A Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara realiza nesta quinta-feira (30) a primeira audiência pública sobre as mortes dos estudantes pernambucanos Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier – ambos militantes da Ação Popular (AP), organização de resistência armada à ditadura militar – que desapareceram em fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, e cujos corpos jamais foram encontrados.
A partir das 9h, no auditório do Banco Central, na Rua da Aurora, serão ouvidos os depoimentos de Marcelo Santa Cruz e Rosalina Santa Cruz, irmãos de Fernando, e de Maria do Rosário Collier, irmã de Eduardo. Também está prevista a participação da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), que preside a Subcomissão Especial de Acompanhamento da Comissão da Verdade da Câmara Federal.
Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier foram presos em 23 de fevereiro de 1974, em um apartamento em Copacabana, por agentes do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Os dois já haviam sido indicados em um inquérito policial militar pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em 1968, após participarem do congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (BA).
Em 1974, os dois cumpriam uma missão designada pela AP quando os agentes da repressão “estouraram” o aparelho em que estavam. Em março do mesmo ano, um carcereiro do DOI-CODI em São Paulo, conhecido como “Marechal”, confirmou a parentes dos estudantes que eles estavam detidos lá, mas alguns dias depois afirmou tratar-se de um “engano”. As famílias buscaram ajuda junto a autoridades nacionais e internacionais, mas não obtiveram mais resultados.
Em maio deste ano, quase quatro décadas depois dos acontecimentos, o ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra lançou o livro, intitulado “Memórias de uma guerra suja”, no qual revela o paradeiro de vários ex-presos políticos que ele confessa ter matado ou ter ocultado os corpos. Entre eles, segundo Guerra, estariam Fernando e Eduardo.
Familiares dos dois e integrantes da Comissão da Verdade estão se mobilizando junto a órgãos de investigação do Rio de Janeiro para apurar as afirmações do ex-delegado, que admitiu ter comandado a incineração dos corpos dos estudantes junto com outros oito militantes de esquerda, num dos fornos da usina Cambahyba, no município de Campos (RJ).
O próprio Cláudio Guerra – que está sendo mantido em local seguro pela Polícia Federal – deverá prestar depoimento à Comissão Nacional da Verdade, cujos integrantes estarão no Recife nos próximos dias 10 e 11, para uma agenda conjunta com o grupo local, que inclui a ouvida de testemunhas e reuniões com familiares das vítimas e entidades da sociedade civil.
Outras duas audiências públicas já foram realizadas pela Comissão Estadual, ambas para investigar a morte do padre Antônio Henrique Pereira, auxiliar de dom Helder Câmara, assassinado em maio de 1969, no Recife.
Colunas JC
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