Jornal do Commercio
Solidariedade

Aplicativo criado no Recife ajuda cães a encontrar doadores de sangue

Dificuldades de obter material e alto preço levavam bichos à morte e inspiraram equipe de publicitários

Publicado em 27/09/2015, às 00h32

Sarah Rito, Thiago Reis e Renata Melo criaram o projeto Sangue Amigo, para ajudar cães que precisam de transfusão / Foto: Edmar Melo/JC Imagem

Sarah Rito, Thiago Reis e Renata Melo criaram o projeto Sangue Amigo, para ajudar cães que precisam de transfusão

Foto: Edmar Melo/JC Imagem

Mariana Mesquita

Cachorro também pode precisar de transfusão de sangue. E, do mesmo jeito que os seres humanos, essa substância preciosa só pode ser obtida por meio da doação feita por outros cães. Como o assunto é praticamente desconhecido da maioria dos criadores e quase não há oferta de sangue no mercado, muitos animais acabam morrendo por não terem acesso às transfusões no tempo necessário ou porque seus donos não têm condições de arcar com os altíssimos custos do tratamento: o sangue de uma transfusão chega a custar cerca de mil reais no único banco particular que existe no Recife.

Depois de ver uma amiga perder seu filhote canino por não encontrar um doador, o publicitário Thiago Reis teve a ideia de criar um aplicativo de celular que ajuda a colocar doadores e receptores em contato. Junto com Renata Melo e Sarah Rito, suas colegas na empresa Casa Comunicação, ele procurou veterinários, protetores de animais e organizações não-governamentais para poder formatar a proposta. Na sequência, o programador Davi Vieira deu a formatação final do aplicativo, pioneiro com essa finalidade em todo o mundo. O labrador Zulu e o boxer Criolo, “filhos” de Thiago, foram os primeiros a inaugurar o serviço, que hoje conta com 2.000 animais cadastrados em todo o Brasil, sendo cerca de 200 no Recife.  A ideia é não ter fins lucrativos e não se atrelar a nenhuma marca.

Batizado como Sangue Amigo, o aplicativo pode ser baixado via Apple Store ou Google Play, ou acessando o site www.projetosangueamigo.com.br. Quando alguém tem necessidade do serviço, o aplicativo encontra o doador ideal através do sistema de geolocalização e coloca os donos dos animais em contato via chat. Para evitar o comércio de sangue, as identidades de todos os envolvidos são protegidas. “Inclusive, há um botão para denunciar os usuários que queiram cobrar pelo sangue”, alerta Thiago. “O sistema é simples, auto-sustentável, gratuito e se torna mais forte a cada animal cadastrado”, resume ele, feliz. A meta agora é traduzir o programa para o inglês, ampliando o uso em outros países, e ampliar a plataforma para poder incluir usuários donos de gatos, já que o acesso ao sangue felino também é muito difícil.

Qualquer cão pode se cadastrar no aplicativo, mas apenas os doadores precisam ter mais de 25kg. Além disso, devem ter entre um e seis anos, gozar de boa saúde e não ter um histórico anterior de doenças como leishmaniose, toxoplasmose e “doença do carrapato” (erlichiose e babésia).  Como nos humanos, doar sangue é um ato de solidariedade que ajuda a salvar vidas e não traz nenhum mal a quem se dispõe a ajudar. 

No Recife, a proposta tem auxiliado, inclusive, a quebrar mitos negativos. A maior parte dos doadores locais são cães da raça pitbull, graças à adesão de uma associação com cerca de 900 criadores dedicados a mostrar que os grandalhões, saudáveis e dóceis, podem ser instrumentos de amor ao próximo.

Ao contrário do sangue humano, que não pode ser vendido e passa por um controle rígido desde os anos 1980, o comércio de sangue animal é liberado no Brasil. Como poucos se dedicam à área, muitos cães e gatos morrem por falta de acesso às transfusões, necessárias em casos como anemia grave e hemorragias após acidentes. “Muita gente já fazia pedidos de doação através das redes sociais, e nosso aplicativo ampliou o acesso a esse bem. Estamos beneficiando especialmente os animais resgatados das ruas. Geralmente, os protetores não têm verba para adquirir bolsas de sangue”, explica Thiago Reis. 

CANINOS TÊM CERCA DE 20 TIPOS DE SANGUE

Segundo o veterinário Magno José, da ONG Pet Social (uma das entidades que colaboraram para a criação do projeto Sangue Amigo), a sorotipagem nos cães é complexa e existem cerca de 20 tipos de sangue canino. Antes de fazer uma transfusão, os veterinários realizam testes de compatibilidade. Ele faz questão de frisar que não há nenhum risco para o animal que doa. “Meus próprios bichos fazem isso de dois em dois meses”, afirma.

Para Magno, a proposta do aplicativo elimina a necessidade de armazenagem e humaniza o processo de doação. “O sangue canino só pode ficar guardado por cerca de 30 dias em geladeira, porque no Brasil não temos bancos de sangue processado, com diferenciação hematológica, o que exigiria um equipamento caríssimo”, explica.

Para suprir a necessidade de fornecimento, as clínicas que vendem sangue contam com plantéis exclusivos para este fim, a maioria formados por cães da raça greyhound, que possuem uma maior compatibilidade geral com as demais raças, e fazem retiradas periódicas de acordo com a demanda.




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