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CONFLITO

Donald Trump deixa os aliados árabes em posição difícil

Decisão do presidente norte-americano representa sério constrangimento para regimes aliaos a Washington, afirma diretor do Centro Al-Quds

Publicado em 07/12/2017, às 10h21

Especialistas afirmam que é improvável a mudança desses países na política de aliança com os americanos / Foto: AFP
Especialistas afirmam que é improvável a mudança desses países na política de aliança com os americanos
Foto: AFP
AFP

Os aliados árabes de Washington estão divididos entre ficar ao lado de seu poderoso parceiro e a opinião pública hostil a Israel depois do reconhecimento, na quarta-feira, de Jerusalém como a capital do Estado hebreu pelo presidente americano Donald Trump.

Egito, Arábia Saudita e Jordânia, principais aliados dos Estados Unidos na região, que estabeleceram vínculos geopolíticos ou uma dependência financeira de Washington, estão hoje em uma posição delicada.

Além das condenações, reprimendas ou advertências usuais, é improvável, de acordo com especialistas, que esses países mudem sua política de aliança com os americanos.

"A decisão (de Trump) representa um sério constrangimento para os regimes aliados a Washington, especialmente porque é pouco provável que irão mais longe em sua oposição à posição dos Estados Unidos", declarou à AFP Oraib Al Rantawi, diretor do Centro Al-Quds para os Estudos Políticos em Amã.

Perda de legitimidade

A iniciativa americana é um verdadeiro golpe, especialmente para a Jordânia, guardiã dos lugares sagrados de Jerusalém há quase um século e que assinou um acordo de paz com Israel em 1994.

"Ao apoiar as políticas de judaização e colonização, Washington atinge aquilo que pode ser descrito como a legitimidade religiosa do regime jordaniano em Jerusalém", explica Al Rantawi.

Amã, no entanto, escolheu reagir de forma contida na quarta-feira (6), embora tenha descrito a decisão dos Estados Unidos de "violação do direito internacional".

A Arábia Saudita, guardiã dos lugares sagrados de Meca e Medina, também não pode permanecer indiferente ao destino de Jerusalém, o terceiro lugar sagrado do Islã.

De acordo com Giorgio Cafiero, CEO do Gulf State Analytics, uma empresa de consultoria em gerenciamento de riscos com sede em Washington, Riad deseja uma aproximação com Israel baseada em uma oposição comum à influência regional do Irã. Mas não a qualquer preço.

Os sauditas "estão ansiosos para evitar qualquer ação ou inação (...) que ofereça ao regime iraniano mais vigor em seu discurso segundo o qual Teerã, e não Riad, é a capital mais comprometida do Oriente Médio" em defesa dos palestinos, considera Cafiero.



Riad condenou na quarta-feira a decisão de Trump como "injustificada e irresponsável".

'Caução árabe'

Mas nos bastidores, o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman mantem um excelente relacionamento com o genro do presidente Trump, Jared Kushner, encarregado de encontrar uma saída para o conflito, diz James Dorsey, especialista em política do Oriente Médio na Universidade de Wurzburg.

"Neste cenário, a Arábia Saudita assegura um caução árabe para um plano de paz apresentado por  Kushner", aponta o especialista.

"No plano oficial", não devemos "esperar mudanças significativas" nas relações entre Washington e seus aliados, acrescenta Mohamed Kamel el-Sayed, professor de ciência política na Universidade do Cairo.

A decisão da administração Trump, por outro lado, alimentará ainda mais "o ódio das populações em relação à política americana na região", adverte.

E num momento em que "as populações não estão satisfeitas com os poderes estabelecidos no Egito, na Arábia Saudita ou na Jordânia", ressalta Said Okasha, analista do Centro Al-Ahram para os Estudos Políticos e Estratégicos no Cairo.

No Egito, primeiro país árabe a assinar a paz com Israel em 1979, a população permanece em sua grande maioria hostil ao Estado judeu.

Em um país que viu a destituição de dois presidentes desde 2011 e está afundado em uma crise econômica aguda, qualquer fator de instabilidade potencial é observado de perto por Abdel Fattah Al-Sissi, que controla o país com mãos de ferro.

Mas a ajuda militar americana, que atinge 1,3 bilhão de dólares por ano, é ao mesmo tempo considerada crucial pelo regime de segurança de Sissi.

Daí a reação cautelosa do Cairo, que estimou na terça-feira que a transferência da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém poderia "complicar" a situação.

Os observadores da vida política árabe temem que esta passividade dos regimes árabes beneficie as forças internas da oposição, incluindo os islamitas que muitas vezes evocam a causa palestina ao denunciar os regimes estabelecidos.


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