CABEDELO (PB) – Em um instante, tudo mudou. Levou a vida que corria solta, sem grilhões. Levou a voz, o movimento dos braços, a liberdade das pernas, elas que a embalavam na dança, o passatempo favorito. Chegou sem aviso prévio, tão inesperado quanto inexorável. Luciana Scotti tinha 22 anos quando sofreu uma trombose cerebral e apagou. Morreu ali. Só foi acordar dois meses depois. Nasceu de novo, como ela mesma diz. Tetraplégica e muda, parecia sentenciada a uma vida improdutiva, semivegetativa. Mas fugiu à autocondenação. Deu um bico nas dificuldades e reescreveu o significado da palavra superação. Luciana, 40 anos, graduada em farmácia, mestra, doutora, cursando o pós-doutorado, autora de três livros, autodidata em três idiomas e senhora do próprio destino. O mergulho na história de Lu, como gosta de ser chamada, é assim: um curso intensivo de vida.
Lu vivia na capital paulista desde criança e era recém-formada pela Universidade de São Paulo (USP) quando teve o AVC isquêmico, no dia 2 de maio de 1994. Escovava os dentes e de repente sentiu uma tontura diferente das outras. Caiu, sofreu uma convulsão, entrou em coma, fez duas cirurgias no cérebro e só saiu do hospital três meses depois, de fraldas e se alimentando por uma sonda.
A alta médica nem de longe acenava que a Luciana de antes estava de volta. Nunca mais aquela retornaria, na verdade. Lu perdeu emprego, namorado, amigos, o corpo, a rotina e tudo mais. Era preciso arrancar de dentro uma nova mulher. Não foi fácil.
Vivi três anos sobre uma cama hospitalar. Chorei, revivi todo meu passado, procurei culpados e pensei: morri, acabou tudo
lembra Luciana
Entre o fardo das limitações e a dádiva da vida, contudo, ela escolheu o segundo. Da antiga Luciana, restaram os olhos, um sorriso teimoso e o movimento do dedo médio esquerdo, resquício sagrado, canal que a comunica com o mundo. O baque virou inspiração e Lu escreveu, a toques miúdos no teclado, o primeiro livro, Sem asas ao amanhecer (Nome da Rosa Editora, 1998), hoje na 11ª edição. Foi o primeiro filho de uma vida que seria pródiga, na literatura e na academia.
A doce sinfonia de seu silêncio (Nome da Rosa, 1999) foi lançado em seguida. Mas era pouco. Luciana queria mais. Podia mais. Aí voltou a estudar. Fez mestrado em envelhecimento cutâneo e a eficácia de cosméticos na USP, publicou um livro científico sobre o assunto e terminou, em 2006, doutorado em modelagem molecular.
Saltou da cama dos acomodados e, dedo em riste, aprendeu a escrever em três idiomas: inglês, espanhol e italiano. Ganhou o mundo. Participou de mais de 30 congressos, conquistou prêmios, cursou três anos de pós-doutorado na USP e retornou à terra natal em 2009. Faz pós-doutorado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mora no bairro de Intermares, em Cabedelo, cidade vizinha a João Pessoa. Tem artigos publicados mundo afora e é revisora de sete revistas científicas.
Mas a maior sabedoria dela é a que não se mede em títulos e diplomas. Foi na escola da vida que Lu aprendeu que o lema “não desistir jamais”, que para tanta gente é mero clichê, seria sua filosofia diária. “Não foi uma mudança o que aconteceu na minha vida; foi começar do zero mesmo. Quase tudo que eu tinha antes do AVC não tenho mais. Para mim é outra vida. Foi recomeçar, tetraplégica e muda. Difícil, triste, doloroso, mas não impossível”, ensina.
O drama não sepultou a mulher que existe nela. Pelo contrário. Lu noivou duas vezes depois do problema de saúde e usa a internet para se relacionar. Só não quer saber de casamento. “O bom é namorar e tchau”, diverte-se.
Recebeu a reportagem em sua casa e caprichou na produção. Luzes no cabelo, maquiagem, batom, joias, blusa florida semitransparente e um brilho nos olhos que contagia. A mãe, Lélia de Medeiros Scotti, simplifica: “Não pense que isso é porque vocês vieram não, viu? É sempre assim. Esta menina é uma perua”. A gargalhada é geral. Compensa a vida.
