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Acidente aéreo

Tragédia aérea da TAM, uma ferida que não cicatriza dez anos depois

Na aterrissagem, os pilotos não conseguiram frear a aeronave, que saiu da pista, atravessou a avenida que leva ao terminal e se chocou contra um hangar.

Publicado em 14/07/2017, às 15h51

Foto tirada em 18 de julho de 2007 mostra a fumaça após o acidente com um avião da TAM, em São Paulo / Foto: AFP/Arquivos
Foto tirada em 18 de julho de 2007 mostra a fumaça após o acidente com um avião da TAM, em São Paulo
Foto: AFP/Arquivos
AFP

Roberto Silva recebeu um telefonema às duas da manhã. Sua filha mais nova atendeu. A mais velha havia embarcado em um voo naquela tarde. "Gostaríamos de informar que Madalena Silva morreu às 18h49 no aeroporto de Congonhas". 

Este foi o início do calvário de uma das 199 famílias das vítimas do acidente com um Airbus A320 da TAM.

Em 17 de julho de 2007, o aparelho da companhia aérea brasileira - atualmente LaTam - decolou de Porto Alegre com destino a São Paulo. Havia abastecido de combustível na capital gaúcha e transportava 187 pessoas a bordo, incluindo tripulação. 

Madalena, de 20 anos, era aeromoça da TAM que acabava de visitar a família e retornava como passageira a São Paulo, onde vivia perto de Congonhas, o segundo maior aeroporto do país.

O voo JJ3054 aterrissou, mas os pilotos não conseguiram frear a aeronave, que saiu da pista, atravessou a avenida que leva ao terminal e se chocou contra um hangar da própria TAM.

O Airbus explodiu e as chamas consumiram todo o prédio. As 187 pessoas a bordo e outras 12 em terra morreram.

Foi a pior tragédia da aviação comercial brasileira, que com 187 acidentes desde 1945 ocupa o terceiro lugar no ranking global da Aviation Safety Network.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa) concluiu em 2009 um relatório que evoca fatores humanos e técnicos para o acidente.

Após anos de investigações, ninguém foi responsabilizado. A última decisão, em segunda instância, absolveu os três acusados pela tragédia.

"Frustração total, é o que sinto. Queríamos justiça, mas é Davi contra Golias. Poderíamos recorrer, mas seria um excesso de otimismo", afirma Roberto Silva.

"A decisão realmente causa surpresa porque houve problemas na pista no dia anterior, havia relatos de perigo (...) houve negligência da TAM, que sabia que havia um grande risco", afirma Christophe Haddad, um franco-brasileiro que perdeu sua filha Rebecca, de 14 anos.



Rebecca, torcedora do Grêmio, viajava com a amiga Thais Volpi Scott, também de 14 anos, para passar as férias na capital paulista.

Archelau Xavier, vice-presidente da Associação de Familiares das Vítimas do voo TAM JJ3054 (Afavitam), atribui o resultado judicial às mudanças na Polícia Federal. Inicialmente, 11 pessoas foram responsabilizadas, um número que caiu para três, finalmente absolvidas este ano.

"A justiça foi manipulada", diz o pai de Paula Xavier, de 23 anos, que morreu ao lado do seu namorado.

Cada familiar relata os detalhes jurídicos e técnicos do acidente com precisão. Falam de flaps, alças e até da quantidade de combustível e do peso da aeronave. O quão escorregadia estava a pista e a extensão da mesma.

O mesmo acontece com Ronaldo Marzagao, advogado da Afavitam, que analisou centenas de páginas de laudos e entrevistas.

Marzagao era secretário de Segurança de São Paulo em 2007 e foi um dos primeiros a chegar no aeroporto naquela noite.

"Havia provas de que poderiam ter evitado o que não impediram", diz o advogado, que afirma respeitar a decisão da justiça, mas sem concordar.

"A única coisa que restou aos familiares foi que, a partir desta tragédia, a um custo muito elevado, a legislação foi alterada, modificou-se aspectos no aeroporto e um novo software foi desenvolvido para o Airbus (...) Hoje este acidente não teria acontecido", diz Marzagao.

Esquecido 

Após o incidente, Roberto Silva se mudou com sua família de Porto Alegre para São Paulo. Agora vive em um edifício em frente ao aeroporto de Congonhas, à beira da pista, onde vê decolar e pousar os aviões, em frente ao lugar onde sua filha morreu, onde um monumento foi erguido para lembrar as vítimas.

"Nós lutamos por este monumento", diz Silva, mostrando fotos antigas do local, que nada tem a ver com a atual construção abandonada onde é difícil reconhecer algum tipo de homenagem.

Adolescentes em skates correm pelo cimento de uma fonte esquecida que parece apenas com um círculo cinza. Os nomes das vítimas deveriam ter sido gravados em metal, mas permanecem cinzelados e a placa central está corroída. 

Uma árvore sobressai. A única que ficou de pé depois de horas de chamas daquele 17 de julho.

Operários estão refazendo a iluminação. "Agora estão ajeitando para a cerimônia de dez anos, mas em um mês estará tudo abandonado novamente", lamenta Silva.

Silvia Xavier, esposa de Archelau, diz que à dor pela perda se soma ao pesar por esse espaço abandonado. "É muito desrespeito".

Para Silvia, "esta não é um lugar qualquer, é um sinal para os pilotos na rota que aqui 199 pessoas morreram, isso aqui é um alerta para que não aconteça novamente."


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