A arquiteta Sônia Beltrão é como Gonzaguinha: acredita na rapaziada. Ex-militante estudantil, ela acabou atrás das grades do Regime Militar brasileiro no Recife, quando tinha só 23 anos. Foi torturada e chegou a ser solta quase um ano depois. Hoje, aos 62, ela relembra seu passado com orgulho e dor, mas não guarda o ranço dos saudosistas que veem a juventude atual como a antítese de um outro tempo e o sinônimo da apatia.
Para ela, na “sua época” nem todos queriam mudar o mundo, porque como agora também havia jovens “alienados”. Aliás, dentro da sua própria casa, segundo recorda. “A juventude não é covarde. Ela tem um poder de transformação grande, tem o poder de sonhar. É onde pode haver mudança”, defende ela, com otimismo.
O catalão Jaume Sastre, cuja idade (27 anos) se aproxima da faixa etária de um dos filhos de Sônia, prefere ter cautela quanto a essa crença no poder dos jovens. Embora reconheça que sejam maioria nos movimentos atuais da Europa, em especial da Espanha, não acha que se trate muito de uma questão geracional, que para ele soa quase como hormonal. Seja como for, na história da modernidade, é a população mais nova que tende a alardear sua insatisfação a uma dada ordem social estabelecida.
E não é diferente com as atuais gerações. Em marchas nas ruas e/ou em mobilizações na web, as bandeiras se constroem e se renovam por meio de discursos diversos, geralmente levados adiante por grupos que reclamam melhorias de urgência cotidiana.
Movimentos a favor de “minorias”, como gays, nordestinos, negros, mulheres etc., além de gritos pela descriminalização da maconha ou mesmo por filosofias mais libertárias de vida, longe de fórmulas como carreira bem-sucedida + grana, por exemplo, estão em pauta mais do que nunca (veja perfis no infográfico). A internet não é só um novo canal de protesto, é também onde ocorrem subversões, como no caso dos hackerativistas.
Na visão do sociólogo e compositor Paulo Marcondes, as lutas juvenis se dão geralmente pelo reconhecimento e pela justiça, bem como contra os processos de exclusão. O que mudam são as questões colocadas e como são postas nos diferentes contextos históricos. Se na década de 1960 havia uma tendência de contraposição a valores tradicionais e a uma “sociedade tecnocrática”, como diz ele, desde os anos 1980 os discursos vêm se pulverizando e procurando resolver problemas do “aqui e agora”.
“A mudança social é uma questão muito complexa, não se faz com um grupo, nem com um desejo. Depende da movimentação de um conjunto de atores, em posições distintas. A juventude também é protagonista, mas não só. O que acontece é a visibilidade pelo modo como assume a condição de protesto”, analisa o sociólogo, que desenvolve pesquisa sobre arte e política pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia, da Universidade Federal de Pernambuco.
No conteúdo que apresentamos aqui, como extensão da matéria publicada neste domingo, na revista Arrecifes, tentamos mostrar como a ousadia e a vontade dos jovens, com seus 20 e poucos anos (ou mais alguns), devem ser percebidas e debatidas neste século 21, onde ainda se acredita que a democracia e o poder de consumo tenham resolvido os problemas da humanidade. Não é bem assim.
Como se pode ler na entrevista exclusiva com o estudante de doutorado Jaume Sastre, não existe zona de conforto em um mundo excludente, de falsas promessas. Ele próprio bateu panela na rua, acampou em praça pública e tem participado de assembleias em bairros de Barcelona, onde mora. Embora não se considere um protótipo de “indignado” – como ficou conhecida a massa que saiu recentemente às ruas da Espanha para se contrapor à crise política e econômica que se instaurou no país (assim como em outras nações da Europa) –, ele é um exemplo de juventude contemporânea capaz de nos convencer de que ainda há muito para se lutar mundo afora.
E mais ainda: que devemos fazê-lo logo, se quisermos ter uma posição mais crítica e política na sociedade. Não é questão de partido, de sindicato ou de direita x esquerda, necessariamente. Nem de sonhar com uma sociedade distante e igualitária, com a qual nem sequer nos preocupamos no “modo automático” do dia a dia. Tampouco de modismo. É uma questão de consciência e atitude.
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