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METEOROLOGIA

Saint Martin tem fome e sede após passagem do furacão Irma

Ao devastar as paisagens paradisíacas e as infraestruturas de Saint Martin, o furacão Irma destruiu o pilar de sua economia

Publicado em 13/09/2017, às 14h20

O turismo, que terá que ser completamente reconstruído para proporcionar um futuro a seus habitantes / Foto: AFP
O turismo, que terá que ser completamente reconstruído para proporcionar um futuro a seus habitantes
Foto: AFP
AFP

"Tenho fome e sede". Uma grávida chora ao receber uma garrafa e um pacote de amêndoas diante de um caminhão de mantimentos em uma área de distribuição criada na ilha de Saint Martin para as vítimas do furacão Irma.

Muitas pessoas comparecem ao local, esgotadas. Diante da fila, a Cruz Vermelha estabelece um cordão de segurança para conter a pressão da multidão. "São alimentos da reserva de uma empresa. Depois, deve passar um caminhão de água", afirma Joachim, que organiza a distribuição para uma ONG.

Os bombeiros passam os produtos para a distribuição. Outros procuram os mais frágeis entre a multidão: idosos, grávidas e crianças têm prioridade.

Também tentam tranquilizar os que se assustam com o tamanho da fila. "Enquanto tivermos pessoas dentro do contêiner, senhora, é porque ainda restam mantimentos", explicou um deles a uma mulher.

Eles distribuem produtos frescos, como ovos, frango, ou leite. A fila começou a ser formada muito antes da chegada do caminhão-contêiner, às 10h locais. Alguns aguardam há mais de duas horas. O calor é forte. "Ficamos sabendo que aconteceria uma distribuição pela rádio de emergência", conta Pierre-Richard Gaspard, enquanto seu vizinho foi avisado por outra pessoa.

No local, as pessoas ignoram o discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, que chegou à ilha na terça-feira (12). Em seu pronunciamento, Macron estabeleceu como prioridade o restabelecimento da segurança, após os saques dos últimos dias.

Para os moradores, a prioridade é obter comida e, sobretudo, água potável. Sandrine espera desde 07h45. Tem sede e calor. "Não temos água, como vamos fazer? Não restou nada em casa". Enquanto fala, não consegue conter as lágrimas. Uma amiga a abraça: "Vai ficar tudo bem, vamos ajudar uns aos outros".

Na fila, a tensão aumenta. "Nos levam de um lado para o outro", grita uma mulher que se apresenta como MJ. "E, quando chegamos, temos que ir para outro lugar, porque não sobrou nada. Ficamos sem carro, sem casa, sem água, sem comida, e isso aqui demora demais", protesta.

Alguns consideram impossível conseguir algo e arriscam a sorte em uma loja nas proximidades, que abre as portas esporadicamente e seleciona os clientes na entrada para evitar distúrbios. Uma hora mais tarde, na área de distribuição, a fila diminuiu, e o contêiner está quase vazio. Todos os que esperaram já receberam mantimentos e deixam o local com um leve sorriso. Eles agradecem pela comida. Mas saem sem água.

Saint Martin deve atrair turistas para sobreviver

Ao devastar as paisagens paradisíacas e as infraestruturas de Saint Martin, o furacão Irma destruiu o pilar de sua economia, o turismo, que terá que ser completamente reconstruído para proporcionar um futuro a seus habitantes.

"Para a temporada turística que está chegando, está tudo perdido", desabafa Paco Benito, diretor do hotel Riu Palace, situado em Anse Marcel, ao norte da ilha franco-holandesa de St. Martin. Seu estabelecimento chique, de frente para o mar, em uma enseada de areia branca com águas turquesas, foi destruído.



"Vamos ter que reconstruir tudo. Vamos começar o mais rápido possível", assegura o homem de 43 anos, visivelmente exausto pelos dias que acabou de viver. "A prioridade era sobreviver após o furacão. Então, retiramos os clientes", conta Paco Benito, que agora pensa no futuro de seus funcionários.

Seu hotel é um dos maiores empregadores privados da ilha caribenha do lado francês. "Temos 300 funcionários, o que significa 300 famílias que contam conosco", explica. "Todas as lojas, empresas, foram destruídas. É como se uma bomba tivesse caído em Saint Martin", afirma a diretora da Câmara de Comércio e Indústria de St. Martin, Maggy Gumbs. "Imagine, encontramos carros e barcos nas montanhas, carregados pelo vento", relatou. A alta temporada começa no final de novembro e termina em abril. Impossível reparar todos os danos causados ??nas estradas, nos edifícios e no cenário natural da ilha.

"Todos os hotéis, todos os restaurantes estão destruídos. Por isso, será uma temporada morta. Os turistas já começaram a cancelar suas reservas", acrescenta Gumbs, lembrando que "o turismo é a única atividade econômica na ilha".

O setor hoteleiro e de restaurantes representa 15% dos empregos na parte francesa de Saint Martin, em comparação com 4% em Guadalupe, por exemplo. Além disso, as atividades comerciais, imobiliárias, de construção e náuticas dessa comunidade de cerca de 35 mil habitantes são totalmente dependentes do turismo.

Recomeçar a todo vapor

Em Paris, o operador turístico Exotismes, especialista em ilhas tropicais, tomou a iniciativa e já contactou seus clientes que fizeram reservas para os próximos três meses, a fim de propor alternativas: adiar a viagem para uma data posterior, outro destino, ou reembolso.

"Mesmo que a infraestrutura seja restabelecida, a ilha foi profundamente danificada. Não há árvores, não é mais um local de turismo, e sim de reconstrução. As pessoas passam o ano poupando dinheiro para viajar de férias. Não podemos enviá-las para um canteiro de obras", justifica seu presidente, Gilbert Cisneros.

St. Martin recebeu 2,5 milhões de visitantes em 2014, principalmente americanos que frequentam a parte holandesa da ilha. Para os habitantes, sobreviver financeiramente na ausência de turistas durante a reconstrução será difícil, mesmo que possam contar com o apoio da metrópole.

"Saint Martin vai renascer, estou comprometido com isso", prometeu na terça-feira o presidente Emmanuel Macron, embora alguns já tenham escolhido partir.

"Levará anos para que o turismo volte ao que era", estima Didier Arino, diretor do gabinete Protourisme, que vê o episódio, porém, como uma oportunidade para reconstruir um turismo mais moderno, "que preserva o meio ambiente, de qualidade, com um retorno econômico e social mais forte". Com 30 anos de experiência em viagens para as ilhas caribenhas, Cisneros se diz confiante.

"Já experimentamos episódios ?pesados ?de furacões. Toda vez, voltamos. A cada vez, as pessoas reconstroem", conta, lembrando-se do furacão Hugo, que também devastou St. Martin em 1989. Ele acredita que o turismo voltará ainda mais forte, já que St. Martin e a ilha vizinha de St. Barts "serão os dois destinos do Caribe que terão as melhores infraestruturas em um ano", prevê, otimista.


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