Jornal do Commercio
Opinião

Recife cidade linda e malcuidada

Vista do alto, poucos lugares têm sua beleza. Olhada de perto, envergonha

Publicado em 07/07/2015, às 14h35

Poucos lugares do mundo têm a beleza da sua geografia / JC Imagem

Poucos lugares do mundo têm a beleza da sua geografia

JC Imagem

Sérgio Gondim

O Recife é uma cidade linda. Impressiona quando vista do alto, como nas fotos competentes de Luiz Montenegro. Poucos lugares do mundo têm a beleza da sua geografia, das suas curvas, do seu mar, rios, pontes, ilhas, praças e avenidas. Linda situação para se edificar uma cidade monumento, inspiração para poesia e para o frevo. 

Já quando olhada de perto, merece muitos reparos e, em vários aspectos, envergonha.

É uma capital que não tem uma só praça bem cuidada, o chamado cartão postal da cidade. Não vou fazer comparações com cidades da Europa. Vou falar de um país da América do Sul. O Peru. Em Lima não chove quase nunca, mas não falta água para os gramados e flores cuidados e renovados com zelo e beleza. Verifiquei que vem de longe, em canaletas, desde o tempo dos Incas. No Recife, é diferente. Aqui chove bastante e a cidade é quase dentro dos rios, mas quando chove o mato cresce, quando faz sol a grama morre. Não conheço um canteiro bonito, um jardim bem cuidado, uma irrigação eficiente. Talvez hoje não se encontre uma única flor em praça pública. Parece que essa cidade, ao longo do tempo, não tem jardineiros fiéis, nem gestores.

Gosto de correr. Há muitos anos. Atualmente são cerca de 30 quilômetros por semana. Poço da Panela, Torre-Madalena, o circuito das praças (Santana-Jaqueira-Sítio da Trindade-Casa Forte) e, claro, a corrida das pontes. Corro cedinho pelas ruas do Recife, já que é impossível usar as calçadas. Estão cada vez mais deterioradas, sem a recuperação anunciada. Como os automóveis estão acordando mais cedo, me empurram de volta para calçada, onde pratico a corrida com obstáculos. Muitos são intransponíveis, obrigando ao convívio perigoso com os carros. Quem corre tem certas manias e uma delas é correr nas cidades que visita. Observando e comparando, estamos em último lugar, disparado, no ranking das piores calçadas. Do mundo!

Também nunca vi, em nenhum lugar, uma fiação aérea tão caótica. E está piorando. É um enovelado de fios, com alguns soltos, desalinhados, enroscados, como em homenagens surrealistas aos que faleceram vitimados por choque elétrico, ao encostar no poste da praça. São grandes companhias multinacionais, mas não tratam assim as outras cidades do mundo onde atuam. Lá existem normas e exigência de qualidade dos serviços. 

Estão nos últimos lugares em qualidade de serviços de energia elétrica, internet e telefonia, apesar dos altos preços cobrados. Estão na liderança de reclamações. Eu que não queria ser prefeito, governador, vereador, delegado, juiz ou deputado de um lugar onde se prestasse essa qualidade de serviços impunemente, como quem diz: aqui não existe ordem, nem senso estético. Zombam das autoridades e da população com o seu padrão gambiarra.

O lixo, então, supera tudo. Excetuando a eficiente “Praia Limpa”, não vejo campanha sistemática. Seguimos espalhando a sujeira como se fosse possível evitar um infarto entupindo as artérias. Cidade limpa não é aquela que coleta bem e sim a que não tem quem a suje. 

Apesar de tudo, tenho esperança. Esperança porque contamos com uma faixa de pedestres que muitas vezes é respeitada. Umazinha só. Fica entre um supermercado e um shopping em Casa Forte. O motorista para, sem precisar sinal vermelho ou guarda de trânsito. Por enquanto é uma curiosidade, mas pode proliferar. Esperança nas simpáticas ciclofaixas, no Museu do Frevo e no Cais do Sertão. Esperança no Estelita, desde que o movimento continue debatendo o projeto ideal e não perca o rumo pichando a cidade e violentando os direitos dos vizinhos. 

Esperança no saneamento geral que engatinha, mas tem contrato assinado para ser cumprido. Pode receber pressão, se erguer e apressar o passo. De ver o polo médico ser modelo de compromisso com o paciente; de usar o transporte coletivo pelo rio Capibaribe, obra incrivelmente suspensa depois de tanta conversa e gastos. De ver nas ruas e jornais mais exemplos como Yane Marques do que assaltos nos sinais. Esperança de ver novas vias, sabendo que vão, mas precisam voltar; de, a partir do espetáculo do Marco Zero e Parque das Esculturas, ver a cidade urbanizada e cuidada decentemente em todo seu território, se espraiando até a fantástica oficina Brennand. Esperança de que, um dia, venha a ser uma cidade linda também quando olhada de perto, sabendo que, para isso, precisa ser educada e socialmente justa.

Sérgio Gondim é médico



Comentários

Por Henry David Thoreau,25/12/2016

Jamais a Banânia será primeiro mundo juntamente com suas cidades. O autor esqueceu o fundamental: SEGURANÇA! Quem pode caminhar livremente por Savannah, na Georgia, USA, jamais poderá fazê-lo em qualquer cidade da Republiqueta. O texto idealiza por demais uma realidade que nunca vai existir em qualquer cidade brasileira. Temos um ditado nos USA que explica bem isso: a pior cidade americana é sempre melhor que a melhor cidade brasileira. Brasileiros que migraram aos USA e adquiriram a cidadania americana, renunciando muito inteligentemente à cidadania brasileira, podem confirmar isso. Essa gente conhece bem as duas realidades. Não adianta criar textos românticos tentando, com isso, fazer com que a realidade se encaixe perfeitamente em teorias mirabolantes de um Brasil primeiro mundo, desenvolvido etc. Jamais o Brasil será primeiro mundo! Nunca!

Por jacqueline porto,15/10/2015

Belo horizonte,era assim tambem melhorou muito tem a praça da liberdade linda,limpa a noite fica iluminada

Por UZERLANDIO PASSOS,08/10/2015

Recife me envergonha, cidade suja, esburacada, cheia de mendigo nas ruas, praças e na propria praia de Boa Viagem, local que deveria ter uma atenção especial por ser o cartão postal da cidade. A reportagem acima esta corretissima, o Recife so e bonito ´visto de cima`.

Por Naja Rocha,17/07/2015

É de fazer chorar... a triste realidade do meu Recife, do meu Estado, Trabalho próximo ao Cais de Santa, tamanha é a vergonha que sinto, de ver tanto lixo, o mal cheiro de suas ruas, a desordem do comércio de barracas caindo aos pedaços, sem padronização e higiene. Minha esperança hoje está morta, baseado nos Geraldos e Paulos que aqui estão. Meu desejo é que surjam cidadãos de caráter, compromissados com o trabalho, a ética e com o seu povo para ressuscitar minha Esperança.



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