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PERSONA

Grafite como ferramenta de diálogo

O artista Galo de Souza conversou com o JC sobre sua experiência

Publicado em 30/04/2012, às 11h20

Do JC Online

 / Foto: Flora Pimentel/ JC Imagem

Foto: Flora Pimentel/ JC Imagem

Os grafites de Galo de Souza, 33 anos, estão espalhados pelos quatro cantos do mundo. Lá longe, na Áustria, ou aqui pertinho, no Parque Dona Lindu, despertam a curiosidade dos transeuntes. Assim como o de outros grafiteiros, o lado artístico de Galo – que não divulga o seu nome de batismo nem sob tortura – surgiu da pichação, mas cresceu e floresceu através dos grafites, com a utilização de sprays coloridos como ferramentas de diálogo. Ele conversou com a repórter Jessica Souza sobre peripécias da infância, o filho Benjamim, de 4 anos, e planos para o futuro.

JC – Como foi sua trajetória?

GALO DE SOUZA – Não tive muito estudo. Minha família não é ligada à arte. O que me levou à arte, à cultura e ao mundo foi a pichação, aos 8 anos. Pra mim, cada risco mostrava uma pessoa diferente. Depois do momento de indignação contra a sociedade, a pichação virou diálogo, em forma de grafite. 

JC – Algum lugar especial da infância?

GALO – Me lembro, primeiro que tudo, da comunidade da Estrada Velha do Curado. Passei meus primeiros anos de vida lá, subindo em árvores e brincando por trás da Ceasa. Foi na escola Henrique Dias que fiz meus primeiros desenhos, com lápis de cera. Depois, fui morar em Piedade, mas sempre ia pra Ceasa e pro Engenho do Meio, onde meu pai morou. Comecei a pichar lá.

JC – Alguma trela grande dessa época?

GALO – Quando tinha uns 12 anos estava “surfando” atrás de um ônibus de skate, mas apareceu uma pedra no meio do caminho. Caí no chão e ganhei essa cicatriz no queixo.

JC – Qual a relação entre grafitagem e música?

GALO - Ia ao baile funk pra pichar e trocar ideias com outros pichadores, mas foi o hip hop que me fez conhecer o meu País e o mundo. Vivia como pichador, fazendo tudo escondido. Curtia Os Racionais. De repente, vi que era uma pessoa que poderia colocar tudo pra fora e não ficar retraído com raiva da sociedade. Também gosto da produção musical e criei o coletivo Êxito d’Rua, que atua em comunidades através da arte.

JC – Se fosse redesenhar o Recife, o que pintaria?

GALO – Faria uma cidade de arte e de cultura. Colocaria ciclovias, grafites e museus, com escola de arte em cada comunidade. E internet livre pra todo mundo.

JC – E para relaxar?

GALO – Também pinto. Tenho fome de pintar e preciso de arte pra estar bem e me expressar.

JC – Você tem um filho de 4 anos. Ele também gosta de arte?

GALO – Benjamim está desenhando pra caramba. Fez Patrick e Bob Esponja uma vez. Ficou perfeito.

JC – Há alguma cor que você não usa?

GALO – Toda cor é cor. Não tem uma que não goste. Como pichador, gostava muito de preto. Mas hoje prefiro fazer jogo de cores.

JC – Além do Brasil, que outros lugares do globo já viram as cores das suas obras?

GALO – Pintei em vários países, desde Portugal, Áustria, passando por Holanda e Suécia, até o Peru. 

JC Gostaria de colorir algum lugar especial no Recife?

GALO – Queria colocar um trabalho meu no prédio do INSS, que fica no Centro. Pintar a fachada dele de cima até embaixo.

JC – Você já tem um livro lançado, A viagem de Olag. Planeja escrever outro?

GALO – Estou com dois em desenvolvimento. Um deles sobre a história da pichação a partir da minha ótica e outro sobre meus grafites. Mas tenho vários caderninhos com pinturas que nunca mostrei. Cada um deles daria um livro.

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