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Igreja Católica

Papa Francisco: cinco anos de pontificado com elogios e pressão

Eleito em 13 de março de 2013, o Papa Francisco substituiu Bento 16, que renunciou ao papado

Publicado em 13/03/2018, às 06h06

De acordo com o Papa Francisco, a Igreja não deve aparecer ao mundo para dizer o que é certo e o que é errado, diz o teólogo da Unicap Sérgio Vasconcelos / Foto: AFP
De acordo com o Papa Francisco, a Igreja não deve aparecer ao mundo para dizer o que é certo e o que é errado, diz o teólogo da Unicap Sérgio Vasconcelos
Foto: AFP
Cleide Alves
cleide@jc.com.br

Um homem que espalha alegria por onde passa, firme nas suas convicções, que não foge de temas delicados para os religiosos católicos e vem construindo um legado de mudanças na Igreja. O Papa Francisco, eleito em 13 de março de 2013, completa nesta terça-feira (13/03/2018) cinco anos de pontificado entre elogios e críticas. Argentino de nascimento, Jorge Mario Bergoglio, 81 anos, é o primeiro papa latino-americano da história.

“Ele está conseguindo fazer reformas na Igreja, muito lentamente e mais entre os leigos do que entre os clérigos, porque a sua visão de Igreja é uma visão de que todos participem, é uma corresponsabilidade do clérigo com o laicato”, afirma o professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Severino Vicente da Silva.

Na igreja tradicionalista, observa o professor, os padres têm o poder e os leigos seguem o que o clero diz. “Quando o leigo tinha um problema, na igreja tradicional, ele perguntava: Padre, o que eu posso fazer? Na igreja do Papa Francisco o leigo fala assim: Padre, eu estou fazendo assim, mas isto está certo? Ele vai discutir a questão de acordo com a doutrina, Francisco dá uma autonomia maior para o leigo.”

Severino Vicente cita como exemplo a comunhão para as pessoas divorciadas. Enquanto a igreja conservadora não permite que divorciados comunguem, o Papa Francisco abre essa possibilidade, reconhecendo que ela já existe na prática, observa o historiador. É a mesma postura diante da questão homossexual, outro tema delicado para a Igreja Católica.

“Quando perguntam ao Papa sobre a questão homossexual, ele diz: se o fulano quer vir para a Igreja, quem sou eu para fechar a Igreja para ele? O nosso Francisco não foge dos temas da modernidade, mesmo correndo o risco de confrontar-se com ensinamentos de Papas anteriores”, declara. Na avaliação de Severino Vicente, o pontífice retoma uma linha do Papa João 23 (1958-1963), que aboliu da Igreja a oração pela conversão dos judeus.

Abrindo portas

Assim como fez João 23 no século 20, o Papa Francisco está abrindo portas. “João 23 dizia que abriu uma janela para entrar uma luzinha dentro da Igreja. Acho que o Papa Francisco abriu uma porta muito maior, quase derrubou algumas paredes dessa construção”, afirma. “O Papa está transformando e nessa transformação de uma Igreja que tem dois mil anos ele encontra resistência forte e essa resistência é muito mais do clero”, declara o historiador.



“Paradoxalmente, ele encontra mais resistência de quadros internos da Igreja do que da sociedade. Na sociedade, o Papa Francisco é muito querido, enquanto setores mais conservadores, mais reacionários da Igreja fazem críticas abertas a ele”, acrescenta o coordenador do curso de Teologia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Sérgio Vasconcelos.

O Papa Francisco, lembra o teólogo, convocou um grupo de nove bispos de vários lugares do mundo e se encontra com eles sistematicamente para pensar e elaborar a reforma da cúria, que está sendo feita aos poucos, com a substituição de quadros internos. “É um trabalho de formiga porque é um sistema hipercomplexo, são dois mil anos de instituição com uma cúria com centenas de funcionários e isso você não muda da noite para o dia”, diz Sérgio Vasconcelos.

Renovação espiritual

De acordo com o professor da Unicap, o pontífice tem dados vários passos para o que se chama reforma da cúria. “Bento 16 (renunciou em 28 de fevereiro de 2013), em seu pontificado, vinha falando da necessidade de renovação espiritual na Igreja por causa de escândalos (pedofilia, corrupção) que se tornaram públicos. E o Papa Francisco enfatiza esse aspecto. Em suas homilias, no seu estilo de vida, ele tem chamado a Igreja para um processo de conversão, na busca pelo essencial, pela simplicidade, pelo seguimento de Jesus.”

A Igreja do Papa Francisco, explica o teólogo, tem uma preocupação pelas periferias existenciais do mundo. “Não só as periferias físicas, onde estão os pobres, mas também as periferias existenciais que não são geográficas. Onde há sofrimento humano, aí deve ser o lugar da Igreja Católica, não como um guarda de alfândega para controlar e dizer o que pode e o que não pode, mas como um hospital de campanha para salvar o que é possível. É isso o que o Papa fala.”

Esses convites à reforma que o Papa faz, destaca Sérgio Vasconcelos, tem atraído muitas pessoas ao mesmo tempo que tem provocado reação de oposição. “A forma como ele se apresenta questiona esse modelo de controle, de uma instância superior de julgamento e isso incomoda certos discursos cristalizados que se acostumaram a uma atitude condenatória”, ressalta o teólogo.


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Comentários

Por Padre CLERIO AIRON DE LIMA,13/03/2018

O Papa Francisco segue o Vaticano II na busca de "voltar às fontes." Seu jeito simples, "pé no chão", atento ás questões urgentes da humanidade e do mundo, nos dizem que precisamos retomar o caminho do seguimento de Jesus Cristo, que veio para salvar o mundo e não para condenar, como nos dizia o Evangelho na missa de domingo passado (dia 11)



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