O carioca Amarildo, hoje com 72 anos, é talvez entre os jogadores vivos, o de maior importância na conquista do bicampeonato mundial, em 1962, no Chile. Em entrevista ao Jornal do Commercio, o substituto de Pelé lembra momentos daquela conquista e cobra mais reconhecimento pelo desempenho que lhe valeu o apelido de "Possesso" após o Copa do Mundo.
JORNAL DO COMMERCIO - O senhor acha que a conquista de 1962 é menos cultuada pela imprensa em comparação com outras copas, como a de 1958 e a de 1970?
AMARILDO - Menos cultuada eu não diria. Mas talvez se fale mais da conquista de 58 porque foi a primeira e porque ela teve como símbolos Pelé e Garrincha. Além de que serviu para apagar a desilusão que foi a perda da Copa de 50. Mas o título de 62 não deve em nada aos demais. Até porque foi mais difícil do que a de 58. Fomos campeões sem a estrela de Pelé. Lembro que todo o Brasil se lamentou e ficou receoso quando ele se machucou. Mas acabei substituindo ele a altura. A conquista de 62 não deve em nada a de 58. Até porque a base da seleção era a mesma. Do time campeão só três jogadores não tinham sido campeões quatro anos antes. Eu, que entrei no lugar do Pelé, Mauro que substitui Bellini e o Zózimo na vaga de Orlando.
JC - Qual foi o jogo mais difícil daquela Copa?
AMARILDO - O jogo contra a Espanha (o último da 1ª fase). Foi logo a minha estreia na Copa e em um mata-mata, já que se o Brasil perdesse estaria fora da Copa. Foi o jogo-chave. A Espanha estava entre as cotadas para ganhar o Mundial. Tinha um timaço com Di Stefano, Puskas e Gento. Se imaginava que o Brasil estaria enfraquecido por estar sem Pelé, mas não houve nada disso. Entrei e fiz os dois gols da vitória. O Brasil não sentiu a falta de Pelé. Falo isso com orgulho. Não tive problema com o entrosamento já que na seleção havia Garrincha, Didi, Nilton Santos e Zagallo, companheiros meus no Botafogo. No ataque, o Vavá tinha o estilo de jogo semelhante ao do Quarentinha. Aquele jogo foi uma fogueira. Ou eu saltava ou me queimava. E eu saltei mais alto que eu pude. Na final contra a Checoslováquia também fui decisivo, marcando o gol do empate e dando o passe para o da virada (anotado por Zito).
JC - Como o senhor recebeu a missão de substituir Pelé?
AMARILDO - Sempre fui um jogador de personalidade e sempre fui ambicioso. Sabia que iria entrar e jogar o máximo que eu poderia. Sempre tive confiança em mim. Nunca pensei na responsabilidade. Apenas que tinha mostrar o máximo de disposição em campo. O Garrincha, o Didi, o Zagallo e até o Pelé falaram que bastava eu jogar como jogava no Botafogo. Mas nem precisavam. Para falar a verdade, a responsabilidade eu só senti depois da Copa, quando vi o Mauro levantar a taça. Pensei ‘se o Brasil perdesse essa Copa a minha carreira tinha acabado’. Afinal quem seria o culpado pela derrota? O Amarildo”.
JC - O Brasil ganhou a Copa praticamente sem Pelé? Ganharia também sem Garrinha?
AMARILDO - Garrincha foi a principal peça, como já havia sido em 58. O time adversário ficava com medo toda vez que o Mané tocava na bola. Eles temiam mais o Mané que o próprio Pelé. Tanto que iam sempre três para cima dele e isso facilitava para os outros. Imagine deixar Vavá e Pelé livre? Ia ser duro sem ele. Tínhamos o Jair da Costa para a posição, que era também um excelente jogador, tanto que foi jogar na Inter de Milão depois da Copa. Mas ele era de característica diferente. Poderíamos ser campeões, mas seria muito mais difícil. Nunca mais vai aparecer outro jogador igual ao Mané.
JC - O senhor acha que tem o merecido reconhecimento no Brasil pela conquista na Copa de 62?
AMARILDO - Reconhecimento eu tenho. Mas muita gente não sabe da importância que eu tive para aquele time. Não analisam o valor daquele jogo contra a Espanha. Se analisasse viriam que eu fiz parte da história. O Brasil dependia da vitória naquele jogo para continuar na Copa. Mas ninguém pensa nisso. Quando falam na Copa de 62 falam mais da lesão de Pelé do que de quem entrou no lugar dele e decidiu. Me irrita esse lado muito parcial do jornalismo. As pessoas têm medo de falar mais de mim. Preferem diminuir o meu valor. Eu sou a sombra de Pelé. Eu joguei aquela Copa a altura de Pelé. Ninguém sentiu a falta dele. Podiam ter mais respeito pelo que eu fiz. Mas eu tenho a consciência tranquila e é isso que importa. Aquilo que eu fiz ninguém vai me tirar.
JC - O senhor tem ou teve alguma rixa com Pelé?
AMARILDO - Nunca. Pelé é meu amigo.
JC - Qual o presente que o senhor gostaria de ganhar pelos 50 anos do bi?
AMARILDO - Peço saúde apenas. Porque o presente mesmo eu já ganhei quando fui campeão do mundo. Foi um sonho realizado, uma das maiores emoções da minha vida. Até hoje me emociono. É algo que fica para o resto da vida. O filme passa todos os dias na minha mente.
JC - Daqui a dois anos o Brasil sediará a Copa. O que o senhor espera do Mundial?
AMARILDO - Espero que o Brasil esteja em condições de receber a Copa do Mundo. É uma responsabilidade muito grande. Que não falte nada para que o nome do Brasil não fique manchado. Não é fácil. Falta muita coisa ainda. Mas torço para que até lá tudo esteja pronto. E também espero dessa vez a gente fique com o título para apagar de vez a mancha da Copa de 50.
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