“Ai que vontade”. Não são poucas as vezes que expressamos esta urgência ao ver um comercial na TV, folhear alguma publicação especializada em gastronomia ou navegar por sites e blogs com o mesmo propósito. Existe, ainda, o cliente que, incitado por tal apelo visual, insiste, na lanchonete ou no restaurante, que quer aquele determinado prato, mas o quer tal e qual a imagem exibe. A prática nos mostrou, no entanto, que traduzir comida em imagem não é tão simples como parece: tentamos e o que conseguimos não chega aos pés daquilo que pretendíamos. Será a máquina, que está aquém daquilo que exigimos dela? Ou seremos nós, que carecemos de habilidade? A resposta a este enigma está num trocadilho: nem tudo é como parece.
E, para isso, vale literalmente tudo: desde usar fumaça de cigarro para simular aquela que se desprende de um frango que acabou de sair do forno a utilizar bolas de margarina para fazer de conta que não há sorvete mais delicioso que aquele. Afinal, que gelado resistiria por horas e horas sob luzes quentes e reiteradas tentativas de fazer apenas mais um clique?
Nos primórdios do cenário gastronômico pernambucano, quando a comida ainda não possuía o status de fetiche que tem hoje, a coisa era muito mais simples – e feia. A comida era registrada com o mesmo cuidado com que se fotografa um buraco na rua: saía da cozinha direto para a mesa e um repórter fotográfico, apressado entre uma pauta e outra, o clicava sem grandes considerações. O chef Leandro Ricardo, que hoje atua cada vez mais como food stylist, é uma testemunha desse tempo e, instintivamente, alguém que prenunciava a vinda de outros tempos.
Cercado de arte por todos os lados no extinto restaurante O Navegador (1990), seu primeiro emprego como cozinheiro, ele se deixava contaminar pela atmosfera do local, que reunia quadros de grandes nomes das artes plásticas de Pernambuco. Estimulado pelas proprietárias Anna Luiza Brennand Costa Rego e sua mãe Conchita Brennand, ele começava a explorar a premissa “comer primeiro com os olhos”, tornar-se, em suas próprias palavras, um iconófago. E continuou sendo assim daí por diante. “Primeiro eu desenhava as formas, depois colocava a cor para só então pensar na comida propriamente dita”, diz ele, descrevendo um processo criativo que virou sua marca registrada, um pendor construtivista que ele atribui ao desejo que nutria de frequentar a faculdade de arquitetura. Junte-se a isso o fascínio que sempre nutriu pela fotografia, misture tudo e teremos aí o food stylist Leandro Ricardo.
“Como sempre, tudo que aprendi foi lendo, perguntando e observando. Os fotógrafos me ensinaram muito. As aulas de desenho clássico com Fabiano Felipe me revelaram o jogo de luz e sombra. A artista plástica Badida, com quem tenho aulas, fica me provocando para aliar meu trabalho (cozinhar) ao meu hobby (pintar) e ensina técnicas com as tintas a óleo. Passei a estudar e descobri que existiam pessoas só para esse tipo de trabalho (food styling). A partir daí, comprei o único livro disponível no Brasil sobre o assunto (Food styling for photographers) e passei a consumir revistas como Elle à table, Gourmet, Saveurs, La Cuccina Italiana e tantas outras”, descreve Leandro.
Num nicho ainda pouco explorado no Brasil, em geral, e particularmente em Pernambuco, quando muitas vezes o fotógrafo passa a encampar as duas atividades, embora o ideal fosse vê-las sendo complementares e independentes, a arte do food styling só se aprende mesmo no batente, seguindo a velha equação tentativas = erro + acerto. A publicitária Téta Barbosa, diretora de filmes comerciais onde, muitas vezes, o alimento é ator principal ou coadjuvante, tem algumas dessas histórias no portfólio. “Já fiz uma cena em um loja de móveis, em plena madrugada, onde duas amigas tomavam o chá da tarde enquanto conversavam na sala nova de uma delas. Para fazer a fumacinha sair da xícara e dar a impressão de um chá quentinho, usamos pó de café queimado.
A cena ficou linda mas a loja totalmente defumada, porque o pó queimado exala um cheiro forte. Tivemos que levar ventiladores para tirar o cheiro dos móveis”, relata. “O principal desafio é fazer com que a comida tenha cara de fresquinha e recém-preparada. Afinal, ela ficou ali no estúdio, no ar-condicionado, por horas até ser filmada. O publicitário, o diretor do filme (ou fotógrafo) e o food stylist têm que conversar muito antes de começar a filmagem. Aí, entre o que o cara que criou quer e o que a gente pode fazer, encontramos um meio termo bom pra todo mundo”, ensina.
Leia mais na edição desta sexta-feira (22) do JC.
Fotos do dia
Colunas JC
Ranking do dia
Últimas notícias
Manifestantes organizam ato para marcara história da capital pernambucana
Seleção Brasileira destaca apoio do torcedor na vitória por 2x1 diante do México
Compositor e maestro Marlos Nobre assume Orquestra Sinfônica do Recife
Regulamentação da Lei das Domésticas só sairá do Congresso no segundo semestre
Jarbas: "Movimentos são sopro de renovação"
Redes sociais são as grandes armas dos movimentos populares no Brasil
Prius, o inimigo dos postos de gasolina
Torreão é opção para famílias Especiais JC
O Mercado em alta