Há quem diga que toda baixinha é invocada. E não seria a jornalista Flávia de Gusmão, 49 anos, “praticamente uma gueixa”, segundo ela própria, quem iria contrariar a regra. Gabaritada profissional deste há 24 anos, Flávia discorre semanalmente sobre as agruras com que se deparam os amantes no século 21 na coluna batizada de sexo@cidade, que começou a ser publicada em 2000 e acaba de virar um livro homônimo da editora Caleidoscópio. Nesta entrevista, ela fala a Bruna Cabral sobre viagens, gastronomia e toda sorte de idiossincrasias de gênero.
JC – Você coleciona rótulos. É jornalista, mãe, professora, escritora, gourmet. Qual o próximo da lista?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Creio que o próximo é avó. Minha filha casou recentemente e agora estou vivendo intensamente esta separação. Quando alguém com quem você conviveu por 26 anos começa a traçar uma vida paralela à sua, com tudo o que isso implica, um turbilhão de emoções, todas positivas, se instala. Começo a ter curiosidade em descobrir que amor é esse, da avó pelos netos, e em que ele difere do amor filial.
JC – Acha que procede essa teoria de que as mulheres estão agindo como homens nos relacionamentos?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Se consideramos que independência era, antigamente, um bônus exclusivamente masculino, então, a resposta é sim. Claro que com o bônus veio o ônus, e é a essa carga “masculinizada” a que muitos se referem negativamente como “comportamento masculino”. No íntimo, no entanto, mulheres serão sempre mulheres, com tudo o que isso implica: aguerridas, dedicadas, resilientes, solidárias. Eu sou praticamente uma gueixa, mas que com a nova ordem das coisas precisou vestir o traje de samurai. Acho que muitas mulheres assim se sentem.
JC – Há algum tempo você escreveu sobre o “greypower”. O mundo demorou a entender sua decisão de assumir-se grisalha?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Foi uma luta: com os amigos, as filhas, as tias mais velhas, o cabeleireiro, e ainda por cima o cabelo ficou igual ao do meu schnauzer Ugo, sal e pimenta. Mas me sinto muito melhor depois que aceitei meus fios grisalhos. A certa altura, comecei a achar que não estava sendo fiel a tudo o que eu defendia, ou seja, a beleza de cada idade, a aceitação das marcas que o tempo deixa, o direito de ser eu mesma sem artifícios. Quero ressaltar que eu não critico ou acho feio quem tinge o cabelo. De jeito nenhum! Só não me servia mais. Pintar o cabelo dá um trabalhão! Mas defender o greypower também não é nenhuma moleza.
JC – Você é repórter de forno e fogão. Fora da redação, quais as suas especialidades na cozinha?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Sou uma cozinheira hesitante, embora, lá no fundo, saiba, ou intua, que herdei o legado materno das boas cozinheiras. Passei muito tempo apenas escrevendo sobre o assunto, sei descrever as técnicas, em teoria, sei um bocado sobre cozinha. Faltava a prática e essa estou aprendendo aos poucos. Ainda não tenho uma especialidade para chamar de minha, no entanto.
JC – Praia, cinema, restaurante. Qual sua programação cativa nos dias de folga?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Praia e restaurantes. Cada dia tenho mais preguiça de ir ao cinema, mas acompanho tudo por outros meios. Adoro sala de cinema, mas cada vez mais, o ritual que isso exige, especialmente a falta de cinemas de rua, me afasta dessa diversão.
JC – Se você precisasse escolher uma trilha sonora para seus 49 anos, botava o que para tocar na radiola?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Madonna, Whitney Houston, Jenniffer Lopez, Shakira, Lady Gaga, Cher, Cindy Lauper, Britney, The Carpenters, Depeche Mode, Smiths, New Order... Fazer o quê? Fui uma boa garota nos anos 80 e tomei o bonde atrasada para os 90.
JC – A trabalho ou não, você já viajou bastante. Que destinos não saem de sua cabeça?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Paris: pela beleza, pelos museus, pelos cafés, pelo Sena, pelo cheiro de comida boa na rua, pela língua, pelo muxoxo típico do parisiense. Londres, onde morei por um ano, por entender e traduzir como eu me sinto de verdade, por dentro.
JC – Confessa, Flávia: você tem alguma camisa xadrez no armário?
FLÁVIA DE GUSMÃO – Taí, não tenho uma sequer, nem pra fazer pano de chão. Trauma de São João, quando não consegui ser eleita Rainha do Milho. Sou uma péssima perdedora.
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