Jornal do Commercio
Opinião

Distância Infinita

Cansa também conviver com essa espécie de gente mesquinha

Publicado em 02/07/2015, às 15h01

Para algumas pessoas é interminável o caminho que vai da cabeça ao bolso / Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para algumas pessoas é interminável o caminho que vai da cabeça ao bolso

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

José Mário Rodrigues

Uma distância muito longa e, para algumas pessoas, interminável, é o caminho que vai da cabeça ao bolso. Conheci gente que morreu e não conseguiu chegar com a mão até a algibeira para aliviar a vida de parentes e amigos. Outros, a bolsa, a carteira parecem vedadas com durepox. As amizades muitas vezes acabam nas trilhas dessa distância. Paixões acabam. Casamentos se desfazem. Admirações viram indiferença. Há pessoas capazes de sentir a dor alheia, viver o sofrimento dos outros, chorar até. São almas boas e santas, desde que não seja necessário colocar a mão no bolso. Nos aperreios econômicos dos mais próximos chegam a dizer: “vou rezar muito para você sair dessa enrascada”. Esses gastam, sem limite, com supérfluos, mas não socorrem nem amigos nem parentes. Quando doam, fazem a grande caridade com objetos que não usam mais: roupas, sapatos e outras bugigangas. Dinheiro, nem pensar. Sofrem de uma limitação do espírito, de uma vida sem conteúdo e, por isso mesmo, sem sentido.

Claro que não podemos generalizar. Além de existirem os que encurtam a distância entre a cabeça e o bolso, há ainda os que, anonimamente, quebram o galho dos mais próximos e até de pessoas que não conhecem. Uma raridade é claro, digna de menção honrosa.

Em tempos de crise, os momentos de infortúnio e que chegam a beirar o abismo da miséria são muito frequentes e a distância cada vez mais infinita. Há os que só acumulam e outros que consomem desesperadamente. Os que acumulam tem a agência bancária como sua igreja e a leitura do estrato de contas como uma oração. Para os consumistas, o shopping é uma imensa catedral da fé. 

Eles assustam, desesperam, mas, sobretudo revelam as fraquezas humanas onde se escondem as mesquinharias. Aurélio Buarque de Holanda assinala o verbete da palavra mesquinho assim: “pobre, desgraçado, infeliz, insignificante, parco, ridículo, baixo, reles, sórdido, medíocre, ordinário.” São tantos os adjetivos chega cansa. Cansa também conviver com essa espécie de gente. Nada é como queremos nem como gostaríamos que fossem. Mas essa diversidade de caráter compõe o planeta que habitamos. Fico a remoer uns versos que escrevi no livro Os Motivos, publicado em 1975: “Bem que poderíamos ter repartido o pão/assim estaríamos fartos. Ah imensa vontade do ser/ e desesperada exigência do ter”.





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