Ao concluir a graduação em psicologia, o recifense Rodrigo Gaião, 26 anos, decidiu levar uma vida pouco convencional. Desde 2010 - com uma breve pausa de três meses para matar as saudades do Brasil - ele está na estrada. Já passou por vários países na Oceania, Ásia e América Latina, e está agora no Canadá, onde vai começar uma pós-graduação. Confira a seguir um resumo, contado por ele próprio, das suas aventuras pelo mundo. Para conhecer as histórias de outros viajantes que partiram em longas jornadas como essa, leia a matéria de capa do caderno de Turismo desta quinta-feira (19), no JC.
"Terminar a faculdade e entrar direto em um emprego? Eu escolhi outro caminho! Escolhi me aventurar, descobrir outros lugares, outras pessoas e outras culturas. Resolvi “me jogar”. Decidi que seguir roteiros, mapas e livros não me dariam a mesma sensação de liberdade, afinal, procurava por algo que fosse expressão própria da minha liberdade, da minha intuição. Essa jornada começou exatamente três dias após minha formatura como psicólogo, no final de 2010, e se estende até hoje.
Oceania
A primeira sensação é de estar em uma selva. Tudo é novo, todos são novos e, principalmente, a forma de comunicação é totalmente nova. Por mais que todos aqueles anos de curso de línguas te ajudem, nada se compara a lidar com os sotaques, gírias e piadas de outros países. Nada também se compara a descobrir quais ônibus pegar, por quais ruas ir, quais festas curtir e quais museus, parques e cultura admirar. No fim, essa é a mágica! A mágica de aceitar cada situação, cada momento como ele é por si só.
Iniciei minha viagem em Auckland, na Nova Zelândia, mas em poucos dias já estava em Sydney, na Austrália, para a conclusão de um curso de Inglês. Por sorte, depois de trabalhar em vários lugares ¬- lavando pratos, entregando panfletos – consegui o emprego perfeito: trabalhar em um albergue. Afinal, não há nada melhor para um viajante do que estar em contato direto com jovens de outros países, culturas e religiões.
Ásia
Após quatro meses de trabalho e estudos, me via financeiramente pronto e psicologicamente ansioso para me debandar para o Sudoeste Asiático. Primeira parada: Bali. Uma cidade que me impressiona pela fusão entre o concreto e o natural. Não é difícil andar pelas ruas de Ubud com a companhia de macacos e, por outro lado, não é difícil andar pela Poppies Lane e encontrar lojas de grifes renomadas. E uma caminhada de 20 minutos faz você escapar de todas essas misturas e relaxar em uma das melhores praias para surfe do mundo.
De lá, fui a um dos lugares mais bonitos em que já estive na vida: Gili Islands. Bares, barcos, aulas de mergulho em uma água cristalina te fazem ter certeza de que o paraíso é ali. Mas como todo viajante tem a necessidade de estar em constante movimento, alguns dias depois resolvi escalar o vulcão Rinjani. Foram três dias e duas noites para alcançar quase 3.700 m. Cansativo? Extremamente! Mas com a ideia de superar todos os seus limites físicos acompanhado das mais belas paisagens não havia esforço que me fizesse desistir. Durante o caminho, compartilhamos comida e chá com os locais que nos ajudavam. Acordamos acima das nuvens e observamos cachorros selvagens e macacos em pequenas cavernas.
A Malásia foi meu próximo destino. E, como acontece com todos os viajantes, algumas coisas dão errado. Alguns dias depois de chegar, tive meu cartão clonado na capital, Kuala Lumpur. Estresse máximo, mas nada que pudesse superar a ideia de que continuar viajando era meu objetivo. Vendi computador, violão, celular e relógio e consegui dinheiro suficiente para me manter enquanto não resolvia com o meu banco no Brasil. Logo resolvido, decidi partir para a tão sonhada Tailândia!
A Tailândia é um daqueles países pelos quais é fácil se apaixonar. Você pode escolher ficar nas ilhas do sul e aproveitar as diversas ilhas, se misturar ao caos cultural de Bangkok ou relaxar no norte, tendo contato direto com os templos budistas. Eu decidi cruzar o país. As longas viagens – às vezes de mais de 20 horas – não me incomodavam. A ideia de acordar em outra cidade é sempre mágica.
Após a Tailândia, onde também trabalhei em um bar, acabei fazendo um roteiro rápido de duas semanas em Laos, duas no Camboja e duas no Vietnã. Me deparei com a pobreza extrema do Laos, mas ao mesmo tempo com a brilhante ideia do Tubbing. No Vietnã, fiz parte do caótico trânsito de lambretas e até me aventurei a alugar uma. Passei por museus da guerra dos EUA, comi entre os locais a famosa sopa de arroz e provei licor de cobra. No Camboja fui ao Angkor Wat, aos campos de concentração Khmer em Siem Reap e às maravilhosas e quase intocadas praias do sul, e até trabalhei em um restaurante.
Quando vi que ainda tinha a possibilidade de trocar meu voo para o Brasil, resolvi retornar à Tailândia por dois meses meio. Sem dúvida, essa foi a melhor decisão da minha vida. Me mudei para Ko Phi Phi Island, onde foi gravado o filme A Praia, e trabalhei no mesmo bar de antes. Ali conheci, talvez, algumas das pessoas mais incríveis da minha vida. Morar em Phi Phi era uma combinação perfeita: Durante o dia, praias paradisíacas, futebol e relax. Durante a noite as festas mais insanas.
América do Sul
Ainda não satisfeito com esse roteiro, vi que ainda tinha condições de viajar um pouco mais e resolvi conhecer melhor a América do Sul. Junto com um amigo que viajou para Santiago ao meu encontro , resolvemos cruzar o Chile, a Bolívia e o Peru em 28 dias.
Passamos pelo deserto do Atacama, no norte do Chile, e cruzamos a fronteira entre Chile e Bolívia com uma das melhores aventuras da minha viagem: o famoso Salar de Uyuni. Nada mais nada supera a sensação de chegar ali às cinco da manhã e se sentir no céu.
Entre tantos outros lugares mágicos que visitamos na América do Sul, indico, sem dúvidas, Copacabana, Isla del Sol, Potosi, Uyuni, Cuzco, Macchu Picchu, La Paz e o Atacama.
Viajar é sempre uma oportunidade de crescer, viver e sentir. É estar por si só. Sua única companheira real é sua mochila e seu único real recurso é sua mente. As pessoas, os lugares, os ensinamentos. Adicionalmente, você compartilha todas essas sensações com outros andarilhos do mundo inteiro, que também te ensinam como nada na vida é permanente. Eles vêm e vão, deixam suas marcas e suas ideias e cabe a você assimilá-las ou dispensá-las. Você naturalmente esquece a antiga concepção que tinha sobre objetos, porque, no fim de tudo, todos nós tínhamos os mesmos objetivos: conhecer o que há lá fora, explorar, sentir, contribuir e acima de tudo, fazer a única coisa que a vida nos pede: viver".
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