Jornal do Commercio
PARALÍMPIADA

Jogos Paralímpicos Rio-2016 pelas lentes de um fotógrafo cego

''Não preciso ver para fotografar, tenho os olhos do coração'', disse João Maia

Publicado em 10/09/2016, às 12h51

João tem 41 anos e perdeu a visão aos 28, em decorrência de uma uveíte, uma doença inflamatória nos olhos / Foto: CHRISTOPHE SIMON / AFP
João tem 41 anos e perdeu a visão aos 28, em decorrência de uma uveíte, uma doença inflamatória nos olhos
Foto: CHRISTOPHE SIMON / AFP
AFP

João Maia é um fotógrafo brasileiro que cobre os Jogos Paralímpicos do Rio. Ele é cego, mas sua condição não o impede de registrar as mais belas imagens.

"Não preciso ver para fotografar, tenho os olhos do coração", disse João.

O salto, com o qual a francesa Marie-Amélie Le Fur quebrou o recorde mundial e se coroou campeã no Estádio Olímpico Milton Santos, foi retratado com perfeição: a expressão da atleta ao cair na areia que se espalha e faz um arco em perfeita harmonia.

João tem 41 anos e perdeu a visão aos 28, em decorrência de uma uveíte, uma doença inflamatória nos olhos. Em um ano, a situação se agravou, até chegar ao quadro atual. Hoje, ele consegue perceber apenas vultos, sombras e algumas cores - se ele estiver perto do objeto, ou da cena.

Foi assim que ele, então um carteiro em São Paulo, aprendeu a usar a bengala longa (ou bastão de Hoover), teve algumas aulas de braile e abraçou o sonho de fotografar.

"A Fotografia é sensibilidade. Acho que é maravilhoso poder mostrar como percebo o mundo, como eu o 'vejo', como eu o sinto, como eu o percebo", afirmou.

Olhos emprestados

Com a câmera em uma das mãos, e a bengala na outra, João sobe na tribuna de fotógrafos e se posiciona.

Primeiramente, tentou fotografar as corridas de velocidade, mas a largada ficava muito longe.

"Quando estou perto, sinto até o pulsar do coração dos corredores, os passos, e estou pronto para o disparo. Entre o ruído do público e a distância, é difícil para mim", explicou.

Este é o primeiro evento que João cobre, desde que começou a levar a Fotografia a sério, em 2008. Antes dos Jogos Rio-2016, havia feito eventos-teste e competições locais, todas com baixíssimo público. Essa situação é perfeita para ele, que se apoia, principalmente, em sua audição.

João começou a trabalhar com uma câmera tradicional automática, mas agora usa um telefone celular de última geração, que lhe diz se a foto tem boa luminosidade e se está no foco adequado.

Vai a campo acompanhado de Ricardo Rojas e de Leonardo Eroico. Ambos promovem o trabalho de João, com o projeto Superação-2016, o qual busca retratar os Jogos Paralímpicos do Rio. O projeto conta ainda com um fotógrafo cadeirante.

Rojas é o fundador do Mobgrafia, um movimento cultural que define a arte visual captada com um celular.

Ricardo e Leonardo são "seus olhos".

"Sem eles, não poderia fazer nada. São eles que me ajudam com a edição, que eu não poderia fazer, que postam as fotos nas redes sociais", descreveu João, que tem quase 1.800 seguidores em sua conta no Instagram (@joaomaiafotografo).

O futuro

Pouco satisfeito com as fotos dos 100 m rasos, João opta pelo salto em distância.

A área de aterrissagem está a poucos metros.

"Aqui sim, está bem. Estão ajeitando a areia, não é? Escuto perfeitamente. O zoom está bom? Me mostra a tábua... Ok... Me avise quando sair para eu estar preparado", pedia, falando sem parar.

Firmemente apoiado sobre uma mureta, ele começa a capturar imagens incríveis. Em uma delas, Le Fur aparece abraçada com uma bandeira francesa, mostrando apenas sua prótese. Em outra foto, a holandesa Marlene van Gansewinkel está sentada, conversando com a britânica Stef Reid, esperando o fim da prova.

"Não é apenas a ação que você tem de capturar. Essas fotos mostram intimidade", ensinou.

João acredita ser o único fotógrafo cego dedicado ao esporte. Conhece bem o mundo do atletismo, pois já tentou seguir carreira paralímpica no arremesso de peso e nos lançamentos de dardo e de disco.

"Não entrei na equipe. O nível é muito alto. Mas o esporte é tudo para mim e, agora, eu o sigo com a câmera", disse João, que vive de sua pensão por invalidez dos Correios.

Próximo passo? "Aprender inglês", contou.

"Vamos para Tóquio... Ou, pelo menos, sonho com isso", confidenciou.

Recomendados para você




Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

Pernambuco Modernista Pernambuco Modernista
Conheça a intimidade de ateliês, no silêncio de casas, na ansiedade de pincéis sujos para mostrar como, quase nonagenária, a terceira grande geração da arte moderna de Pernambuco vai atravessando as primeiras décadas do século 21
A crise que adoece A crise que adoece
Além dos índices econômicos ruins, a recessão iniciada em 2014 no Brasil cria uma população mais doente, vítima do estresse causado pela falta de perspectivas. A pressão gera problemas psicológicos e físicos, que exigem atenção.
Agreste seco Agreste seco
A seca colocou de joelhos uma região inteira. Fez o Agreste sertanejar. Os cinco anos consecutivos sem chuva em Pernambuco ganharam aqui a dimensão de uma tragédia. Silenciosa e diária.

    LOCALIZAÇÃO

  • Rua da Fundição, 257 Santo Amaro, Recife - PE
    CEP: 50040-100
  • assinejc.com.br
  • (81) 3413-6100

    SIGA-NOS

Jornal do Commercio 2017 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM