Jornal do Commercio
50 anos do golpe militar

E o Palácio do Campo das Princesas encheu de gente

José Almino e Ivan Rodrigues contam como viram aqueles que foram os últimos minutos do governo Arraes

Publicado em 01/04/2014, às 06h28

Então presidente da Cilpe, Rodrigues guarda a despedida / Diego Nigro/JC Imagem

Então presidente da Cilpe, Rodrigues guarda a despedida

Diego Nigro/JC Imagem

Carolina Albuquerque

O filho mais velho do então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, José Almino, concentrou-se nos estudos nos meses que antecederam o 1º de abril de 1964. Preparava-se para o vestibular. Naquele ano, aos 17, foi aprovado no curso de Economia da Universidade Federal de Brasília e, após longo período por lá, finalmente voltava ao Recife, acompanhado do pai, para a Semana Santa em família. De passagem, regressaria à cidade brasiliense para as aulas num voo marcado para o 31 de março de 1964. Os fatos se impuseram aos planos. “Já de manhã tinha decidido que não iria viajar porque estavam ocorrendo umas complicações”. Passou o dia de paletó. “Era comum viajar assim quando se ia de avião”, justifica. Naquela época, a residência oficial da família do governador era na parte superior do Palácio do Campo das Princesas. Só o filho mais velho ficou (os menores tinham ido para a escola e dois estavam fora do Estado) nos dois mais conturbados dias do governo de Arraes.

“Meu quarto era pegado com o gabinete de trabalho de papai. E fiquei todo o dia 31 ouvindo boatos. O Palácio começou a se encher de gente”. Com o entra e sai, o almoço “foi uma questão” a ser pensada. As lembranças são vagas sobre o que comeu e com quem. Mas Almino tem a certeza de que Arraes não o acompanhou na refeição. “Eu almocei na mesa da sala, mas ele não estava presente”. 

O dia e a noite daquele 31 foram longos. As informações eram incertas, desencontradas, confusas. Arraes não sabia se as forças militares de Pernambuco tinham aderido à sublevação das tropas de Olímpio Mourão Filho, de Minas Gerais, para depor o presidente João Goulart. Ainda de paletó, caiu no sono. No susto, foi acordado pela tia Violeta, dizendo que tinham recebido uma visita “estranha” de um senhor do Exército. 

No 1º de abril, Arraes recebeu três visitas. Entre uma e outra, um tempo razoável. Logo pela manhã, por volta das 9h, adentrou no Palácio o almirante Dias Fernandes, do 3º Distrito Naval. A portas fechadas, os dois “parlamentaram”. Almino lembra que apenas duas pessoas acompanharam a conversa, Celso Furtado (superintendente da Sudene) e Pelópidas Silveira (prefeito do Recife). Sobre o primeiro, diz: “Lembro que chegou gente que não se esperava muito até, porque não tinha obrigação política. Uma delas foi Celso Furtado. Como superintende da Sudene, era uma espécie de técnico naquela época. E por temperamento, era um homem muito reservado. Ele resolveu ir ao Palácio prestar solidariedade. Isso causou surpresa”.

Dias Fernandes pediu que Arraes assinasse um documento apoiando o movimento golpista. Enquanto ocorria a reunião, as tropas ocupavam a Praça da República, tomavam a Guarda e o entorno da ilha de Santo Antonio, bloqueando as saídas com soldados, tanques e metralhadoras. A resposta é conhecida. “Nessa altura, já saibamos que o ultimato era próximo”.

A segunda “visita” foi a do coronel do 14º Regimento da Infantaria de Socorro, Dutra de Castilho. O diálogo foi tenso e ficou marcado para a história. Informava que Arraes estava deposto e, caso não aceitasse, iria ser preso (Ivan Rodrigues, assessor do governador à época, presenciou o momento). Almino conta que enquanto tudo isso acontecia, ele chegou a acompanhar o jornalista Milton Coelho da Graça atrás de documentos que pudessem comprometer Arraes e outras pessoas, no momento em que o Exército invadisse o Palácio.

A terceira foi a de um capitão, na tarde. Comunicava que todos deveriam sair em minutos, com exceção de Arraes e familiares. Nesse momento, o pai chama o filho. “Disse que eu tinha que sair. Mas me recusei. Disse que ia ficar com ele”. Sereno, o governador foi pragmático. “Disse: ‘Sua presença me constrange. Não posso tomar nenhuma atitude sem pensar na sua segurança”. Após um abraço forte e silencioso, Almino deixou o Palácio num jipe. Foram dias sem saber para onde o pai tinha sido levado.

APERTO DE MÃO
Presidente da Cilpe, empresa de processamento de leite, e braço direito do governador Miguel Arraes, Ivan Rodrigues acordou cedo no 1º de abril de 1964. “Estava preocupado com essas notícias desencontradas”. Chegou antes do cerco ao Palácio. Tanto tempo depois, lembra com carinho do “ritual” de despedida de Arraes dos presentes. Como uma tomada de filme, descreve o cenário como o momento mais “emocionante” e “carregado” daquele dia. À porta do elevador, daqueles de estética clássica, “doutor” Arraes cumprimentava um por um. “Não dizia nada, mas apertava a mão de um por um. O elevador ia enchendo e descendo. Era muita gente”.

Aos 86 anos, ele brinca que acha que vai virar “estátua”. “Sou um dos poucos vivos que presenciou o famoso diálogo entre o coronel Dutra de Castro e doutor Arraes”, diz. Logo depois, pensou em passar para o papel. “Pensei em escrever, mas até isso a gente tinha medo”. Os tempos eram de terror. O diálogo se passou na beira da calçada do terraço de trás do Palácio. Os dois em pé, firmes. “Em momento nenhum ele deixou de tratar doutor Arraes por excelência”, pontua. O coronel informa que Arraes estava deposto. “Não lembro literalmente as palavras. Mas ele disse algo assim: ‘O senhor está enganado. O senhor não tem autoridade para me depor. Fui eleito pelo povo. Tem autoridade para me deter, mas para me depor, não’”, relata. O semblante do coronel dava sinais de tensão. Parecia estar desestabilizado emocionalmente. “Doutor Arraes não. Falou tudo num mesmo tom. Impávido”, pontua. Em seguida, a famosa sentença: “Eu sou o governador de Pernambuco e vou cumprir o meu mandato até o último dia esteja onde estiver”. Deu meia volta e voltou a subir.




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