Jornal do Commercio
ENTREVISTA

Higiene íntima: tão simples quanto escovar os dentes

Nesta entrevista, o ginecologista Paulo César Giraldo combate mitos e tabus que cercam temas relacionados à higiene íntima

Publicado em 08/07/2012, às 12h32

"Se aprendemos a escovar os dentes sempre depois das refeições, por que não cuidar do aparelho genital da mesma maneira?", questiona Paulo César Giraldo

Divulgação

Mona Lisa Dourado

“Higiene íntima deve ser tão disseminada quanto a bucal.” Pronunciada com a força de uma sentença, a afirmação é do professor titular de ginecologia da Universidade de Campinas (Unicamp), Paulo César Giraldo. “Se aprendemos a escovar os dentes sempre depois das refeições, por que não cuidar do aparelho genital da mesma maneira?”, questiona. Há quase três décadas, o médico investiga as infecções genitais femininas. Para entender melhor o ecossistema dessa parte tão delicada do corpo, o especialista estudou imunologia vaginal. Foi quando passou a emcampar definitivamente a bandeira da prevenção. Nesta conversa com a editora Mona Lisa Dourado, Paulo Giraldo defende uma mudança na atitude de especilaistas, mais habituados a tratar doenças que ensinar o paciente a evitá-las. O ginecologista ainda esclarece dúvidas e combate mitos e tabus que cercam o tema.

JC - O senhor acredita que as mulheres realizam uma correta higiene íntima?

PAULO CÉSAR GIRALDO - Percebo que elas estão mais conscientes da necessidade de cuidar dessa região do corpo, mas falta muito para avançar nesse campo até conseguir o que se alcançou na área de higiene oral. Quase todo mundo se acostumou a escovar os dentes várias vezes ao dia, depois da refeição. Por que não carregar um kit também de higiene íntima? 

JC - Mas os ginecologistas costumam orientar as mulheres nesse sentido?

GIRALDO - Infelizmente não muito. O médico foi formado para ser curador, não para falar de prevenção, o que é fundamental.

JC - Não seria também porque a região genital ainda é cercada de tabu?

GIRALDO - Claro. Não podemos deixar de considerar esse fator. Há muitos mitos relacionados à higiene íntima, que ainda está muito associada à vida sexual. E isso só dificulta a abertura e relação ao tema. O primeiro passo é entender o ecossitema vaginal e vulvar. Por exemplo, saber que o ph normal dessa região é ácido, o que impede a proliferação de bactérias. Nessa área, também há muitas células desprendidas, secreção, oleosidade e resíduo de urina e fezes, por isso a necessidade de uma higienização adequada. O problema é que não sabendo como fazer, muitas vezes exagera-se para mais ou para menos.

JC - O uso de papel higiênico é suficiente para fazer a higiene íntima depois de ir ao banheiro?

GIRALDO - Na verdade, o papel é o menos indicado, porque se desfaz e deixa pedaços entre as dobras. O ideal seria sempre lavar a região com água corrente, que tira 60% das impurezas, mais um produto que remova a gordura, e enxugar com uma toalha de algodão que não solte pelo. Na impossibilidade disso, pode ser usado um lenço umedecido sem perfume. Mas é preciso ter cuidado para não agredir a área. Isso porque o fato de haver ali células mortas, bactérias e glândulas que geram cheiro pode provocar proliferação bacteriana. Do mesmo jeito que a falta, o excesso de limpeza também é ruim, porque pode provocar resecamento da vulva e da pele do entorno.

JC - E qual seria, então, o procedimento mais equilibrado?

GIRALDO - Realizar a limpeza três vezes ao dia: antes de sair de casa, mais ou menos na metade do dia e ao retornar pela noite. Vale considerar, no entanto, que mulheres submetidas a condições intensas de estresse, obesas ou em contextos específicos, como menstruação e puerpério, necessitam cuidar ainda mais da higiene íntima.

JC - Muita gente usa sabonetes bactericidas durante o banho, por acreditar que removem as bactérias de maneira mais eficiente. Eles fazem o mesmo efeito na vagina?

GIRALDO - Na verdade, não é recomendado. É que a área genital não deve ser estéreo, as bactérias ali são bem-vindas num ecossistema equilibrado. Usar bactericida não é bom porque pode provocar um desequilíbrio dessa população bacteriana benéfica. 

JC - E quanto aos sabontes íntimos específicos?

GIRALDO - Esses costumam estimular as bactérias benéficas e inibir as ruins.

JC - A depilação contribui para a higiene íntima?

GIRALDO - Hoje o pelo não é mais uma necessidade. A orientação é diminuí-lo, ou seja, manter o pelo curto, a meio centímetro. Isso evita reter impurezas, gerar traumas ou odores não naturais. Para depilar, é preciso tomar alguns cuidados, como soluções calmantes, chá de camomila e gelo, além de hidratar a região. Lâminas não são adequadas, porque cortam a pele. 

JC - Em evento recente sobre saúde íntima, o senhor deixou a plateia de mulheres e homens supresa quando recomendou o uso de hidratante na região íntima. Por que se deve incorporar esse hábito?

GIRALDO - Veja bem: primeiro, é preciso diferenciar as várias partes do aparelho genital. A vagina é área interna e naturalmente úmida. Mas a vulva, externamente, deve ser seca e hidratada. Trata-se de pele como a de qualquer outra região do corpo. O que diferencia é a suscetibilidade à mais trauma e umidade. Por isso, é possível sim usar o mesmo hidratante que a pessoa já identificou como adequado para si. Até os homens podem usá-lo na área externa do pênis. 

JC - Ao contrário do que indica a maioria dos ginecologistas, uma pesquisa encomendada pela Johnson&Johnson à Unicamp, da qual o senhor participou, aponta que o uso de absorventes diários “respiráveis” não traria problemas ao ecossistema vaginal e vulvar. O que permitiu chegar a essa conclusão?

GIRALDO - Acompanhamos 54 mulheres em condições clínicas saudáveis e que passam cerca de oito dias fora de casa. As voluntárias usaram protetor diário durante 75 dias. Antes e depois do período de avaliação, colhemos material da vagina e da vulva, além de avaliar o ph e fazer exame ginecológico e cultura para verficar presença de fungos. O grande medo das mulheres era se tornarem mais propensas à candidíase ou vaginose bacteriana, assim como à irritação vulvar. No entanto, a flora bacteriana foi até um pouco mais favorável. Depois, tentamos identificar o porquê. O absorvente retira a umidade, sem deixar de ventilar. Publicamos os resultados no International Journal of Gynecology and Obstetrics. Vale salientar que no contrato assinado com a Unicamp há uma cláusula assegurando que as conclusões seriam publicadas ainda que fossem desfavoráveis.




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