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São João

Bendito nome

Ser xará do precursor de Jesus é motivo de orgulho para qualquer joão

Publicado em 25/06/2012, às 12h46

Bruna Cabral

O candeeiro se apagou, o sanfoneiro cochilou, os animados e quadriculados comensais rasparam o tacho da canjica e nem a fogueira resistiu a tanto milho para assar e rojão para acender. Mas a celebração ao santo do carneirinho ainda não acabou. Incorporada às tradições tupiniquins pelos portugueses nos idos do Brasil colônia, a festa de São João só será oficialmente encerrada hoje, data em que se comemora o nascimento do filho de Isabel, primo e precursor de Jesus. Aliás, comemora-se muito mais. E há muito tempo. Desde a Antiguidade, o dia 24 de junho, ocasião para celebrar com pompa e circunstância as colheitas de cereais e passagem de um solstício para o outro, já era festivo.

Muitos séculos depois, o que não falta no Brasil é gente que vive em comunhão perene com o santo. Não necessariamente por fé ou gratidão, mas pelo batismo. Mais especificamente, pela certidão de nascimento. Só no País do samba, do forró e da quadrilha, o santo cacheadinho tem quase três milhões de xarás, segundo uma pesquisa feita ano passado pela proScore, Bureau de Informação e Análise de Crédito. É dele e ninguém tasca, o quarto nome mais copiado Brasil afora. Às vezes até por motivo de força maior.

Foi o que se deu enquanto o major do Corpo de Bombeiros João Batista de Barros, 40, nadava confortavelmente instalado no útero da sua mãe. "Ela nunca me contou direito o que aconteceu. Só diz que teve complicações na gestação e, orientada por uma madrinha bem devota, prometeu que, se tudo desse certo, eu me chamaria João", conta. O menino vingou, mas ficou emburrado quando soube que perdeu a oportunidade de chamar-se Bruno Luís, como estava programado. Talvez para se sentir mais confortável no rótulo que o acaso improvisou para ele, João dedicou-se a estudar teologia. E, a uma certa altura de suas leituras, deparou-se com dúvidas. Tantas, que decidiu mudar de religião. Abandonou o catolicismo "por falta de respostas" e converteu-se ao judaísmo. Na verdade, ao judaísmo messiânico da unidade. "Creio no profeta João Batista. E hoje, finalmente, me orgulho de carregar o nome dele. Mas judeus não celebram o nascimento de santos, como os católicos", diz João, que deixou de festejar o santo padroeiro da pirotecnia por convicção religiosa e corporativa. "Todo cuidado com fogueira é pouco", profetiza o João bombeiro.

O caminho que o imponderável escolheu para sapecar o mesmo nome na identidade do bancário João Victor Rocha, 29, foi mais curto. "Não tem muita história não. Minha mãe queria um nome para mim e foi buscar inspiração na lista telefônica. Abriu, por acaso, na letra ‘j’ e gostou logo do primeiro que avistou", conta. E apesar do nome composto, "com 'C' e tudo no meio do Victor", João diz que se acostumou a ter homônimos. "É um nome bonito, mas comum. Na escola, era o que mais tinha na chamada", diz o xará do santo, que tem mais intimidade com os peixes, as onças e os macacos estampadas nas cédulas de real que com o carneirinho. Mas quando acendem a fogueira, João admite que não se incomoda em ser mais um discípulo de São João. Entre pamonhas e quadrilhas, reza pela cartilha junina com gosto.

Engenheiro de produção de uma fábrica de alumínio, João Andrade Lima Bandeira de Melo, 27 anos, também fica com o coração quadriculado nesta época do ano. Adora cada detalhe da festa, da música aos quitutes. Mas avisa que gosta ainda mais do seu nome que de fogueira, arrasta-pé e queijo assado. "Tem muito João composto. Mas João puro, como eu, são poucos", brinca o rapaz, de nome curto e sobrenome grosso. "Se eu conseguir convencer minha namorada, meu filho vai ser João também."

Que esse seria um bom presságio para o menino, ninguém há de contestar. Segundo frei Aloísio Fragoso, o santo em questão tem muito mais predicados que candura e bom relacionamento com ruminantes. "Aquela imagem cândida de um pastor de ovelhas não condiz exatamente com a personalidade do profeta", alega o frei Aloísio. Segundo ele, João Batista foi um aguerrido defensor do messias que estava por vir. "Ao ponto de o povo confundi-lo com o próprio messias." Além de pregar o amor e todas as suas consequências, ele realizou dezenas de batismos no Rio Jordão e questionou os desmandos do rei Herodes. "Até ser preso." Aí, o rei, para atender a um pedido feito por sua enteada, acabou sacrificando o eloquente profeta, que seria festejado para sempre dali em diante. O que danado a fogueira têm a ver com isso? Aí já é uma moda pagã, que veio da Península Ibérica, junto com a quadrilha e com a algazarra junina todinha.

AVESSOS
Mas nem todo João gosta do fuzuê fumacento. Bem que podiam. Talvez até devessem, em gratidão ou solidariedade ao xará lá de cima. Mas alguns se recusam a sair ralando bucho por aí em homenagem ao santo. É o caso de João Baltar, 35 anos, jornalista e político, que acha tudo detestável nas festas juninas. "Não gosto de comida de milho. Detesto fogos e não consigo escutar forró. Nunca gostei de nada disso. Me isolo numa praia e espero a festa acabar para voltar para casa." O mais engraçado, segundo João, é que as semelhanças entre ele e o santo não se encerram no nome. "Até os cachinhos eu tenho. E quando eu era pequeno, tinha mais ainda. Na minha família, todo mundo comentava essa coincidência." Se João ficou com abuso de seu nome? Qual nada. Talvez dos tios. Só um pouquinho. Depois passou. E hoje ele vive em lua de mel com sua bendita alcunha. "Adoro meu nome. É forte, curto, inesquecível. E, ao mesmo tempo, universal. Tem João em todo canto do mundo." Com exceção das escolas por onde ele passou. "Parece mentira, mas nunca estudei com outro João." Já o pipoqueiro era xará dele. "E eu ganhei muito brinde por causa disso."

Também cacheado e também não muito dado aos festejos juninos, o famoso João do Morro, 33, argumenta que uma das melhores coisas em ser João é não precisar de apelido. "João do Morro fui eu que escolhi. É nome artístico", brinca o filho de seu João, que decidiu só perpetuar sua sina no caçula de seis filhos. João Pereira da Silva Júnior na certidão de nascimento, o pagodeiro sente falta de palco no São João. Mas celebra a data a pulso, desde que se entende por gente. "Minha mãe diz que o santo castiga o xará que não acende pelo menos uma fogueira para ele." Melhor não chatear o cacheadinho.

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