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INSEGURANÇA

Entenda como a violência pode deixar a sua vida mais cara

Alguns cidadãos decidem pagar a mais em busca da sensação de segurança no Estado

Publicado em 14/01/2018, às 06h01

Comprar um carro, instalar cerca elétrica, câmeras de vigilância ou contratar um seguro são as formas que as pessoas encontram de se sentir seguras / Foto: Pixabay
Comprar um carro, instalar cerca elétrica, câmeras de vigilância ou contratar um seguro são as formas que as pessoas encontram de se sentir seguras
Foto: Pixabay
BIANCA BION
btrajano@jc.com.br

A escalada da violência em Pernambuco tem levado os cidadãos a gastar mais dinheiro em busca da sensação de segurança. São pessoas que passaram a andar apenas de carro ou Uber, evitando o transporte público; contrataram seguros; ou instalaram alarmes, grades, trancas e câmeras de vigilância em suas residências ou empresas. De acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada no ano passado, três em cada quatro brasileiros já tiveram alguma despesa com segurança e quase metade aumentou os cuidados com o aumento da violência. No Estado, não é difícil encontrar pessoas que comprometem o orçamento por causa da insegurança. Até novembro de 2017, foram registrados 111.649 Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVP) – que incluem depredações, roubos e furtos –, além de 5.030 homicídios.

“No fim, quem paga o preço pela violência é o cidadão”, afirma o executivo de vendas Fabio Santos, 33 anos. Ele levou um susto quando foi renovar o seguro do carro e descobriu que o valor subiu aproximadamente 25% este ano em relação a 2017. Entre os motivos apresentados, estavam o aumento da sinistralidade do modelo de veículo que utiliza, o Honda Civic, e do preço das peças e da manutenção. “Pesquisei e pude constatar, aliado com o que o corretor disse, que a sinistralidade influencia o valor do seguro. Não posso deixar o patrimônio sem cobertura, o prejuízo seria muito maior. Renovei o seguro, mas com o gosto de remédio amargo que preciso tomar”, lamenta.

O corretor Walter Diniz, sócio da Bertier Corretora, explica ainda que o índice de sinistralidade também varia em cada seguradora. “Com certeza, a violência impacta o valor do seguro. O problema é o modelo de carro que está sendo muito roubado. O corretor trabalha com várias seguradoras, e a gente tenta migrar o cliente para não ser prejudicado”, explica.

Já o diretor financeiro do Sindicato dos Corretores do Estado (Sincor-PE), Paulo Lucena, afirma que o impacto é maior para os donos de motos. “A sinistralidade de moto continua alta. Para o dono de moto, é mais barato fazer o seguro direto com a concessionária”, comenta.

Lucena afirma que outros fatores influenciam o valor do seguro, como o aumento do preço das peças, o valor venal do carro, a idade, o sexo do condutor, o local de pernoite do veículo, entre outros. Em Pernambuco, o segmento de seguros de automóvel chegou a R$ 696.917.328 em novembro de 2017, valor 8,12% maior em comparação com todo o ano de 2016.</CW>

O direito de ir e vir fica em xeque com a insegurança. Após ser assaltada duas vezes em ônibus a caminho do trabalho, a jornalista Ariane Cruz, 30, comprou um carro. O investimento inicial foi de R$ 15 mil, com entrada para o financiamento, seguro e emplacamento. Hoje, ela gasta quase R$ 1 mil por mês para manter o veículo. “Eu moro e trabalho em Boa Viagem. Não abro mão de ter meu carro porque, hoje, não é mais um artigo de luxo, mas sim uma garantia de conforto e segurança”, explica. No acumulado de 2017 até o mês de novembro, ocorreram 1.327 roubos em ônibus no Estado. De acordo com a Urbana-PE, sindicato que representa as empresas de ônibus, o setor busca soluções junto ao governo e tem investido em câmeras de segurança, cofres nos veículos, sistema de GPS e bilhetagem eletrônica. As empresas também enviam relatórios detalhados com os registros e imagens das ocorrências às autoridades competentes.

Para Ariane, no entanto, o medo não terminou. Ela estaciona o carro na rua em frente ao prédio, à noite. Recentemente, houve um assalto que resultou em roubo de carro no local. O prédio precisou retirar dinheiro do fundo de reserva próprio para comprar um holofote e melhorar a iluminação na rua.

