos produtores de hortifrutigranjeiros e até ao abastecimento humano. É um plano de desenvolvimento daquela região”, afirma Gregório.

A HISTÓRIA DE ALOÍSIO

Canavieiro há mais de 25 anos, Aloísio Miguel dos Santos, 53 anos, passou a menor safra com carteira assinada entre 2016 e 2017. Trabalhou por pouco mais de três meses. “Foi a safra mais curta. Não tinha cana pra cortar”, conta. Ele foi contratado no dia 29 de agosto e dispensado no dia 5 de dezembro, quando encerrou a moagem na usina que estava trabalhando na área rural de Nazaré da Mata. Isso significa que ele recebeu um pouco mais de um salário mínimo por três meses e vai ficar sem uma renda fixa até a próxima safra, que ninguém sabe ainda quando vai começar por causa da estiagem. Geralmente, as safras começam no final de agosto e vão até fevereiro/março.

“Já trabalhei até sete meses numa safra. Agora, a única esperança é receber a bolsa do Chapéu de Palha”, diz. Chapéu de Palha é um programa do governo do Estado que dá um auxílio aos trabalhadores rurais na entressafra).

– E como faz pra comprar as coisas?

– “Minha mulher faz um biscate, lava uma roupa, trabalha em casa de família”... 

Aloísio já cortou cana em todas as usinas na área de influência de Nazaré da Mata, na Mata Norte. Estudou “somente” até a terceira série do fundamental e traz na sua história uma outra herança: o pai trabalhou somente como canavieiro. “Já prestei serviço à Prefeitura com serviço de limpeza, mas não deu pra mim”, conta, sem acrescentar detalhes.

“A situação este ano está feia. Com essa seca, penso que vai ter pouca cana pra colher na próxima safra. Quando aparece um serviço de pedreiro, de limpeza de quintal, dura apenas um ou dois dias. O dinheiro não dá pra nada. É esperar por Deus para melhorar a situação na terra. E que as usinas moam este ano”.

 

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