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Meio Ambiente

Tartarugas voltam a fazer ninhos na Praia do Sueste, em Noronha

As tartarugas-verdes são as únicas que se reproduzem na ilha, das cinco espécies existentes no Brasil

Publicado em 29/11/2015, às 09h10

Luís Felipe Bortolon, pesquisador do Tamar, coletando dados de uma tartaruga-verde na Praia do Sueste / Foto: Cleide Alves/Especial para o JC

Luís Felipe Bortolon, pesquisador do Tamar, coletando dados de uma tartaruga-verde na Praia do Sueste

Foto: Cleide Alves/Especial para o JC

Cleide Alves
cleide@jc.com.br

A Praia do Sueste, na Ilha de Fernando de Noronha, voltou a ser um ponto de desova de tartarugas marinhas. Fazia tempo que isso não acontecia, segundo relato de moradores antigos. Para ser exata, desde a década de 90. Até que, três anos atrás, uma fêmea escolheu a Baía do Sueste para pôr seus ovos. E fez seis ninhos nessa temporada de desova. No início de 2015, a cena se repetiu.

“Não é uma procura aleatória, as tartarugas estão voltando ao Sueste”, comemora Rafael Robles, coordenador do Projeto Tamar em Noronha. Os animais tinham se afastado, diz ele, por causa do uso desordenado da praia. Com o turismo controlado na baía, os quelônios estão retornando.

A fêmea que pôs os ovos no Sueste é a Chelonia mydas, popularmente conhecida como tartaruga-verde ou aruanã. É a única que se reproduz, desova e se alimenta em Noronha, das cinco espécies existentes no Brasil. Todas ameaçadas de extinção. A tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) também frequenta a ilha, mas apenas para se alimentar e crescer.

Foi na Baía do Sueste, na sexta-feira, 20 de novembro, que os biólogos do Tamar Luís Felipe Bortolon e Lourival Dutra Neto, capturaram a tartaruga-verde que aparece nesta reportagem. O réptil, de 74 centímetros de comprimento de casco, é um jovem, com idade estimada de 15 a 20 anos pelos pesquisadores. Com 96 centímetros já será um adulto, diz Felipe.


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A captura é uma das atividades de pesquisa desenvolvidas pelo Tamar no arquipélago, para proteção dos animais, desde 1988. Os pesquisadores mergulham, trazem a tartaruga para a areia, medem o casco, marcam o animal, coletam tecido para análise genética, avaliam a saúde e devolvem o bicho à natureza. O jovem capturado estava gordo – quase não se via o pescoço – e bem nutrido.

Dias de segunda e quinta-feira, os visitantes que estiverem na praia podem observar o trabalho, fotografar e fazer perguntas aos pesquisadores. “É preciso conhecer para preservar”, ensina Rafael Robles. A captura é realizada nas Praias do Sueste, Boldró e Porto, na maré cheia. Num passeio de barco ou num mergulho, a pessoa vê a tartaruga em seu ambiente natural.

Aliás, o vai e vem de tartarugas-verdes na ilha está começando, informa Rafael Robles. Em dezembro já tem aquele clima de namoro no ar (melhor, no balanço do mar) e elas sobem até a areia para fazer os ninhos. O pico das desovas é em fevereiro e março, com maior concentração nas Praias do Leão e do Sancho. E o pico de nascimentos é em abril e maio. Cada fêmea põe cerca de mil ovos por temporada.

Se a quantidade chama a atenção, é admirável o esforço da tartaruga para fazer o ninho. Elas saem da água, se arrastam na areia, cavam um buraco, depositam cerca de cem ovos, cobrem com a nadadeira traseira e voltam para o mar. Repetem a operação de oito a nove vezes, enquanto durar as desovas, em pontos distintos da praia. Só um filhote chega à fase adulta, os outros morrem de fome ou são comidos por outros bichos.

Quando o Tamar se instalou em Noronha, 31 anos atrás, os pesquisadores registraram 29 ninhos na ilha. “Agora, a média é de 160 por temporada”, diz Rafael. “No período 2014-2015 contamos 267 ninhos”, acrescentam Felipe e Lourival. É o resultado do apoio da sociedade, que parou de caçar os bichos e de coletar os ovos, avaliam.

As aruanãs só desovam em ilhas oceânicas e na fase adulta (no Brasil, elas vivem de 80 a 100 anos) chegam a 1,30 metro de comprimento e 200 quilos de peso. É a mais comum em Noronha, numa proporção de dez tartarugas-verdes para uma de pente. Herbívoras, comem algas e gramíneas marinhas, conta Lourival, lembrando que a Baía do Sueste, onde fica o manguezal da ilha, é a maior área de alimentação dos quelônios, no arquipélago. 

Financiado pela Petrobras, com apoio da Fundação Pró-Tamar, o projeto tem 35 anos no País e é vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “O primeiro filhote solto está se reproduzindo agora. Estamos protegendo a primeira geração”, diz Rafael.




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