Pele bronzeada, esta apaixonada pelo mar não dispensa um banho de sol e pratica exercícios, o que lhe permite uma postura ereta, vívida. Foi, aliás, o fitness que a permitiu retomar um pouco do movimento dos membros superiores. Em seu quarto, cama e computador dividem espaço com uma miniacademia. Lu recebe a ajuda da mãe e de uma pessoa contratada pela família. “Adoro tomar sol. É meu vício. Vim morar no lugar certo. Sou paraibana, mas vivi em São Paulo desde bebê. Nosso Nordeste é muito ensolarado, com praias lindas, um vento gostoso e céu azul. Amo isso”, suspira. No supermercado, cerveja e vodca são compras obrigatórias.
Uma saudade? Dançar. “Eu adorava. Acho que dançava bem. Sei que existe dança com cadeirantes, mas é como água e vinho. Não tem comparação”, brinca. Mesmo assim, vez em quando, se pega dançando sozinha, numa sinfonia que só ela é capaz de entender.
Não raro, põe-se diante do monitor às 7h30 e, sem perceber, só vai se deitar à 1h. Eventualmente aparece na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Nos finais de semana, ainda dedica cinco horas ao trabalho. “Amo o que faço”, resume.
Seu currículo dispensa apresentações. Somente este ano, ela teve sete artigos científicos publicados e espera concluir mais três ainda em 2012. Um feito difícil até mesmo para uma pessoa sem limitações físicas. Mas tanta sabedoria se esvai nas valas do preconceito. Nascida em um país que não sabe olhar pelos portadores de necessidades especiais, Luciana está imobilizada mesmo é pelo descaso do poder público, pelas portas fechadas de uma sociedade excludente. “Você não acha uma injustiça social e uma burrice não aproveitarem minha mão de obra especializada? Muitos colegas com currículo e produtividade inferior prestam concurso e passam. Eu nem posso concorrer, porque não falo. Pensam apenas em dar aulas nas faculdades. Mas poderia haver vagas para pesquisadores, né?”, lamenta.
O sonho que Lu alimenta a cada dia é conseguir um emprego na universidade. Mas, à medida que o tempo passa, a esperança muda de cor. Vira frustração. “Não tenho perspectiva”, diz, apontando letra por letra numa tábua de madeira que a família confeccionou, dividida por consoantes, vogais, números e sinais de pontuação – a primeira foi rabiscada num guardanapo ainda no hospital. As palavras ganham a entonação do choro. Dela e da mãe. De uma gente cansada de uma luta vã. É a decepção de um talento desperdiçado. “Minha cultura resultará inútil. Vou estudando, fazendo pesquisas, participando de congressos, mas já tenho anos de pós-doutorado e vai chegar o momento em que vou ter que parar, pois existe um limite”, desabafa.
Exemplo de redenção, Luciana não se entrega. Faz questão de empunhar os únicso dedo que consegue mexer para explicar como conseguiu vencer na vida. A lição, por mais árdua que possa parecer, é simples: “Você pode chorar a vida inteira por um romance acabado, por uma doença, por sua tetraplegia, ou parar de chorar e começar viver. A opção é sua”. Lu escolheu viver. Indagada sobre que palavra seria capaz de defini-la, ela não titubeou em responder: “Força”. É impossível discordar.
