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Opinião: A Divina Comédia e os perigos da Bíblia

Grupo militante na área de direitos humanos quer banir ''A Divina Comédia'', de Dante, das salas de aula, sob alegação de que a obra incitaria homofobia, antissemitismo e islamofobia. O poeta e filósofo Ângelo Monteiro sugere uma outra abordagem

Publicado em 24/04/2018, às 09h29

Grupo militante na área de direitos humanos quer banir
Grupo militante na área de direitos humanos quer banir "A Divina Comédia", de Dante, das salas de aula
Foto: Reprodução
*Ângelo Monteiro

O grupo atende pela nomenclatura Gherush-92: é um dos mais barulhentos grupos de defensores dos direitos humanos entre os muitos que se apresentam como consultores da ONU em questões que envolvem, por exemplo, discriminação e racismo. O alvo da vez, para surpresa da própria cultura ocidental, é A divina comédia, de Dante Alighieri, contra a qual se exige que, para o bem de todos os cidadãos do mundo, seja banida das escolas e universidades por incitação à homofobia, já que colocou homossexuais e sodomitas no Inferno; de antissemita por fazer o mesmo com Judas e alguns gentis fariseus e, ainda por cima, ser anti-islâmica por dar igual destino a Maomé, lá representado como um dos maiores cismáticos e heresiarcas da cristandade.

Deparando-nos com argumentos tão persuasivos seria o caso de concluirmos que muito pior do que Dante é a Bíblia na qual ele se inspirou. A Bíblia é um repositório de perigos realmente indisfarçáveis para o politicamente correto, por mostrar justamente as coisas como ela são, até chegar ao ponto de expor claramente os mais horrendos pecados e mesmo crimes dos seus reis, patriarcas e profetas, sem esconder nada deles nem de ninguém... Não se tem notícia de modelos semelhantes, segundo essa ótica, aos apontados pelos exemplos bíblicos.



História

Como esquecer a cena em que Abraão, seguindo talvez os labirintos do seu inconsciente, julga entrar na onda de Javé, o seu Deus, ao oferecer o próprio filho Isaac em holocausto, o qual vem a ser salvo, na última hora, pelo próprio Javé? Como passar por cima da sentença divina do Dilúvio que, a pretexto de condenar os pecados não só da carne, mas do espírito dos homens e, entre eles o da idolatria, fez afogar, ao lado desses seres pecaminosos, inocentes animais que, em sua irracionalidade, não poderiam nunca adorar ídolo algum? Não constituiu um brutal e antecipado golpe, por parte de Javé, às leis de proteção aos animais que as pessoas sensíveis de hoje defendem com tanto ardor? Por que até Jesus, o mais perfeito dos personagens bíblicos, achou de expulsar os injustiçados vendilhões do templo que estavam apenas cumprindo, ao seu modo, a ética do mercado, como ela se tornou tão conhecida, entre nós, no mundo não apenas político mas empresarial?

A Bíblia, como esses grupos se esquecem de propagar, constitui um verdadeiro atentado contra a liberdade tanto religiosa quanto sexual... Pois ela não condena, além dos pobres adúlteros, os sodomitas e homossexuais? Nesse caso não é bastante controvertido acusar o grande poeta florentino, e deixar de lado a Bíblia, na qual ele encontrou seu principal paradigma moral e espiritual?

*Ângelo Monteiro é da Academia Pernambucana de Letras.


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Comentários

Por Gilberto,29/04/2018

Olá Ângelo! Realmente, defender o banimento da Divina Comédia baseado em incitação à homofobia é algo estranho, para dizer o mínimo. Porque isso incorre no erro de se analisar as obras clássicas, escritas há séculos com valores atuais, ignorando-se assim o respectivo contexto de produção. E nessa direção tem-se A República, de Platão, que considerava a Democracia como sendo a penúltima forma de governo ruim, perdendo apenas para Tirania ou ainda apontava Aristocracia como à forma ideal. Inclusive, em nome de um Estado perfeito, Platão encorajava velhos, enfermos incuráveis e os deficientes mentais a se matarem para ajudar a sociedade a progredir economicamente. E essa lógica de defender ou não criticar temas estranhos à sociedade atual, como escravidão, por exemplo, prossegue com vários outros pensadores, sem com isso eles serem descartados nas escolas e universidades do presente, em consequência de se respeitar o devido contexto de elaboração da obra. Já no tocante à Bíblia, tem-se um teor confessional e também há um contexto a ser considerado, de modo a se evitar o mesmo erro dos antropólogos do começo do século 19, conhecidos como antropólogos de gabinetes, que analisavam fora de contexto os objetos recebidos de outras sociedades em estudo, gerando assim uma série de distorções. De fato, no antigo testamento (AT) há relatos de crimes e pecados cometidos por todos, profetas, reis, povo de Israel, ninguém escapava. Entretanto, há de ressaltar que o AT é uma seta messiânica, e o que era apresentado como morte física em decorrência do pecado, será morte espiritual no Novo Testamento (NT). E as sentenças de Javé que atingiram os animais irracionais se traduzem no rigor. Nesse sentido há relato de guerra no livro de Josué em que a ordem era destruir tudo do povo oponente, incluindo animais, e alguém resolveu ficar com algum objeto, porém Deus avisa a Josué e a pessoa foi punida imediatamente. E como compreender a revolta de Jesus na escadaria do templo ? Periodicamente as pessoas tinham que levar um animal para holocausto no templo, como forma remissão dos pecados, ou seja, as pessoas pecavam e “pagavam com o sacrifício do animal”. Era uma espécie de alerta sobre o futuro (NT). Então, esse ritual era feito com critério, a começar na escolha do animal (AT), que devia ser o melhor da raça, sem mácula alguma, e aí na época de Jesus a negligência já era total, daí a sua revolta como a degradação espiritual e o comercio em torno do templo. Naturalmente todo esse processo mudou com o NT e não há mais sacrifício de animal, mas sim morte espiritual. Por fim, a Bíblia representa um atentado contra a liberdade religiosa, sexual .... ? Qualquer grupo social tem seu próprio código moral, até nos presídios há regras informais entre presos, nos diversos ambientes que se freqüenta no cotidiano, empresas, lugares públicos, cinemas, de modo que nem tudo que é lícito convém, de maneira que no contexto confessional também não é diferente. No tocante ao Cristianismo, hoje mais que nunca, as pessoas podem exercer seu livre arbítrio e liberdade de consciência, inclusive porque todos têm acesso ao que está escrito na Bíblia, segui-la ou não faz parte da autonomia de cada individuo, assim como existe em qualquer outra religião no Brasil.



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