Jornal do Commercio
Preservação

Conheça o patrimônio histórico de Fernando de Noronha

Muita coisa está em ruínas, mas a Vila dos Remédios e três fortes do século 18 passarão por obras de recuperação

Publicado em 29/11/2015, às 09h09

Alicerces das antigas oficinas de carpintaria e funilaria onde os presos trabalhavam / Foto: Cleide Alves/Especial para o JC

Alicerces das antigas oficinas de carpintaria e funilaria onde os presos trabalhavam

Foto: Cleide Alves/Especial para o JC

Cleide Alves
cleide@jc.com.br

Fernando de Noronha, arquipélago pernambucano a 545 quilômetros do Recife, é uma rota natural de sol e mar. Afinal, estamos falando de um conjunto formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos no Atlântico. Mas na hora de fazer a mala não coloque só biquínis e sungas. Reserve espaço para sapatos de caminhada. Você não vai se arrepender. Noronha tem um patrimônio histórico de quase 300 anos esperando sua visita.

A história de Noronha está desenhada nos 17 km² da ilha principal, a única habitada, batizada com o mesmo nome do arquipélago. Calce os sapatos e comece a viagem pela Vila dos Remédios – primeiro núcleo de urbanização da Ilha de Fernando de Noronha – erguida pelos portugueses em 1737.

É lá que ficam o Palácio de São Miguel (sede da administração), a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios, tombada como monumento nacional em 1961. Na visita à igreja, construída em 1737, preste atenção em quatro bancos de madeira gravados com a Cruz de Malta, na nave; no lavabo de cantaria e numa pintura no estilo manuelino, na sacristia. É o que resta do século 18.

Essas são as edificações de pé. Olhe ao redor e você verá ruínas contando a história da ilha, que era um presídio comum de 1737 a 1938, para ciganos, ladrões e assassinos – adultos e adolescentes.


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Junto do palácio (a antiga Diretoria do Presídio) estão as ruínas da Aldeia dos Sentenciados (a cadeia, quase desabando), restos de casas e alicerces de oficinas onde os detentos fabricavam pães, farinha, vassouras, botas e sacos de algodão, enviados ao Recife. “Os presos eram usados como mão de obra na pesca, na agricultura, na criação de gado”, declara a historiadora Grazielle Rodrigues.

O arquipélago, descoberto em 1503, ficou no abandono por mais de 200 anos. “Durante o Brasil-Holandês, de 1630 a 1654, a ilha era um celeiro para quarentena de escravos”, continua Grazielle, gestora do Memorial Noronhense. Só em 1737 Portugal decide ocupar o arquipélago de vez, fundando a vila, declara.

É nesse período que a ilha ganha o sistema de defesa, com dez fortificações em pontos estratégicos. Tudo deteriorado e precisando de cuidados para não desaparecer. “Os portugueses construíram um traçado viário para atender esse sistema. São os caminhos que ainda usamos. No passado, levavam aos fortes. Hoje, levam às praias”, diz ela.

Desde o último domingo (22), arqueólogos estão na ilha para analisar as ruínas dos Fortes de São Pedro do Boldró (sumindo pelo uso desordenado) e de Santo Antônio. O resultado da pesquisa vai orientar um projeto de restauração, conduzido pela administração local com verba do PAC Cidades Históricas.

O Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal também vai financiar a restauração do Forte e da Vila dos Remédios. A intervenção na degradada Fortaleza custará R$ 12 milhões e é uma iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Depois de pronto, terá museu, lojinhas e área para eventos, adianta o superintendente do Iphan, Frederico Almeida.

Para Luís Eduardo Antunes, administrador da ilha, com os pontos históricos organizados os turistas terão mais opções de passeios. “Isso pode aumentar o tempo de visita”, declara. Ele espera receber as propostas de restauração dos dois fortes e da vila em fevereiro de 2016, para licitar a obra.

“Noronha é um mosaico de tempos históricos, colonial, imperial e republicano. Em cada época, as edificações eram reaproveitadas e adaptadas. Com o PAC, queremos reerguer essa história num circuito museográfico”, diz Grazielle.

O Palácio de São Miguel, por exemplo, tinha um só pavimento. “Na década de 40, como sede da administração militar, ganha o segundo piso e o vitral de Heinrich Moser (pintor alemão), uma representação de São Miguel lutando contra o mal, executado por Aurora de Lima, discípula do artista”, diz Marieta Borges Lins e Silva, a historiadora da ilha.

Parte desse patrimônio será, mais uma vez, pintado pela empresa de Tintas Coral. A nova edição do projeto Cores de Noronha será realizada em 18 e 19 de dezembro com a pintura do Palácio de São Miguel, da Igreja dos Remédios, 12 imóveis da vila e dois conjuntos de casas.

“É sempre positivo para a ilha”, afirma Marieta. Que o diga o motorista de ônibus Jaime Agostinho de Andrade, morador da Vacaria, conjunto de 15 casas incluídas no projeto. Todo fim de ano ele compra tinta e pinta as moradias, cada uma de uma cor. Agora, vai economizar. “Sabia disso não, que notícia boa! diz ele, já pensando nas cores da pequena vila. 




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