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Cativar. Foi então que apareceu a raposa. "Bom dia." - Disse a raposa. "Bom dia." - Respondeu o principezinho com delicadeza. Mas, ao voltar-se não viu ninguém. "Estou aqui." - Disse a voz - "Debaixo da macieira..." "Quem és tu?" - Disse o principezinho. - "És bem bonita...". "Sou uma raposa." "Anda, vem brincar comigo." - Propôs-lhe o principezinho. -"Estou tão triste..." "Não posso brincar contigo." - Disse a raposa. - "Ainda ninguém me cativou." "Ah! Perdão." - Disse o principezinho. Mas, depois de ter refletido, acrescentou: - "Que significa cativar"? "Tu não deves ser daqui." - Disse a raposa. - "Que procuras?" "Procuro os homens." - Disse o principezinho. - "Que significa cativar"? "Os homens" - disse a raposa - "têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?" "Não." - Disse o principezinho. - "Ando à procura de amigos. Que significa cativar"? "É uma coisa de que toda a gente se esqueceu." - Disse a raposa. - "Significa criar laços..." "Criar laços?" "Isso mesmo." - Disse a raposa. - "Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Para ti, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti..." -"Começo a compreender." - Disse o principezinho. - "Existe uma flor... creio que ela me cativou." "É possível." - Disse a raposa. - "Vê-se de tudo à superfície da Terra..." * * * Saint-Exupéry, em sua obra-prima, O pequeno príncipe, apresenta questões existenciais de fundamental importância. Uma delas diz respeito ao cativar, ao criar laços. Numa época em que muitas de nossas relações ainda não saíram de uma superficialidade pálida e cômoda, faz bem poder pensar sobre o criar laços. Criar laços é, antes de tudo, entregar-se a uma relação de coração aberto. É também estar disposto a se doar ao outro, sem exigir nada em troca. A troca, numa relação, é consequência e combustível, mas jamais poderá ser condição. Com o cativar vem a responsabilidade. Exupéry coloca também, na voz de sua raposa, que somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos. Em qualquer laço criado, a responsabilidade vem junto, colocando as partes numa posição de respeito e dependência de uma para com a outra. Laços não são descartáveis. O amor não é descartável. Somos responsáveis por quem cativamos, por quem depende de nosso amor na face da Terra. Não falamos de uma responsabilidade que prende e sufoca, mas a responsabilidade leve e doce, que só o amor promove. Que busquemos, neste curto período de cada encarnação, criar laços profundos. Os laços de amor levamos conosco, e nunca se perdem. Cative e deixe-se cativar. Pense nisso. Redação do Momento Espírita, com base no livro O pequeno príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, ed. Agir. Em 30.11.2012.
Procura-se um amigo. No mural de avisos da empresa, alguém colocou um papel digitado em letras grandes, que dizia: Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimento, ter coração. Precisa saber falar e saber calar no momento certo. Sobretudo, saber ouvir. Deve gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, do sol, da lua, do canto dos ventos e do murmúrio das brisas. Deve sentir amor, um grande amor por alguém, ou sentir falta de não tê-lo. Deve amar o próximo e respeitar a dor alheia. Deve guardar segredo sem sacrifício. Não precisa ser puro, nem totalmente impuro, porém, não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e sentir medo de perdê-lo. Se for assim, deve perceber o grande vazio que isso deixa. Precisa ter qualidades humanas. Sua principal meta deve ser a de ser amigo. Deve sentir piedade pelas pessoas tristes e compreender a solidão. Que goste de crianças e lastime as que não puderam nascer e as que não puderam viver. Que goste dos mesmos gostos. Que se emocione quando chamado de amigo. Que saiba conversar sobre coisas simples e de recordações da infância. Precisa-se de um amigo para se contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos sonhos, das realizações e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças d'água, de beira de estrada, do cheiro da chuva e de se deitar no capim orvalhado. Precisa-se de um amigo que diga que a vida vale a pena, não porque é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para não se chorar, para não se viver debruçado no passado. Precisa-se de um amigo que nos bata no ombro, sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo. Precisa-se de um amigo que creia em nós. Precisa-se de um amigo para se ter consciência de que ainda se vive. * * * Há, no mundo moderno, muita falta de amizade. O egoísmo afasta as pessoas e as isola. Contudo, não se pode viver sem amigos. Eles são a aragem branda no deserto das dificuldades. São eles que nos oferecem o coração que compreende e perdoa, nas horas mais amargas da vida. Sustentam-nos na fraqueza e nos libertam nos momentos de dor. Quando a discórdia nos atinge, são eles que estendem os recursos da amizade leal, confortando-nos