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BAIRRO

Miró também é da Boa Vista

Poeta - e antes de tudo, cronista - distribui pelo Centro do Recife, onde mora atualmente, intervenções literárias e reflexivas

Publicado em 06/12/2015, às 06h35

Miró cola intervenções no asfalto da Rua do Giriquiti, Centro do Recife / Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Miró cola intervenções no asfalto da Rua do Giriquiti, Centro do Recife

Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Kalor Pacheco
kpacheco@jc.com.br

Perto das cinco da tarde, assim que Miró, 55 anos, viu a gente – o fotógrafo e a repórter –, acenou saltitante, cheio de gana. Eram os últimos raios de sol daquele dia no bairro da Boa Vista, bem perto do Largo da Santa Cruz; estávamos na vizinhança da pensão onde o artista mora atualmente, na Rua da Alegria. 

No mês de julho Miró deixou – ou melhor, foi resgatado, delirante e desolado, por um vizinho – a Muribeca que carrega na sua assinatura para ser internado no Hospital Oswaldo Cruz, em Santo Amaro. Foi neste momento que também deixou para trás o álcool e os vícios daquela vida insípida, solitária, que em nada fertilizavam a sua poesia. Pelo contrário, se trancafiar sozinho em um prédio, sempre à janela, sufocava cada partícula de lirismo que só pode ser alimentado pela vida que se vive com gosto, nas ruas. “O que me despertou em relação a essa mudança, a essa ruptura de tempo na minha vida, é que eu voltei a escrever com mais lirismo do que trash, né? Minha poesia, ela é muito trash, brincalhona, escrota, denunciativa; mesmo quando tem um pouco de lirismo, é mais assim, contestadora, verossímil, né?”, colocou.

“Então, tá acontecendo comigo o contrário. Eu estou morando no centro nervoso da cidade e me veio agora escrever com lirismo.” No meio de um cruzamento, no asfalto, entre as pessoas e os lugares que estão sempre em trânsito, ainda que estáticos, Miró cita Arnaldo Antunes em uma de suas intervenções: “Não precisa pressa / Todos os lugares estão parados”. 

O escritor diz não saber se ainda é poeta, porque não é poeta somente, mas se tornou um cronista, por exemplo, “de tanto, talvez, ver a dispersão do ser humano, naquela coisa triste que é a Praça Maciel Pinheiro, onde as pessoas moram na rua com cachorro e os filhos mamam com as mulheres na rua. Eles dormem na igreja, cheiram cola, estabeleceram que lá é o lugar deles. Hoje eu me considero mais um cronista que um poeta. Me vêm agora imagens líricas, de dor, de denunciar: você está vendo isso?”

Miró
Miró prepara as intervenções ainda em casa, na Rua da Alegria; depois cola pela Boa Vista
Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Hoje eu me considero mais um cronista que um poeta. Me vêm agora imagens líricas, de dor, de denunciar: você está vendo isso?


Nos confessou ainda que poderia ser um jornalista – e me entregou um poema-provocação numa das folhas de papel que espalha pela Boa Vista: “O que faz um jornalista sem notícias?” – de tanto que observa as cidades e seus viventes em suas poesias crônicas: os assassinatos e as peladas na periferia e as horas e os ônibus no centro; mas também as brigas e os baculejos no asfalto e os beijos e as balas no morro. Ou seja, “o deserto humano”, como o escritor classificou as vicissitudes de nossa espécie.

“Você já agradeceu a Deus por ter aberto os olhos?” ou “se no mundo não tivesse espelho?” são alguns questionamentos que Miró escreve com canetas hidrográficas coloridas numa folha de papel off-set antes mesmo de sair de casa – frases autorais ou não; inéditas ou já publicadas. Depois vai pra rua, onde faz umas cinco xerocópias de cada. Em seguida, distribui prosas poéticas pelas paredes, postes e pistas. “A ideia é que cada um tem sua noção diferente do que eu quis dizer. O que eu sinto nas pessoas é uma carência enorme de algumas palavras”, diz. 

Miró

Miró

Miró

A “praia” de Miró na Boa Vista é a Rua do Giriquiti. Foi lá que nasceu Amor à Primeira Vista: “Estou quase precisando usar óculos / De tanto olhar / Para a moça / Que segura a bandeira da ótica Diniz”. No mesmo local, depois de ter colado uma frase que recentemente ficou famosa no mundo virtual – beijar é melhor que revólver –, ele observou um casal. Depois de ver a intervenção literária, a moça beijou repentina e repetidamente o namorado e, segundo Miró, fez como se dissesse: “tá vendo? é melhor beijar do que você ter uma arma, do que brigar”.

Está na mente do poeta-cronista um novo título de livro: Vinte para Pensar um Pouco (na semana seguinte, o envelope que leva 22 folhas com as frases, foi rebatizado de Amanhã Não Existe Ainda). “Não vai haver nenhuma frase que eu vou colocar em parede para que o sujeito leia ‘ah, é! hoje é domingo’, ‘são sete e meia’, ‘o pastel daqui é bom’ ou ‘aqui o cigarro é mais barato’. Não. Não é isso. É pra ele rir, sair do rush da rua, da tristeza em que ele esteja. Que mexa com ele. É uma coisa para penetrar no outro ser, para que ele, dentro da cidade, ele vá pensando.”


Miró
No dia em que saiu com a nova publicação, artesanal, Miró provocou leitores com segredos
Kalor Pachec/JC 

Nas suas linhas já publicadas, Miró parece amigo de infância do Todo Poderoso: “Deus saiu pedalando sua bicicleta”, “Deus foi brincar de se esconder”. Agora diz que não é ateu ainda, pois acha que existe algo por trás. “Há uma confusão: se Deus gerencia esse universo em que agora estamos, ou se tudo não depende da gente.” Da gente ou de quem olha por nós. No caso de Miró, a sua mãe – para quem agradeceu ao céu e nosso encontro, coroado entre o pôr do sol e o nascer da lua, visto da varanda do 3º andar Edifício Texas, miolo da Boa Vista, quando disse: 

– Obrigado, Dona Joaquina!!!




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