Baronesas boiando no Rio Capibaribe anunciavam o perigo. Significavam, no mínimo, que a chuva havia chegado no interior, lá na cabeceira do rio. A verdade é que até a década de 70, o Recife convivia com a incerteza. Um de seus mais belos cartões-postais – dócil nos meses de estiagem – tinha poder destruidor no período das chuvas. Anos a fio passaram sob a sombra desse medo e as várias cheias que assolaram a cidade não deixaram apenas marcas visíveis.
Herança inquestionável do período em que o rio era, também, o pavor da população são as memórias de quem viu o Recife ficar, literalmente, debaixo d’água. O álbum de figurinhas que foi embora com a correnteza, os barquinhos de papel que distraíam as crianças, a solidariedade entre vizinhos, as vidas perdidas que passaram boiando pelas janelas. É tudo lembrança. É tudo Recife.
“A água já tinha entrado em casa quando meus pais acordaram a mim e minhas irmãs. Nosso quarto era no primeiro andar, para onde começamos a levar tudo o que era possível”, conta a dentista Thelma Gusmão, 51 anos, referindo-se à madrugada do fatídico dia 17 de julho de 1975. Três quartos, um banheiro e uma “salinha” formavam o pavimento onde a família ficou alojada durante as mais de 48 horas que a água engoliu o Recife. “Éramos seis pessoas em casa e ainda tinha três cachorros. Abrigamos a família da casa ao lado. Mais três pessoas. Eles precisaram sair, a casa deles era térrea. O problema todo é que nossos cães eram bravos. Meu pai trancou-os dentro do banheiro e, toda vez que alguém precisava usar o sanitário, era uma novela.”
Mas o principal drama na Rua Carneiro Vilela, 551, onde morava a família de Thelma, foi o resgate da gatinha Mimi. Sem entender o risco que corria –obviamente –, a felina continuou seu passeio pelo jardim da casa como se não houvesse amanhã. “Quando olhei pela janela, ela estava em cima do muro e a água já batia na patinha dela. Como fazia natação, resolvi resgatá-la. Minha mãe não queria deixar de jeito nenhum, mas eu fui. Quando peguei a bichinha, estava tão assustada que apertou minha mão com as garrinhas”, lembra, hoje, rindo.
E apesar de boa parte das memórias de quando o rio resolvia se rebelar soarem, hoje, engraçadas – e até saudosistas – os registros do jornalista e pesquisador Leonardo Dantas Silva revelam, por exemplo, que os dois dias de alagamento de 1975 deixaram um saldo de duas dezenas de mortos e cerca de 25 mil desabrigados na capital pernambucana. Em artigo escrito em 1989 para este JC, Dantas é enfático: “As histórias de água são sempre uma constante na memória de cada povo, particularmente dos habitantes desta cidade – no Recife, ‘o que não é água, foi ou lembra água’, ensina Valdemar de Oliveira”, escreveu o jornalista.
Dantas conta que o recifense vivia eternamente com medo das águas do Capibaribe. “Era através das estações de rádio que as notícias de enchentes chegavam nas casas recifenses”, lembra. O pavor, segundo narra, só foi atenuado depois da construção da barragem de Carpina, que veio completar o sistema Tapacurá. Antes disso, porém, esta cidade no nível do mar foi marcada pelas inundações ocorridas em 1832, 1854, 1869, 1897, 1924, 1950, 1965, 1966, 1970 e 1975, como relata ele no artigo "Capibaribe, meu rio".