a alma. Discretos, os amigos se apagam para que brilhem aqueles a quem se afeiçoam. * * * A amizade é o sentimento que imanta as almas umas às outras, gerando alegria e bem-estar. É suave expressão do ser humano que necessita intercambiar as forças da emoção. Portadora de paz e alegria, a amizade é presença fundamental nos amores de profundidade. Quando a desilusão apaga o fogo dos desejos nos grandes romances, os laços da união não se rompem se existe amizade. E, quando os impulsos sexuais do amor passam, a amizade fica, porque as suas raízes se encontram firmadas no afeto seguro, nas terras da alma. Redação do Momento Espírita com base no cap. Procura-se um amigo, do livro Momentos de luz, organizado por Hiran Rocha, v. 1, ed. Kuarup e no cap. 9, do livro Momentos de esperança, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal. Em 26.11.2012
Somos todos diferentes. Há, em cada pessoa, dentro de cada um de nós, um universo próprio, construído ao longo de nossas vivências. Nada, daquilo que vive e pulsa em nossa mente e em nosso coração, foi dado gratuitamente. Ou se desenvolveu, por acaso, em nossa intimidade. Toda nossa capacidade intelectual é fruto de esforço, dedicação, empenho. Se há entre nós aqueles mais ou menos dotados no aspecto intelectual, se uns apresentam maiores capacidades intelectuais que outros, é porque nossos caminhares foram diferentes até aqui. No aspecto emocional, faz-se da mesma forma. Alguns dispõem da tolerância, outros são menos compreensivos. Há os que são mais amorosos, outros mais frios e racionais. Alguns trazem no coração a vingança, outros já superaram e conseguem viver o perdão. Todas essas nossas peculiariedades são naturais, posto que estagiamos, em diferentes momentos, na conquista da perfeição. Cada um de nós escreveu sua própria história, da qual hoje se torna herdeiro, vítima das próprias dificuldades que criou, ou beneficiário das virtudes que já desenvolveu. Dessa forma, todas as pessoas que cruzam nossos caminhos estão, em algum momento de sua história, de volta à Terra para progredir, melhorar, conquistar valores nobres. Alguns, mais amadurecidos, encaram a vida como oportunidade de trabalho e conquista. Outros, necessitam que a dor os desperte para uma percepção mais nobre da vida. Há muitos que ainda optam por caminhos infelizes, construindo um amanhã doloroso, mas inevitável. Entretanto, estamos todos a caminhar nesse objetivo de sermos Espíritos perfeitos. Aqueles que hoje criam empecilhos, dificuldades, e com os quais compartilhamos a existência, também se encontram nesse nosso mesmo processo. Essas pessoas-problemas, pesadas e difíceis de se conviver, também terão seu momento de despertar. Por isso, se já conseguimos perceber, no nosso próximo, as dificuldades que reconhecemos tenham sido nossas um dia, busquemos nos revestir de compreensão para com ele. A maior dor daquele que hoje erra, será encontrar-se com sua própria consciência, mais cedo ou mais tarde. Inevitavelmente isso ocorrerá. Sendo assim, não desejemos o mal, nem aumentemos a carga daquele que hoje carrega dramas intensos na sua intimidade, e que os exterioriza na forma de azedume, raiva e queixas. Busquemos compreender e perceber, na situação, a oportunidade de desenvolver em nós a paciência que ainda não temos, a tolerância de que ainda carecemos. O conselho de Jesus referindo-se àqueles que nos exigem muito, é sempre dar o dobro, fazendo do nosso coração a fonte de generosidade frente às angústias que eles exteriorizam. Pensemos: sempre haverá alguém que, igualmente, está sendo exigido a utilizar a sua paciência e o seu equilíbrio, a fim de tolerar e compreender as dificuldades que nós mesmos ainda carregamos na intimidade do coração e demonstramos em nossas atitudes. Pensemos nisso. Redação do Momento Espírita. Em 27.11.2012.
Somos todos diferentes Há, em cada pessoa, dentro de cada um de nós, um universo próprio, construído ao longo de nossas vivências. Nada, daquilo que vive e pulsa em nossa mente e em nosso coração, foi dado gratuitamente. Ou se desenvolveu, por acaso, em nossa intimidade. Toda nossa capacidade intelectual é fruto de esforço, dedicação, empenho. Se há entre nós aqueles mais ou menos dotados no aspecto intelectual, se uns apresentam maiores capacidades intelectuais que outros, é porque nossos caminhares foram diferentes até aqui. No aspecto emocional, faz-se da mesma forma. Alguns dispõem da tolerância, outros são menos compreensivos. Há os que são mais amorosos, outros mais frios e racionais. Alguns trazem no coração a vingança, outros já superaram e conseguem viver o perdão. Todas essas nossas peculiariedades são naturais, posto que estagiamos, em diferentes momentos, na conquista da perfeição. Cada um de nós escreveu sua própria história, da qual hoje se torna herdeiro, vítima das próprias dificuldades que criou, ou beneficiário das virtudes que já desenvolveu. Dessa forma, todas as pessoas que cruzam nossos