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Sequelas de diabete são contidas por terapia com células-tronco

Os cientistas da USP descobriram a possibilidade enquanto desenvolviam uma terapia para tratar a diabete tipo 1 sem insulina

Publicado em 17/05/2018, às 13h03

O transplante de células-tronco para o tratamento de diabete tipo 1 vem sendo desenvolvido pelos cientistas da USP, em Ribeirão Preto, desde 2003 / Foto: Pixabay
O transplante de células-tronco para o tratamento de diabete tipo 1 vem sendo desenvolvido pelos cientistas da USP, em Ribeirão Preto, desde 2003
Foto: Pixabay
ABr

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) que desenvolveram uma terapia pioneira para tratar diabete tipo 1 sem insulina demonstraram agora que a técnica também impede sequelas graves da doença por um tempo ainda indeterminado. O método combina quimioterapia e o transplante de células-tronco e já era conhecido mundialmente por ter livrado grande parte dos pacientes das injeções por mais de dez anos - um feito sem precedentes.

No novo estudo, os pesquisadores dizem que o tratamento também reduziu a zero complicações como cegueira, insuficiência renal e amputação. O diabete tipo 1 é uma doença autoimune que leva o sistema imunológico a atacar o pâncreas do paciente, destruindo as células beta, que produzem insulina - hormônio responsável pelo controle do glicose - um tipo de açúcar - no sangue. 

O novo estudo, coordenado pelo endocrinologista Carlos Barra Couri, pesquisador da Unidade de Terapia Celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, foi publicado na revista científica internacional Frontiers. "Com esse tratamento, conseguimos suspender a insulina de pessoas com diabete tipo 1, algo que ninguém imaginava ser possível. Mas ainda não havia sido feita uma comparação da evolução dos nossos pacientes com um grande número de diabéticos que fazem o tratamento convencional. Foi esse o objetivo do novo estudo."

Para isso, recorreu-se ao Brazdiab1, um grande banco de dados nacional que reúne informações detalhadas de mais de 5 mil pacientes brasileiros de diabete tipo 1 que recebem o tratamento convencional com injeções de insulina. Esses dados foram comparados aos dos pacientes realizaram o transplante de células-tronco na USP entre 2003 e 2011. Dos 25 pacientes tratados com células-tronco entre 2003 e 2011, 21 pararam de usar insulina por um período que variou de 6 meses a 11 anos. Dois deles permanecem até hoje sem precisar das injeções. 

"Nesse período de oito anos, é claro que nenhum dos pacientes que fazem tratamento convencional deixou de tomar insulina diariamente. Mas a comparação que realmente nos chamou a atenção é que 25% dos pacientes que receberam o tratamento convencional tiveram sequelas que vão da cegueira à amputação, o que não ocorreu com nenhum dos pacientes que fizeram o transplante de células-tronco", afirmou Couri.

Segundo o cientista, o resultado revela um enorme impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes submetidos ao transplante de células-tronco - mesmo entre os que voltaram a tomar insulina algum tempo depois do transplante. "A maioria dos que voltaram a usar precisam de apenas uma injeção diária, em vez das três ou quatro que precisariam tomar se não tivessem feito o tratamento - o que já é importante na qualidade de vida. Mas o principal é que todos os transplantados ficaram livres de sequelas graves - e é isso o que queremos para o paciente. Eu diria que parar de usar insulina é um bônus."

Como funciona

O transplante de células-tronco para o tratamento de diabete tipo 1 vem sendo desenvolvido pelos cientistas da USP, em Ribeirão Preto, desde 2003. O método foi idealizado pelo pesquisador Júlio Voltarelli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Após a morte de Voltarelli, em 2012, Couri passou a liderar o projeto.



Segundo ele, o tratamento começa com a coleta de células-tronco da medula óssea do paciente. Em seguida, uma agressiva quimioterapia é usada para destruir completamente o sistema imunológico. As células-tronco são então reintroduzidas no paciente, "reiniciando" o sistema imunológico, que para então de atacar o pâncreas, eliminando a necessidade de injeções de insulina. 

A longo prazo, porém, a maioria dos pacientes voltou a usar insulina. Segundo Couri, um dos estudos de acompanhamento dos pacientes concluiu que isso aconteceu porque a quimioterapia não havia sido forte o suficiente para destruir totalmente o sistema imunológico dos pacientes. "Por isso iniciamos no ano passado um novo protocolo, que usará uma quimioterapia ainda mais agressiva", disse o cientista. 

Qualidade de vida

Morador de Ribeirão Preto, no interior paulista, Humberto Flauzino, de 28 anos foi diagnosticado com diabete tipo 1 em 2007. No mesmo ano, começou o tratamento na USP. Já está há 10 anos e 9 meses sem precisar tomar insulina - só ele e mais um paciente permanecem sem as injeções. "Ficar sem tomar insulina por todos esses anos já é um ganho de qualidade de vida importante. Mas o principal é que com isso nós postergamos possíveis complicações."

Ele conta que, por um curto período após o diagnóstico, passou a tomar de quatro a oito injeções diariamente. "É bastante desagradável e era desesperador saber que ia ter de fazer isso pelo restante da vida", afirma.

Flauzino destaca que leva vida normal e segue à risca as recomendações dos médicos: alimentação equilibrada, sem açúcar e muita atividade física. "Hoje, se eu não comentar, ninguém percebe que sou diabético. Mesmo se precisar voltar a tomar insulina, não me vou me arrepender de ter feito o tratamento. Faria tudo novamente."

Voluntários

Os pesquisadores da USP estão recrutando pacientes para participar do novo protocolo de terapia com células-tronco. Para participar é preciso ter entre 18 e 35 anos e ter diagnosticado o diabete tipo 1 há menos de 6 semanas. "O paciente precisa ter diabete há pouco tempo, porque para fazer o tratamento é preciso que o pâncreas ainda tenha capacidade de produzir insulina", explicou Carlos Couri.

Caso o paciente se encaixe nesses critérios básicos, deve procurar o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto para marcar uma entrevista com o grupo de Couri. O paciente então será avaliado e, caso se ajuste a uma série de outros critérios, estará apto a seguir o protocolo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 


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