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Comentários
Tenho 51 anos e morava na época no bairro da torre, próximo à praça, na rua souza bandeira, 425. Na época, com 15 anos, vi o Recife embaixo de água e minha mãe, bastante doente ( terminou falecendo com insuficiência renal aos 37 anos de idade ) por falta de opção em hospitais pois a maioria estavam mergulhados embaixo d'água e como ela fazia hemodiálise semanalmente no hospital português, ficou impossibilitada de atendimento devido ao mesmo ter sido também atingindo pela enchente e com isso, ela sem atendimento a contento, veio a falecer. Hoje ( 23/07/2012 está fazendo 37 anos do ocorrido). Ficamos, eu e minha família, abrigados na casa de um colega do meu pai, na praça da torre. Logo em seguida veio o boato de tapacurá que havia estourado. Foi o maior desespero na praça da torre. Eu vi pessoas desmaiando, senhoras chorando, apavoradas e confesso eu fiquei sem entender a tamanha preocupação que se passava. Porém, alguém me falou que o Recife ia se acabar embaixo d' água e aí foi que a ficha começou a cair e eu fiquei apavorado. São lembranças que jamais vou esquecer pois, estão registradas em minha memória até hoje.
Me contaram uma história do tempo dessa enchente do ano de 1975, que gostaria de relatar. Na época, um ladrão foi preso acusado de roubar um ferro de passar de uma residência. Quando o meliante foi interrogado pelo delegado, o mesmo contou que não tinha roubado ferro nernhum, e sim encontrou o mesmo boiando nas aguas da cheia, prontamente o delegado disse que era impossivel, pois o ferro é mais pesado que agua, consequentemente afundaria. De imediato o acusado não se fez de rogado, e disse que: se um navio, grande , todo ferro boia, por que um ferrozinho deste tamanho não poderia estar boiando. Conclusão: foi solto e o delegado ficou com cara de bobão.
Enchente de Rio Jaboatão, Município de MORENO(Região Metropolitana de Recife), Arquivo de Fotos JC, Jornal "Correio do Moreno em 11 de Junho de 1966" Enchente de Rio Jaboatão dias 28 e 29 de Maio de 1966 (Jornalista Raul Alves de Melo Então Prefeito de Moreno) e Histórias de Jornais, TV Jornal, TV Rádio Clube e Fotos 1962/1963/1965/1966/1975/1990/2000 e 2005
Quando fiz a reportagem, sabia que retrataria apenas um recorte das memórias que a água do rio Capibaribe lapidou nas mentes pernambucanas. Infelizmente, as páginas dos jornais são pequenas para contar tudo, trazer cada um de vocês para dentro delas é impossível. Mas estou extremamente feliz e agradecida de ter conhecido tantas outras histórias das cheias do Capibaribe a partir desse canal que o JC Online abre com o público leitor. Tenho 25 anos e não vivenciei nada disso. Mas a história da Luciana que comentou aqui embaixo eu conheço bem. É minha mãe. Foi a partir das lembranças dela que comecei a imaginar essa matéria. Obrigada a todos vocês que, nesta noite de domingo, me fizeram voltar no tempo e imaginar cada um desses novos cenário.
Lembro bem daqueles dias,ou melhor,dois dias e uma noite no meio prá angustia dos meus pais e alegria da criançada que nem imaginava a gravidade da situação. Eram 9 crianças (nós 6 e 3 primos)e 4 adultos trancados em um quarto-gabinete olhando por uma janela tudo que passava boiando. Anotavamos (boi, ferro de passar roupa em cima de tábua de engomar, pedaços de madeira, cachorros, etc . Não percebíamos a preocupação de nossos pais em medir na escada a agua subindo... a comida acabando e a impossibilidade de sair de casa, já que essa única janela era gradeada. A certeza era que iriamos ficar com nossos outros primos , usando as roupas deles, curtindo muitas brindadeiras. Perdemos quase tudo. Na parte de baixo da casa tudo boiava ... claro que criança não percebe e nem percebe o perigo de qdo a água baixava sair (eu sempre medrosa, no braço de meu pai) tentado chegar a um lugar seco e reencontrar meus tios chorosos sentados na praça João Alfredo, vestidos com roupas de pessoas solidárias. Um choro só! E como se não bastasse o meu irmão caçula ter contraído tétano proveniente de uma furada no pé. Graças a um milagre hoje também só lembra do diário dos bichos, da farra com os primos e vê nosso pai abrindo caminho com uma tabica matando as cobras que por ventura aparecesse. Um super héroi!
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