caminhos estão, em algum momento de sua história, de volta à Terra para progredir, melhorar, conquistar valores nobres. Alguns, mais amadurecidos, encaram a vida como oportunidade de trabalho e conquista. Outros, necessitam que a dor os desperte para uma percepção mais nobre da vida. Há muitos que ainda optam por caminhos infelizes, construindo um amanhã doloroso, mas inevitável. Entretanto, estamos todos a caminhar nesse objetivo de sermos Espíritos perfeitos. Aqueles que hoje criam empecilhos, dificuldades, e com os quais compartilhamos a existência, também se encontram nesse nosso mesmo processo. Essas pessoas-problemas, pesadas e difíceis de se conviver, também terão seu momento de despertar. Por isso, se já conseguimos perceber, no nosso próximo, as dificuldades que reconhecemos tenham sido nossas um dia, busquemos nos revestir de compreensão para com ele. A maior dor daquele que hoje erra, será encontrar-se com sua própria consciência, mais cedo ou mais tarde. Inevitavelmente isso ocorrerá. Sendo assim, não desejemos o mal, nem aumentemos a carga daquele que hoje carrega dramas intensos na sua intimidade, e que os exterioriza na forma de azedume, raiva e queixas. Busquemos compreender e perceber, na situação, a oportunidade de desenvolver em nós a paciência que ainda não temos, a tolerância de que ainda carecemos. O conselho de Jesus referindo-se àqueles que nos exigem muito, é sempre dar o dobro, fazendo do nosso coração a fonte de generosidade frente às angústias que eles exteriorizam. Pensemos: sempre haverá alguém que, igualmente, está sendo exigido a utilizar a sua paciência e o seu equilíbrio, a fim de tolerar e compreender as dificuldades que nós mesmos ainda carregamos na intimidade do coração e demonstramos em nossas atitudes. Pensemos nisso. Redação do Momento Espírita.
O que é normal? Descobertas recentes sobre a origem de algumas doenças, sobre as guerras, a violência e a destruição ecológica, nos levam a questionar certas normas ditadas pela sociedade, através dos consensos existentes. Tem-se constatado que algumas normas sociais, passadas e atuais, levaram ou levam ao sofrimento moral ou físico dos indivíduos. Há na maioria dos nossos contemporâneos uma crença bastante enraizada. Segundo esta, tudo o que a maioria das pessoas pensa, sente, acredita ou faz, deve ser considerado como normal e, por conseguinte servir de guia para o comportamento de todo mundo e mesmo de roteiro para a educação. O pesquisador e escritor Pierre Weil nos traz uma nova visão sobre esse tema. Ele chama de normose ao conjunto de normas, valores, hábitos de pensar ou de agir aprovados pela maior parte de uma determinada população e que, em algum momento, levarão a sofrimentos. Esses comportamentos são vivenciados sem que os seus autores tenham consciência dessa natureza prejudicial. Um exemplo simples, entre vários que poderíamos abordar, é o do consumo de cigarros. Até algum tempo, era considerado normal que as pessoas fumassem. Mas, à medida em que ficou comprovado que o ato de fumar causa sérios danos à saúde, esse hábito começou a ser questionado. O resultado foi que essa normalidade caiu por terra. Assim como essa conduta perdeu adeptos, outras formas de comportamento vistas como normais hoje, poderão deixar de ser logo mais. Nem tudo o que a maioria das pessoas aprova, através dos hábitos de pensar ou de agir, é conveniente que adotemos para nós mesmos, para nossas famílias ou para a educação de nossos filhos. Estejamos atentos para analisar hábitos novos que a sociedade nos impõe. Hábitos que, muitas vezes, vão se instalando lenta e gradativamente. Passamos a substituir o cuidado com o corpo físico através do lazer e do esporte, pelas infindáveis horas à frente dos computadores, televisores e jogos digitais, acreditando que é normal porque a maioria age assim. Aos poucos, passamos a considerar normal o hábito de ingerir bebida alcóolica, com frequência e em grandes quantidades, pautados na forma como um número considerável de pessoas decidiu agir. Crianças e jovens desrespeitam pais, professores e colegas porque os outros também têm essa conduta. Assim como esses, poderíamos citar muitos outros exemplos, mas cabe a cada um de nós identificar o que realmente tem valor em nossas vidas. * * * Jesus nos orientou a que vivêssemos no mundo sem sermos do mundo. É difícil não ceder aos apelos que sofremos constantemente. É difícil ser diferente, mas não impossível. Basta que tenhamos a firmeza de agir de acordo com o que realmente acreditamos e enchermo-nos de coragem para dizer não, sem nos importarmos com críticas e julgamentos. Sigamos em frente felizes, com a certeza de estarmos pautando nosso comportamento nos valores que carregamos em nosso íntimo. Redação do Momento Espírita, com base em texto do livro Normose, a patologia da normalidade, de Pierre Weil, Roberto Crema e Yves Jean, ed. Versus. Em 23.11.2012
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