Já a arquiteta Cinthia Becker, 26, teve que modificar os hábitos. Ela ia todos os dias para a academia de bicicleta, por volta das 5h. “Há três, quatro meses, começou uma onda de assaltos nas proximidades da academia. Desde então, comecei a ir de carro. Uma vez, um carro me seguiu, tive que escapar pela contramão. Agora, tenho que acordar mais cedo porque a bicicleta já era um aquecimento para mim. Tem coisas que eu gostaria de fazer mais de bicicleta, mas me sinto insegura. Por ser mulher, ainda é pior. Não saio com bolsa na bicicleta”, comenta.



Quem não tem dinheiro para comprar um carro recorre ao Uber. É o caso de Kamila Ataíde, 22, que passou a usar o Uber para se locomover. Ela tem crises de ansiedade e acha que um dos motivos que agravou seu quadro de saúde foi a violência. “O fato de ver tantas coisas acontecendo diariamente, as estatísticas, os números, foi criando medo. Não ando mais tranquila na rua, passei a olhar o tempo todo para trás. Isso contribuiu para que eu ficasse muito tensa”, comenta. Ela gasta por mês no mínimo R$ 530 a mais, com remédios, terapia e as viagens de Uber.

Outro modo de se proteger é recorrer a equipamentos de segurança. A oftalmologista Graziela Luna, 40, junto com outros médicos com quem divide uma clínica em Boa Viagem, investiu cerca de R$ 5 mil em câmeras de segurança, além de uma trava extra para a porta. “Instalamos as câmeras por medo de assalto e para a própria segurança dos pacientes. Eles também prezam por isso. Estamos há três anos em uma galeria que já disponibiliza segurança. São pelo menos quatro por dia, 24 horas, sete dias por semana”, diz.

A violência também impacta a competitividade das empresas. Com nota zero na segurança pública no Ranking de Competitividade dos Estados 2017, Pernambuco apresentou o pior resultado do País nessa categoria. O Estado perdeu cinco posições no ranking, passando a ocupar a 18ª colocação entre os 27 Estados pesquisados pelo Centro de Liderança Pública (CLP), em parceria com a Tendências Consultoria e a Economist Intelligence Group.

A Masterboi, por exemplo, gasta R$ 12 mil com segurança, o que envolve escolta e GPS. “Ainda não temos a segurança que deveríamos ter. Nas saídas do Recife, a partir de São Lourenço da Mata, já há muita insegurança”, explica o diretor-presidente da Masterboi, Nelson Bezerra da Silva.

Para o professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da FGV, Rubens Penha Cysne, a violência impacta a economia como um todo. “Eu diria que para o consumidor, o brasileiro médio, a segurança pública hoje é um problema muito mais importante do que a inflação. A inflação está dentro de intervalos razoáveis, ao passo que a violência não está contida em parâmetros razoáveis. O custo provocado pela violência não é só a perda financeira de colocar uma grande, uma cerca elétrica. Quando uma pessoa morre, tem a perda econômica de todo o fluxo de trabalho que aportaria na economia e não mais aportará”, comenta.

RESPOSTA

A Secretaria de Defesa Social (SDS) informa que, em 2017, os investimentos na segurança pública em Pernambuco somaram cerca de R$ 3,7 bilhões, o que possibilitou a criação de diversas unidades da Polícia Militar, como o Bope (Recife), o Biesp (Agreste), o 25º Batalhão de Jaboatão dos Guararapes e a Companhia Independente de Tamandaré. Também permitiu a convocação de mais de 4 mil profissionais para as policias Militar, Civil e Científica, além do Corpo de Bombeiros.

O governo afirma que o trabalho tem resultado na redução da criminalidade em todo o Estado. No caso dos Crimes Violentos Contra o Patrimônio, houve queda de 8,8% em novembro em relação a setembro e de 28% em relação a janeiro. No número de roubo de carros, houve queda de 21% em novembro em relação ao mês de janeiro. O Estado, no entanto, não disponibilizou números para comparação anual ou mensal. Já em relação aos roubos em ônibus, os números caíram por quatro meses seguidos, segundo a SDS.


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