Jornal do Commercio
LÁ ONDE EU MORO

Setúbal, o bairro independente

Apesar de, oficialmente, fazer parte de BV, região da Zona Sul é vista como bairro à parte

Publicado em 21/10/2012, às 07h10

 / Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Carol Botelho

Setúbal não é cidade, nem é bairro. Tampouco é apenas uma região dentro do mapa de Boa Viagem. Oficialmente, a área faz parte do traçado urbano mais nobre da Zona Sul da capital pernambucana. Extraoficialmente, no entanto, moradores e não moradores se referem àquela área para lá de BV como um bairro independente, apontando características bem típicas do local. 

Residencial, calmo e arborizado, Setubal é lugar de gente de classe média e média alta, cortado por uma rua e pelo canal de mesmo nome. Ao contrário do resto de BV, ainda guarda muitas casas e edifícios não tão altos quanto os da avenida à beira-mar. “Trata-se de um ‘não lugar’ com pessoas”, declarou o cineasta e ex-crítico de cinema deste JC Kléber Mendonça Filho em entrevista sobre o filme O som ao redor, rodado em uma rua de Setúbal, onde vive.

É ali também onde reside a cantora Olívia Fancello, 30 anos, que se define como uma feliz moradora do lugar há 12 anos. É ela a nossa cicerone nesta edição da série Lá onde eu moro. “Gosto daqui porque curto viajar e estou perto do aeroporto e da praia”, derrete-se Olívia. 

O nosso passeio, portanto, começou no trecho da orla frequentado pela cantora e por quem se autointitula morador de Setúbal. Trata-se daquele pedacinho entre o limite da cidade de Jaboatão dos Guararapes e a Praça de Boa Viagem, onde o avanço do mar não teve dó nem piedade. Por lá, pedras de contenção são mais comuns do que areia, principalmente em tempos de lua. “Estamos esperando o mar chegar em frente às nossas casas”, brinca Olívia, que mora depois do Canal de Setúbal.

Quando sai do banho de mar, a cantora gosta de tomar uma caninha de pimenta no Malagueta Quiosque Café, da amiga Jaqueline Félix. Além da bebida, Olívia não sai da orla sem comer uma pimenta recheada. “É deliciosa!”, garante. Mesmo depois que o sol se põe, o espaço é um dos poucos da avenida a ficar aberto à noite, quando Jaqueline promove eventos ao som de discos de vinil.

Saindo da orla, a avenida principal é a arborizada Visconde de Jequitinhonha, que corta o Canal de Setúbal e segue até o limite com Jaboatão dos Guararapes. A Rua Sá e Souza é marcada por uma sequência de boteco, próximos a uma banca de revistas. Neles, reúne-se a fina flor da boemia setubense. É nesse logradouro, também, onde fica a Escola Americana do Recife, uma das mais tradicionais da capital, fundada em 1957.

Numa das ruas perpendiculares à Sá e Souza, barzinhos, digamos assim, mais arrumadinhos, como o novo Tropicália. Para os que preferem a luz do dia, o Planet Jato faz o mix de lava-carros com bar. “Curto também a Bodega do Rafa e o Depósito”, acrescenta Olívia, sem esconder que adora uma gelada para descontrair.

Restaurantes tradicionais também matam a sede e, especialmente, a fome em Setúbal. Na lista, entra o charmoso Tio Pepe (na Almirante Tamandaré), o português Recanto Lusitano (na Antônio Vicente) e o tradicionalíssimo Costa Brava (na Barão de Souza Leão). Em outras categorias de serviço, a área também é bem servida. Não faltam padarias, farmácias, academias de ginástica, hotéis, cabeleireiros, mercadinhos, casas de festa e até galeria de arte. A Dumaresq está lá.

Outro canal que corta o bairro corre pela Rua Rio Azul, margeada por comunidades como a da Borborema. Por ser pouco movimentado, o meio da rua é usado como extensão da casa dos moradores. É comum o meio da rua virar campinho de futebol ou área de serviço tomada por varais. Os botecos também usam o espaço arborizado da margem do canal para espalhar suas mesas, tornando a paisagem surreal. Afinal, não dá para imaginar, nos dias de hoje, uma área urbana tão ociosa como aquela.

Em algumas vias de Setúbal, a calmaria garante passeio de bicicleta mais seguro do que em outros pontos da cidade, mesmo dividindo o asfalto ou ruas de paralelepípedos com os carros. “O pessoal aqui respeita os ciclistas. É só saber a malícia”, ensina Olívia. Com a Estação Aeroporto bem próxima, a cantora não enfrenta trânsito quando precisar ir ao Centro. Usa o metrô. O problema é a volta na madrugada. “Não existe bacurau das linhas que servem à região. Quando volto tarde, desço na Barão de Souza Leão e me arrisco a pé até em casa ou pego um táxi”, conta.

PERCALÇOS
De Setúbal, ela só tem uma queixa: o barulho dos aviões. “De manhã cedo, na hora do almoço e à noite, o barulho das aeronaves decolando é infernal.” Diferente de BV, Setúbal ainda tem muitas casas, algumas mansões e edifícios que só podem ter poucos andares, por causa dos aviões que decolam do aeroporto bem perto dali.

Essa proximidade fez a população do “bairro” aumentar nos últimos tempos, com a chegada de levas de trabalhadores do Porto de Suape. O aluguel dos imóveis deu um salto triplo para cima. “O aluguel do meu apartamento dobrou de preço”, lamenta Olívia. A nova população e a antiga, no entanto, dispõe de nenhuma área específica para lazer. Lá, não existem praças. Única alternativa é frequentar o Parque Dona Lindu.

A segurança em Setúbal também sofre abalos de vez em quando, com registros de assaltos. Esse contrassenso entre a tranquilidade e a tensão da classe média diante da violência urbana, inclusive, foi discutido por Kleber Mendonça em O som ao redor.

Já premiado em festivais de cinema, entre eles o do Rio deste ano, o filme é mais uma ferramenta que endossa a realidade extraoficial desse pedaço do Recife que pede para existir de fato.

 

 


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